Lembranças sobre Chico Buarque

Eu era muito jovem quando Chico Buarque apareceu feito um discreto furacão, Nara Leão gravou “Olê, olá” e deu para perceber que ele era muito bom. Mas Chico sofreu uma apropriação indébita pela mídia e até pela ditadura: falavam muito de seus belos olhos verdes, de sua estirpe aristocrática (filho de um clássico da Historiografia e da escrita literária, fluente em vários idiomas), de sua doçura, lembro de uma entrevista de Jarbas Passarinho (poli-ministro da ditadura) declarando sorridente que Chico era seu compositor brasileiro favorito. Embora aquela primeira canção tivesse me impressionado muito, tive dificuldades para embarcar na idolatria que se seguiu a ela. E até impliquei com a poética buarquiana – discretos sambas bossanovados, versos tão certos.

Veio o Tropicalismo, outro furacão. Na grande reportagem que a revista Realidade publicou com os tropicalistas, logo depois que o disco Tropicália ou Panis et circensis foi lançado, Caetano Veloso reafirmou adorar Chico Buarque e não entender porque ninguém acreditava nisso. O disco seguinte de Chico foi uma espécie de resposta ao Tropicalismo e também àquela idolatria precoce que ofuscara um pouco o brilho crítico do compositor. Canções como “Essa moça tá diferente” e “Agora falando sério” continham uma dose de auto-ironia misturada à ironia contra os que o atacavam. E isso foi precedido por seu texto dramático “Roda viva” – alguns fãs da suposta doçura buarquiana até diziam que a violência da peça não era dele e sim do diretor José Celso Martinez Correia, Chico tratou de desmentir essa versão. E nem foi preciso ele se tornar tardo-tropicalista porque, afinal, a acidez contida em seu lirismo foi um dos caminhos que levaram à Tropicália, junto com as contribuições de Nara Leão, Maria Bethânia, Ellis Regina e as maravilhas melódicas e harmônicas de Baden Powell e Edu Lobo. Vale a pena lembrar que “Lindonéia” (Caetano e Gil) e “Carolina” (Chico) foram lançadas no mesmo ano, dialogam interxtualmente com “Eleanor Rigby” (Lennon e McCartney) e são belas diferenças em harmonia.

Tantas décadas depois, a idolatria persiste, um pouco amainada – Chico é um senhor maduro, serve menos para o consumo imediatista dos fãs mas ainda atrai o furor dos voyeurs, como se observou no episódio do fotógrafo que o flagrou dando uns amassos numa namorada.

Ouvindo tanto tempo depois de serem lançadas canções como “Até pensei” e as grandes parcerias com Tom Jobim, fico impressionado com a força crítica de seu lirismo. As canções de protesto são bonitas mas não as considero centrais no conjunto da obra.

Lembrei disso porque, hoje, leio alguns poetas nos blogs da vida (inclusive este SP) que me deixam um pouco preocupado com o excesso de correção castiça e cenas de erudição explícita. Penso em minha experiência com as canções de Chico: tanta perfeição pode ocultar um olhar ferino, que exige muitas releituras, pode ser mais que apenas perfeição.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 11 comentários para esta postagem
  1. Lucia Helena M Silva 30 de março de 2012 17:26

    Amo essa rede. Procurava eu, hoje, uma foto bem alinhada de Chico. Percebo que fotos de Chico Buarque atraem olhares. E, fico na expectativa que os olhares saiam da foto e caiam no texto. Até mesmo a palavra Chico, atualmente, atrai esses olhares. Incrível não? Será que sua professora de infância (em Roma), que escreveu: espero um dia receber uma composição sua sr. Francisco Buarque de Hollanda, imaginou que quanto mais sua fama aumentasse, mais um simples “Chico” desse conta?
    O texto que eu quero republicar (no facebook) é a entrevista de Chico com Chediak, onde fica muito claro que para ser a unanimidade que é (nomeado por Millor, e indiscutível, ainda mais porque ontem nos deixou – se não admitia ser contrariado em vida, não quero enfurecê-lo agora) , tem muito suor (e também cerveja e uisque, claro).

    E nessa busca, encontrei esse texto e seus desdobramentos. Também fiquei sem palavras, Marcos Silva, às vezes até sem ar.

    Parabéns pelo seu texto. Me sinto um tanto constrangida para afirmar que, para mim, ele foi muito claro e coerente. E concordo com você, tanta erudição, que exige muitas releituras, pode ocultar uma incapacitação. Estou cansada de ver ocultamentos em fantásticas construções…

  2. Lucia Helena M Silva 30 de março de 2012 17:09

    E cai o pano.

