Leituras de Dostoiévski

1. Dostoiévski e o seu pai

A mãe de Dostoiévski morreu precocemente de tuberculose, em 1837.  Foi um duro golpe para o escritor que acusava seu pai de maltratá-la.  O pai de Dostoiévski, ávaro e violento, foi assassinado por servos enfurecidos pelo tratamento que recebiam. O Escritor carregava o sentimento de ódio em relação ao seu genitor, e em várias ocasiões cupou-se de desejar sua morte. Esse fato foi analisado por Freud  em um famoso artigo, Dostoiévski e o parricídio, de 1928

Em uma cartapublicada por seu biógrafo, o escritor revela o seu sentimento ambiguo com relação ao pai ainda vivo

“Eu sinto muito por nosso pobre pai. Uma personalidade estranha! Oh, quanta infelicidade teve de suportar! Eu poderia chorar de amargura por não haver nada que o console. Mas, você sabe, papai não conhece mesmo o mundo. Viveu nele por cinquenta anos e mantém as mesmas ideias de há trinta anos a respeito das pessoas. Bendita ignorância! Mas ele está muito desiludido com o mundo. Essa parece ser nossa sina comum”

Dostoievski: Um escritor em seu tempo – Joseph Frank.

2. A Liberdade em Dostoiévski

Focando seu pensamento essencialmente no homem, Doistoievski tenta desvendar sua alma , as consequencias ocultas de nossos atos. Sua obra é uma discussão metafísica do problema da liberdade, do determinismo e livre- Arbítrio,

As paisagens, os movimentos e as ações são para o romancista russo apenas um meio para materializar o que realmente lhe é de interesse: o homem e seus abismos espirituais. Esse ser que se debate entre a má liberdade e o bom constrangimento, certamente não tomará para si valores reles. O autor de Crime e castigo basear-se-á em teses que não são propriamente humanas, porém, pois estará sempre ligado às leis de Cristo. Um Cristo peculiar, um Cristo de Dostoievski.

A liberdade, para esse autor, assim como o bem e o mal, tema constante em suas obras, se apresentará em seu aspecto metafísico. Isso é, a liberdade mesquinha, aquele deslocado querer de ir e vir, pouco interessa a Dostoievski. Enquanto romancista, o que lhe interessa é a liberdade superior, embora os homens sejam quase sempre fracos demais para servir à liberdade, parafraseando Ivan Karamazov.

A Liberdade (que podemos então, nas intenções do romancista, grafá-la em maiúscula, de acordo com Wilson Martins) pode chegar a contradizer a liberdade política do senso comum, pois não é a prisão que consiste no seu inverso, mas as tempestades interiores, mas a consciência, mas a moral.

A vida do homem dostoievskiano, uma vida sem paisagem, uma vida voltada ao interior, faz pressupor que a lei dos homens lhe é insuficiente. Para ele, uma escolha que esteja de acordo com a maioria, mas de encontro com sua visão de mundo, provocar-lhe-á, certamente, momentos de remorso e culpa. A Liberdade, então, tem como único caminho o sofrimento e o flagelo interior. Um cumprimento de pena nada mudaria um homem que se julgou culpado. Não se trata da condição do ser que não vive em cativeiro, mas da condição do ser que está de acordo com seu juízo moral ferrenho.

Nesse jogo de recompensações morais, o suicídio, como faz Smerdiakov, é um aliado, porque há um tribunal inferior que o impõe. E a condenação constitui para esse tipo de culpado uma oportunidade de libertação. É a profundidade trágica do ser, que é explorada em sua obra, que guia o mundo aos olhos do romancista. Raskolnikov, indo para a Sibéria, não soltando o volume da bíblia, já se sentia reconciliado consigo e com Deus.

O humano em Dostoievski diz respeito aos problemas metafísicos. Sendo assim, o escritor russo, evidenciando os problemas humanos e super-humanos, constrói uma obra que se desenvolve sob o signo da tragédia. Quase não se vê em sua obra espaço para sentimentos mais comuns e aparentemente menos profundos, aos seus olhos, como, por exemplo, o amor romântico. Aliás, sentimento este que se passa apenas como um momento da vida do homem. E uso o termo ‘homem’ não como “ser humano em geral”, pois a alma humana tratada por Dostoievski é antes de qualquer coisa um principio masculino, completamente preso à unidade e à interiorização do ser, de acordo com “Dostoievski como romancista”. Dessa forma, o amor, sendo uma arbitrariedade, violentaria essa interiorização. Não que não haja espaço para altíssimas temperaturas e sensualidade. Todavia, parece que a realização plena do amor desvirtua o ser da preocupação dos eternos problemas e mais profundos questionamentos que o atordoam.

Esse fato de que Dostoievski entende a alma humana como algo essencialmente masculino muito importa para a sua noção de Liberdade. Isto porque lhe parece que o ser essencialmente masculino é tendencioso a introverter-se. E o ser introvertido tem enorme tendência de forçar os outros à sua imagem, ou negá-los, para não destruir a sua ideia de como deve(m) ser.

