Lembranças de Tom Jobim, 20 anos depois

Tom Jobim e Maria Lucia Rangel em 1974 / foto de Evandro Teixeira

Por Maria Lucia Rangel
BLOG DO IMS
Colaboração especial 

Na noite de 7 para 8 de dezembro de 1994 sonhei com Tom Jobim. Acordava, lembrava do sonho, dormia novamente e sonhava com ele. De manhã, o primeiro telefonema foi da jornalista Lucia Guimarães, de Nova York, dizendo estar correndo um boato na cidade: “É sobre o Tom?”, perguntei, sabendo que ele estava por lá. Ela levou um susto e eu expliquei que tinha sonhado com ele a noite toda. “É sobre ele sim. Está correndo o boato que ele morreu”.

No dia seguinte, ele foi velado no Jardim Botânico, lugar que amava e onde fizemos uma de nossas inúmeras entrevistas. Numa das tardes mais tristes da minha vida, fiquei sabendo por Ana Jobim, sua viúva, o que tinha acontecido. Enquanto o cortejo com o corpo do compositor seguia pela orla marítima carioca em direção à Casa dos Visitantes do Jardim Botânico, conversamos embaladas pelo som de uma pequena cachoeira que jorrava à nossa frente. Tom não queria ser operado de jeito nenhum. No mês anterior estivera em Nova York para retirar um pólipo da bexiga. Foi quando os médicos constataram que ele tinha um tumor. Era um tumor protegido e de fácil acesso. Por isso foi decidida a operação. Qualquer cirurgia mais grave seria arriscada devido ao estado cardíaco do maestro (tinha obstrução coronária e carótida). E foi este o motivo de se evitar a anestesia geral. Nessa primeira operação, Tom tomou uma raquianestesia (só da cintura para baixo, na coluna lombar). Na segunda cirurgia, numa terça-feira, 6 de dezembro, o anestesista optou pela peridural (também da cintura para baixo, injetada na parte inferior da coluna vertebral). A situação de Tom era tão boa que ele injetou também, por conta própria, gotas de um anestésico para dormir um pouco.
Ele saiu bem da sala de cirurgia, corado e brincando com o mulher, o filho Paulinho e a cantora Maúcha Adnet, que o acompanhavam na viagem. Só à noite sentiu um pouco de aflição e mal-estar. Tanto os médicos como a família imaginaram que era fruto do nervosismo. No dia seguinte ele passou bem. Com um pouco de tosse, Ana decidiu dormir em casa (seu medo era passar uma gripe para o convalescente) e deixou Tom com o filho Paulinho. A mesma aflição que Tom já sentira na véspera voltou. Um pouco de tosse e angústia. Os médicos residentes foram chamados e continuaram achando que era nervosismo. Às cinco horas da manhã de quinta-feira (horário de Nova York), Ana recebeu um telefonema do enteado dizendo que o pai tinha desmaiado. Já era a parada cardíaca, seguida de vários enfartes. Tom não voltou mais.
Lembro da dor de Ana Jobim contando os últimos três dias do marido, dos dois relógios que ela tinha no pulso esquerdo, um do Tom com um detalhe curioso, o horário do Brasil atrasado em uma hora, como se ele tivesse adivinhado que não ia atravessar o verão. E lembro de Maria Luiza, a filha caçula então com sete anos, a cara do pai, entregando uma flor à mãe e pedindo para ela não chorar porque “papai está no céu”.
Na quinta-feira anterior, poucas horas antes de viajar para Nova York, Tom tinha visitado o Jardim Botânico. Foi ali que certa vez ele me explicou que “árvore é pra gente abraçar”. E posou para uma foto abraçando o copado e florido flamboyant que contrastava com a Pedra da Gávea, lisa e íngreme ao fundo. Enquanto suas mãos acariciavam o tronco majestoso, seu rosto encostava na madeira úmida, gesto sensível e sensual. Ele lembrou de “Poinciana”, a canção americana dos anos 1950 que evocava essa árvore, cuja cor estava colorindo o Rio de Janeiro naquele verão da nossa entrevista (escute um trecho abaixo).

Nossa amizade começou ainda na minha adolescência. Foi no antigo bar Zepelim, onde se reunia a fauna de Ipanema nos anos 1960 e 1970 que conheci Tom. Ele estava com Fernando Sabino e eu com meu pai, Lucio Rangel, que o apresentou a Vinicius de Moraes, nos anos 1950, para que fizessem Orfeu da Conceição. Tom levou o grupo para sua casa na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, onde tocou piano durante muito tempo.
Frequentei depois a casa da Rua Codajás, no Alto Leblon, onde certo dia ele me levou até uma varandinha que dava para o telhado querendo me mostrar que “eles estão chegando”. Eram os espigões tomando conta do bairro. Estivemos juntos em Nova York, almoçamos no Oyster Bar do Plaza e terminamos em seu apartamento com vista para o Central Park, com Ana Jobim e Luiza ainda bebê. Mais tarde, conheci sua última residência no Rio, a casa que, quase pronta, ele mandou subir o telhado para aumentar seu pé direito.

Há poucos anos achei uma velha fita cassete com uma de nossas entrevistas gravadas. Deve ser dos anos 1970, quando era repórter do Caderno B, do Jornal do Brasil. Impressionante como as declarações do maestro são atuais. Ele fala da destruição da natureza, da matança dos animais, do mundo que seu neto irá encontrar, suas preocupações constantes. Certo dia me contou que perguntara a Rubem Braga pela floresta do Vale do Rio Doce, no Espírito Santo, pela qual ele tanto lutara. A resposta foi sucinta: “Asfaltada”. Tom não estaria nada feliz com o mundo de hoje.
Algumas curiosidades sobre Tom Jobim:

– Em 1993, Tom foi pressionado a se candidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras para a cadeira de número 8, sucedendo a Austregésilo de Athayde. O maestro abriu mão de sua candidatura em favor de Antonio Callado.

– O último show de Tom foi em Jerusalém, em maio de 1994.

– Numa noite novaiorquina de 1964, Gerry Mulligan ligou para o hotel onde Tom estava hospedado: “Tom, vou passar por aí daqui a pouco. Você hoje vai conhecer um dos seus maiores ídolos”. Ao ouvir Mulligan instruir o taxista para rumar para o hospital Mount Sinai, Tom perguntou quem iriam visitar. “Cole Porter”, disse Mulligan. E Tom: “Estou fora. O homem está nas últimas, com supositório de morfina e tudo. Mande o carro parar que eu vou me embebedar imediatamente. Com mito não se brinca”. Trinta anos depois, Tom morreria no mesmo hospital.

– Harry Warren (1893-1981), autor de clássicos do cancioneiro americano, como “You’ll never know” e “Lullaby of Broadway”, foi uma sombra benigna na vida de Tom. Era quem presidia o júri do Festival Internacional da Canção de 1968 que premiou “Sabiá”. Ao partir para sua derradeira viagem a Nova York, Tom deixou abertas sobre o piano de sua casa duas partituras: uma delas de “There will never be another you”, justamente de Warren. É possível que tenha sido a última obra musical executada ao piano pelo maestro, antes de se internar no Mount Sinai.

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