Leitores assassinos

Por Luiz Antonio de Assis Brasil
NO ZERO HORA – VIA CONTEÚDO LIVRE

São do renomado intelectual José Castello as seguintes considerações: “Em que medida somos nós, leitores, que destruímos a reputação de um livro? De que maneira leituras apressadas, indiferentes, superficiais, acabam por matar grandes livros?

Sempre achei que o leitor não é só leitor, é coautor dos livros que lê. Coautor, mas também pode ser o assassino dos mesmos livros. Isso sem importar que sejam grande livros, ou pequenos livros”.

Está coberto de razões. Corremos o risco de perdermos o encanto da leitura e o prazer do texto sob a alegação de que não temos tempo para nada e, de modo especial, para a leitura.

O tempo, ou a pseudofalta dele, acabam por gerar pensamentos que são repetidos sem nenhuma espécie de crítica. Alguns desses: ninguém lê mais do que as primeiras páginas de um livro; os capítulos devem ser curtíssimos; o romance está destinado ao desaparecimento; então: ler romances, para quê?; a crônica, porque curta e leve, é o gênero preferido pelo povo etc.

Será mesmo verdade que não temos tempo?

Como explicar, então, o exercício de paciência exigido para as complexas criações do espírito humano, que vão desde as pesquisas para a cura do câncer ao estabelecimento de uma nova teoria a respeito do surgimento do Universo ou, ainda, à elaboração de um consistente pensamento filosófico ou estético?

E agora, mais concretamente: como explicar as seis horas por dia que um jovem dedica à internet, operando jogos sofisticadíssimos? Nada disso seria possível com pressa ou impaciência.

Não nos falta tempo; faltam, sim, interesse e disposição.

O fenômeno trazido à luz por José Castello acaba levando a ações patéticas, como o abandono de uma obra magistral nas primeiras cinco páginas, isso porque ela não nos deu, nessas páginas iniciais, motivos para divertimento fácil e pouco uso da imaginação.

O agente literário nova-iorquino Noah Lukeman, em obra ainda não traduzida no Brasil, The First Five Pages, elabora algumas proposições interessantes. Diz, por exemplo, que as primeiras cinco páginas não terão um fim em si mesmo, mas elas anunciam o quanto um livro pode render. Logo: ler as primeiras cinco páginas como finalidade em si mesma é uma das formas de trucidar o texto.

Quer-se dizer, de maneira sintética: para a conquista de um avanço emocional, cultural ou artístico, é, sim, necessária alguma dose de trabalho e de concentração.

Assim: em vez de assassiná-lo, demos oportunidade ao livro.

Comentários

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  1. Jóis Alberto 24 de outubro de 2011 16:17

    SERÁ JORGE LUÍS BORGES UM ‘LEITOR ASSASSINO’?

    Como mediano leitor de Charles Baudelaire – digo mediano, não por falsa modéstia, mas porque deixo o mérito de ser grande leitor de Baudelaire para tradutores do porte de um Ivan Junqueira, certo? -, há muito, pelo menos desde a adolescência, eu conhecia a famosa referência do poeta ao ‘leitor hipócrita’: ‘Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão’, conforme verso famoso. Agora, com o título do artigo acima, fico sabendo que existem também ‘leitores assassinos’. Mas não se trata de assassinos que já eram leitores ou passaram a ser, frequentando biblioteca de presídio. De quem se trata?

    Vamos por parte!, não como um Jack, o Estripador, um dos mais famosos e cruéis assassinos de todos os tempos, que, segundo infame humor negro e clichê, teria dito ‘vamos por parte’ ao esquartejar corpos de prostitutas! Nem também iremos ‘por parte’, conforme teria defendido, ao criar o método famoso, o grande René Descartes – cujo sobrenome francês, ao ser pronunciado incorretamente, como o fazem locutores e locutoras da FM Universitária de Natal, dá impressão de que se trata de descartes, do verbo descartar.

    Antes que leitores/internautas deste site possam descartar a leitura dessas mal traçadas, não só por eu estar usando pela segunda vez um clichê infame – ‘mal traçadas linhas’ – , mas especialmente por eu estar demorando a ir ao ponto, a ser mais objetivo – confesso ser um dos meus prazeres intelectuais mais divertidos ver gente inteligente se exasperar me cobrando objetividade – ‘mais objetividade! mais objetividade!’, imagino Nelson Rodrigues, bradando em tom irônico, ao desancar os tais ‘idiotas da objetividade’, então antes que o leitor/internauta fique irritado a ponto de tornar-se um ‘assassino’, por eu não ser mais objetivo ou por eu ter redigido um parágrafo recheado de vírgulas, como os longos parágrafos de Proust (!), finalmente chego ao ponto! Não ao ponto de exclamação, nem ao ponto final.

    Então vamos lá! Com todo o respeito que possamos ter por Luiz Antonio Assis Brasil, menos conhecido do grande público, ou por José Castello, famoso, prestigiado, premiado e muito mais conhecido, mas o fato é que um escritor potiguar, o saudoso Américo de Oliveira Costa mostrou muito mais talento e competência ao tratar dessa questão.

    No livro “O comércio das palavras” (Natal-RN: Fundação José Augusto, 1991), Américo de Oliveira Costa inicia o livro, elegantemente, citando que “cada dia que passa, o conselho de Flaubert, ‘ler atentamente’, encontra menos probabilidade de aceitação e execução”. E segue o professor Américo fazendo comentários refinados do tipo “… e essa agitação transpôs os próprios limites, os próprios recessos em que os indivíduos, ao tipo beneditino, podiam comprazer-se, em silêncio e vagar, na doce e consoladora convivência dos livros e dos autores”; recorrendo a André Maurois, aqui, e a ninguém menos do que Montaigne, acolá, com objetivo de embasar suas argumentações, para, finalmente, citar “confidências de Jorge Luís Borges, entre as tantas de seu livro ‘Diálogos últimos’, em companhia de Oswaldo Ferrari:
    – “… acredito não haver lido nenhum livro (da primeira à última página), do princípio até o fim, salvo certas novelas e também a ‘História da Filosofia ocidental’, de Bertand Russel: – um livro, talvez, que levaria comigo para uma ilha deserta…”
    – “… existe, sempre, em reler, um prazer que não há em ler. Digo constantemente, por exemplo, que meu escritor preferido é Thomas de Quincey. Pois aí tenho os quatorze volumes dele que adquiri há algum tempo, e certamente, após minha morte, haverão de descobrir que há muitas páginas ainda por abrir nesses livros preferidos”.

    Então é isso!

    Fico com as argumentações de Américo de Oliveira Costa e as confissões de Jorge Luís Borges. E concluo: por mais leitor voraz que sejamos, sempre haverá um ou outro livro, em nossas estantes, à espera de leitura, concordam? Considerar o leitor um ‘assassino’ por causa disso é um exagero que somente um leitor muito ‘leitor-hipócrita-meu igual-meu irmão’ para concordar com assertiva tão apressada, quanto peremptória!

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