Poder-se-ia dizer, então, que a introspecção é motivo para a existência dessa Liberdade em Dostoievski, porque deixa claro que esse ser julgará obstinadamente o objeto sujeito à sua projeção, e, sendo esse objeto a própria pessoa, esse precisará passar pelo juiz mais tirano que poderia haver: ele próprio. Berdiaev afirmou que Dostoiévski “descobriu uma cratera vulcânica em cada ser.” E esses vulcões são sempre retumbantes, segundo James Townsend.

Os filósofos mais intensos, os guerreiros mais honrados e os homens que se remetem ao âmago do agir, dos costumes e das leis que impõem a si mesmo, certamente poderiam ser personagens dostoievskianos. Mas, certamente, isso se trata de uma minoria, porque de nada importa a Dostoievski os seres que se distanciam sempre da dor e do sofrimento, pois nunca poderiam ter real inteligência e coração profundo.

Localizada às margens do rio Neva, São Petersburgo foi construída sob ordens de Pedro, O Grande, inspirada em Paris; cidade foi principal cenário de Fiodor Dostoiévski.

3. Dostoiévski – O Homem e o filme em 10 partes

“Nada escapa a Dostoiévski. À exceção de Shakespeare, não há leitura mais estimulante.” Virginia Woolf.

O filme começa com um plano aberto onde estão situados vários pelotões na Praça das Armas.  São sete horas da manhã do dia 22 de Dezembro de 1849. A temperatura é de 20 graus abaixo de zero.  Milhares de curiosos aguardam a execução dos prisioneiros que serão fuzilados de tres em tres, um poste para cada um. Dostoiévski faz parte do segundo grupo. Os condenados se olham pela primeira vez desde a prisão. Eles se abraçam se despedindo da vida, na presença do governador- geral de São Petersburgo, do chefe de polícia e dos oficiais da guarda do tsar. A sentença de morte é lida. Não está muito claro a razão da morte, mas eles serão executados. É a justiça do homens, tremendamente falha. Os condenados cobrem o rosto com o capuz, vai começar o fuzilamento.  Dostoiévski balbucia para os dois colegas ao lado: “ Nós vamos para o céu.” Nós vamos virar pó, responde o companheiro de morte. Um padre faz sermão e pede para os condenados beijarem a cruz; É chegada a hora…

A Câmera acompanha um mensageiro que adentra na Praça montando um cavalo e portando um envelope, a pena foi comutada pelo tsar. Dostoiévski é condenado a quatro anos de trabalhos forçados. Em seguida servirá como soldado raso. 

 A troika espera os condenados para levar pra prisão siberiana.

In off: Dostoiévski escreve para o irmão:Hoje eu morreria, passei 45 minutos com esse pensamento, experimentei  a sensação do momento final e agora estou vivo outra vez…

Irmão, eu juro que não vou perder a esperança e vou manter imaculados minha alma e coração.

Prisão em Tobolsk.  Fedorente e miserável. Um Preso tenta suicídio. Ali estão homens extremamente violentos.  Um preso agride Dostoiévski porque está tomando chá., um luxo, de onde ele tirou o dinheiro. Os presos têm o rosto marcados com gado, por tres letras. Duas nas face e uma na testa. A unica companhia que o escritor tem é um bíblia, ofertada por Natália Fonvizina.  Essa bíblia depois desaparece. Está com o fortão, valentão que agride a todos. O amigo de Dostoiévski  tentar recuperar e o valentão diz que não devolve pelo valor proposto.  Ele é então morto.  O clima é muito pesado dentro da prisão. Mesmo assim Dostoiévski acha importante essa temporada e avalia como um padecimento necessário na sua evolução interior.

O escritor tem ataque de epilepsia e é atendido por um médico que ja leu Gente Pobre ( 1846).  O escritor ja é conhecido por muitos e consagrado. O médico lhe oferta um exemplar do Dom Quixote.  Esse livro vai ser muito importante na vida literária do escritor.  Dom Quixote assim como Dostoiévski lutam num mundo que perdeu a fé.  Escreve o escritor posteriormente  em seu diário do escritor. ” Não existe nada mais profundo e poderoso que este livro. Representa até hoje a mais grandiosa e acabada expressão da mente humana. Se o mundo acabasse e no além nos perguntassem: Então, o que você aprendeu da vida? Poderíamos simplesmente mostrar o D. Quixote e dizer: Esta é a minha conclusão sobre a vida. E você? O que me diz? “

Um Homem apaixonado

Apesar de tudo, Dostoievski é um homem apaixonado. Várias mulheres casadas se apaixonam por ele. A primeira grande e tormentosa paixão é por Maria, uma mulher casada, tuberculosa. O Marido Orlov morre, e ela casa com Dostoiévski. Um casamento infeliz.  Masha e Sasha mudam para Moscou. Dostoievski tem pressa de escrever. Precisa ganhar dinheiro e tá com muitas ideias.  Não tem tempo para Maria. Elá o provoca dizendo que ele não é Gogol para elogiar bandidos. E diz que não é nenhuma heroína de seus romances. E ele filosofa: Amor não é capricho, o sofrimento nos uniu. Ninguém é pecador o tempo todo. Dostoiévski avalia que aprendeu com aqueles criminosos. Num diálogo posterior comum sujeito ele defende a tese, que a prisão é positiva para alguns homens. Mas, para ele não seria.

