Lembranças de Fulano, Sicrano e Beltrano

Por Luiz Penha

Em um dia de profunda melancolia, o professor João da Silva resolveu remeter uma carta para o jornal mais lido de sua cidade, onde desabafou sobre a realidade da educação e sobre o movimento grevista iniciado pelos professores da escola Esperança no Amanhã, onde leciona, juntamente com todos os educadores da rede estadual de ensino.

Estou há trinta e cinco anos no magistério público. Foi a profissão que escolhi e abracei para me realizar profissionalmente. No começo me sentia valorizado, era respeitado pelos meus alunos e me orgulhava de vê-los chegar a uma graduação e saber que dei minha contribuição para que eles tivessem a oportunidade da realização profissional, assim como eu tive.

Passaram-se os anos, o país cresceu, se desenvolveu, mas algumas categorias profissionais passaram a ser vítimas do descaso e do descompromisso com o futuro. Esse descompromisso teve como uma de suas maiores vítimas os profissionais do magistério.

Ao olhar para um passado não muito distante, vejo o quanto está desvalorizada a profissão que abracei. Ela não desperta o menor interesse por parte dos jovens. Contraditoriamente, dizem até que aqueles que não estudaram o bastante para galgar outras profissões terminam optando por ser professor. Vejam a que ponto nós chegamos.

O meu país, hoje, ainda tem uma taxa significativa de analfabetos, os critérios de avaliação nas escolas são questionáveis e a chamada progressão continuada é objeto de críticas, dentre outros questionamentos passíveis de discussão quando se trata da qualidade da educação.

Ao refletir e ao mesmo tempo revisitar instantes vivenciados em sala de aula, relembro nomes de alunos, os quais ficaram marcados em minha memória, dentre tantos nomes de jovens com as quais convivi nas mais diversas escolas em que lecionei.

Dos nomes de alunos que convivi e que me recordo nesse momento, destacam-se Fulano, Sicrano e Beltrano. Coincidentemente, Fulano é o atual Governador do Estado, Sicrano é o Presidente do Tribunal de Justiça e Beltrano é Deputado Estadual.

Atualmente a minha categoria profissional está envolvida em mais um movimento grevista, lutando por salários mais dignos, mas a proposta que Fulano oferece é irrisória e indigna para o exercício pleno da profissão.

Em função do prolongamento da greve, Fulano resolveu levar a discussão para as instâncias judiciárias. Sicrano, que é Presidente do Tribunal de Justiça, juntamente com os seus pares, decidiu pela ilegalidade da greve.

Beltrano, que é deputado, eleito pelo povo, declarou em um jornal da cidade que todos os professores grevistas deveriam ser demitidos, já que não queriam trabalhar.

Diante de tais fatos, fico a me perguntar onde foi que eu errei durante esses trinta e cinco anos de magistério.

Com todos esses contratempos, ainda acredito que é impossível pensar um futuro sem educação. Educação de qualidade. Educação com professor bem pago em sala de aula, ajudando a construir cidadãos comprometidos.

Mesmo assim, por tanto acreditar, faço meus os versos do poeta: “Por tanto amor, por tanta emoção, a vida me fez assim…”. Concluiu o professor João da Silva.

Luiz Penha é Jornalista atualmente radicado no Distrito Federal

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