Lembrança de uma ideia machadiana de Natal

O comércio sempre soube converter valores em dinheiro, projetos em dívidas, sonhos em hipotecas. E a queixa que transparece no “Soneto de Natal”, de Machado de Assis, revela que esse saber dista de outros tempos, mais nervosos que os correntes. E não é preciso lembrar as crises que oxigenam os noticiários da mídia, que já não engana ninguém no seu propósito de consagrar a má notícia como sinônimo de notícia. E quem duvida que um cidadão atordoado por um bombardeio constante de notícias (más) é um cidadão menos crítico, menos atento ao que convém a ele próprio?

“Mudara o Natal ou mudei eu?”, indagou perplexo o Bruxo de Cosme Velho ao deparar um Natal que pouco, muito pouco, conservava daquilo que ele vivenciara na infância que, até onde sabemos, foi de pobreza e carência. Outros valores, porém, compensaram esse lado mau na sua vida de menino. Laços de família, cuidados maternos, provisão paterna, amizades e projetos de um futuro melhor são algumas dessas possibilidades. Mas já na sua vida adulta o Natal mudara inapelavelmente. A outra possibilidade era de que ele próprio tivesse mudado. Mas, quem sabe, mudaram ambos, o escritor maduro que olhava para trás e não reconhecia o Natal que conhecera na infância, e, portanto, se lhe apresentava outro que não o familiar, posto que ele, Machado, também era outro.

A verdade é que o Natal continua em perpétua mudança. Em nossos tempos, também não o reconhecemos como aquele da infância. Agora, cultua-se abertamente o fetiche do consumo sem rebuços, que porta o nome de papai-noel, e cuja história remonta a um certo Nicolau, santo católico, hoje irreconhecível sob vestes vermelha e branca, gorro vermelho e ventre protuberante de glutão.

A ideia de Natal mudou não menos que a de Deus. Se antes o Deus do Natal era uma criança pobre, um deus-menino indefeso como qualquer criança, pobre de herança, hoje é cada vez mais “moderna” a ideia de um Deus rico e próspero. Sua prosperidade pode ser conferida ao lado de felizes proprietários de automóveis que anunciam, no vidro traseiro dos seus veículos, frases do tipo: “Quando Deus quer, é assim”, como a insinuar malevolamente que o seu Deus é caprichoso e volúvel, e costuma de raro em raro premiar um que outro mortal com bens móveis e caros, como um carro do ano. Considerando que as boas ações humanas são cada vez mais tímidas, ao contrário das más, cada dia mais audaciosas, é de supor que esse felizardo que recebeu de Deus um automóvel não o tenha merecido por uma ação excepcionalmente boa, legítima, justa que porventura praticou. Antes, é mais provável que tenha sido premiado numa loteria celeste tão aleatória e caprichosa como as que frequentam os cassinos clandestinos.

Uma variação desse anúncio caviloso pode ser lida em letras bastante legíveis também no vidro traseiro de alguns automóveis. Está escrito lá: “Propriedade de Jesus”, como a indicar claramente que Jesus (outro nome de Deus) é não menos cioso das questões mercantis do que certos humanos, especialmente aqueles que lidam com recursos alheios. Para que Deus (ou Jesus) se integre plenamente ao seu estilo de vida, é necessário que ele também se apresente sob essa condição humana de proprietário de algo. Especialmente se o bem econômico se enquadra na categoria de sonho de consumo do homem da rua.

Em algum lugar de sua correspondência com Lucílio, o filósofo Sêneca, cético de todos os apelos mundanos, exortou ao seu discípulo: “Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente”. Em tempos de elevado consumo de bens entre os quais dificilmente se pode refletir sobre medidas e cautelas, a exortação do estoico romano soa como um derradeiro chamado à razão. Mas quem o ouviria?

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × 3 =

ao topo