No filme tem um bom diálogo sobre a escravidão na Rússia. Um personagem elogia o escritor Herzen que escrve contra essa escravidão que escandaliza o sensível Dostoiévski. Ele responde, muito fácil falar de escravidão morando confortavelmente em Londres.   O escritor diz não ter nada contra Herzen, e se for a Londres se encontra com ele.

Dostoiévski viaja para a Europa e se apaixona por uma ninfeta de 20 anos.  Joga e perde muito dinheiro.  Se corresponde com o irmão que lhe socorre muitas vezes. Ele acha que merece o sacrifício dos outros. Sabe do seu valor como escritor.  É traído pela jovem.  Sofre muito. Tem  ataques terríveis de epilepsia. Ao retornar à Rússia casa novamente.

O Filme

Maravilhoso o filme com atores e cenários russo. Atores perfeitos para Dostoiévski. Mulheres magníficas, cenário e diálogos condizentes com o pensamento do escritor. As cenas na neve. O namoro de Dostoiévski com a mulher dos seu amigo. Ela é atriz e pede para ele escrever uma peça pra ela encenar. Ele diz que não consegue, mesmo tremendamente apaixonado por ela que o convida fugir. O marido super carinhoso e Dostoiévski, um amante sem escrúpulos.

A Vida de Dostoiévski e seus Romances e novelas  ja foram levados para o cinema e televisão uma centena de vezes. A obra do escritor com seus anti-herós é perfeita para o cinema.  Tem muita açao e suspense nos seus romances, próprio do cinema. Muitos cineastas se inspiraram em Dostoiévski para filmar.  Veja os filmes de Scorcese, Kubrick, etc  Belo filme que ja asssisti algumas vezes e recomendo .  Reproduz bem a vida do escritor atormentado

Abraços cinéfilos – Dosto – Misha

4. Dostoiévski e Nietzsche 

Nietzsche, nascido 23 anos após Dostoiévski, admirava profundamente o escritor russo. Em carta datada de 1880 a seu grande amigo Peter Gast, Nietzsche declara:  Aqui temos um psicólogo com quem eu concordo

Em 1887 ele escreve sobre o romance Notas do Subterrâneo (1864):” Uma confissão de instrospecções espantosas e atemorizantes”.

O ant-herói sem nome dessa história mergulha nas profundezas da miséria e da paralisia que vêm com a doença da autoconsciência: “ sou um homem doente. Sou um homem desprezível. Sou um homem sem atrativos. Creio que meu fígado está doente…”

5. Dostoiévski e Gogol

Todo romance russo procede do conto “O capote” de Gogol, disse Dostoievski, e eu não arriscaria dizer diferente.

Para o escritor  Aníbal Machado, a arte de contar é um dom do povo eslavo – dom que teria vindo da Ásia.  

Dostoiévski caminha numa linha evolutiva que precede dois gigantes da literatura russa, Puchkin e Gogol. Makar Diévuchkin, personagem do primeiro romance de Dostoiévski, Gente Pobre, se diferencia em muito dp personagem central de O Capote, Akaki Akákievitch.  Makar não gosta de ser comparado com Akaki, personagem onde a linguagem ainda não se articula num corpus próprio que foge à padronização comportamental. Akaki sofre e não reage, enquanto Makar tem plena consciencia da sua condição de oprimido . É um grande analista da sua situação pobre e julga o comportamento do Duplo e de outros, antecipando acontecimentos.  De certa forma ele antecipa Michkin de O Idiota, que por sua vez tem muito do Dom. Quixote.

O grande escritor e professor de literatura russa,   Vladimir Nabokov , escreve sobre esse personagem fundador da literatura russa.

“Gógol era uma criatura estranha, mas o gênio é sempre estranho; somente o saudável escritor de segunda categoria parece aos olhos do leitor agradecido ser um velho e simpático amigo, pois o ajuda carinhosamente a desenvolver suas próprias noções acerca da vida. A grande literatura beira o irracional. Hamlet é o sonho tresloucado de um intelectual neurótico. “O capote”, de Gógol, é um pesadelo grotesco e sinistro, que cria buracos negros no desenho obscuro da vida. O leitor superficial desse conto verá nele apenas as patuscadas de um bufão extravagante; o leitor solene assumirá que o propósito básico de Gógol era denunciar os horrores da burocracia russa. Mas nem a pessoa que só quer dar uma boa risada nem a que aprecia livros “que fazem pensar” compreenderão a verdadeira natureza de “O capote”. Dê-me o leitor criativo: esse conto foi feito para ele.”

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