  3. Marcos Silva 13 de agosto de 2011 19:50

    Não tenho palavras!

  4. Fernando Monteiro 13 de agosto de 2011 16:14

    Galileu, Brecht, Hannah Arenque (num mundo não castiço nem erudito, é melhor atamancar tudo, talvez?), Edith Pardal… estou impressionado, Marcos, acredite.
    E sobre a linha final: que “assistente” teu é esse? O de shoppings?…

  5. Marcos Silva 13 de agosto de 2011 15:44

    Obrigado. Lembrei daquela passagem em “Vida de Galileu”, de Brecht: o personagem expõe suas teorias numa corte, um intelectual de corte começa a citar filósofos antigos em grego ou latim, Galileu pede que ele fale em italiano mesmo pois seu assistente não entende aquela língua, o intelectual de corte debocha, indicando que quem não sabe tal língua é o próprio Galileu. No tempo dos intelectuais de corte, fazer citações em latim, grego e outras línguas (hebraico, árabe etc.) era uma marca de distinção – quem sabe e quem não sabe, quanto menos pessoas entenderem melhor. Diz-se que Hannah Arendt estudara muito latim e grego na juventude e quase nada de inglês, o que lhe fez grande falta no momento de ir para o exílio nos EEUU – ela se preparou com esmero para a corte e caiu no mercado, onde o inglês prevalecia e ainda prevalece, tratou de recuperar o tempo perdido. Minha relação com cortes é nula – não me lamento, não, como na bela canção interpretada por Edith Piaff, que prefiro citar em português mesmo: meu assistente não sabe francês.

  6. Fernando Monteiro 13 de agosto de 2011 12:40

    O “intelectual de shopping”, Marcos, pode não estar — rigorosamente — num shopping, de modo físico e palpável etc.
    O “intelectual de shopping” é um estado de espírito, ao que eu ouso supor, no lugar da autoridade mundial em “intelectuais de shopping” que é o poeta e dramaturgo Jairo Lima, o indiscutível descobridor dessa novel espécie. (“Novel” é castiço demais, e, novamente me perdoe pelo uso dessa expressão que algum intelectual de shopping há de pensar que se trata de “novela”, em inglês. NÃO é — conforme o meu amigo Marcos bem o sabe…)
    O intelectual de shopping — com a licença do Jairo — eu acho que passa por várias fases: num primeiro momento, ele é politicamente correto de modo irrepreensível etc, e, por exemplo, chama de “afro-descendente” qualquer negão que faça um gol de gênio, numa partida do, hoje, raro bom futebol.
    Numa fase posterior, o intelectual de shopping se torna menos “bonzinho” e ganha algo em acidez, inesperadamente. Não muito, mas ganha.
    Em terceiro movimento dos seus cataclismas interiores (digamos assim),
    o I.S., percebendo que deve fazer maiores e ainda melhores afirmações etc etc, passa a atuar de maneira bem diferente dos seus inícios de “operuit intellectualis feriarum” ou — em grego, bem eruditamente — πνευματικής εκθέσεις που καλύπτονται.
    O resto, o Jairo poderá informar com conhecimento de causa (e efeito) ao longo de convivência pessoal e virtual, nos últimos anos, com tais intelectuais tão bem situados nesse verdadeiro “Templo” da modernidade não-castiça nem erudita: o SHOPPING.
    Um bom domingo para você! E um abraço.

  7. Marcos Silva 13 de agosto de 2011 10:13

    PS – Esqueci de responder a uma importante questão levantada por Fernando Monteiro sobre os intelectuais de shopping como eventual modelo para minha rememoração. No tempo em que “Olê olá” foi lançada, não havia shoppings. Hoje em dia, faço um uso restrito e intrumental dos shoppings: entro, compro e saio. Não conheço nenhum intelectual de shopping, exceto pelas alusões que Jairo faz a eles. Você conhece alguns?

  8. Marcos Silva 13 de agosto de 2011 0:10

    Fernando e Carlos:

    Muito obrigado pelas palavras tão gentis.
    Meu texto é de lembrança pessoal. Chico Buarque está nele porque faz parte de minha memória pessoal – pensei que o título era explícito. Não é crítica nem teoria. Estamos proibidos de ter memória? Sei que a resposta de vocês é negativa a essa indagação meramente retórica.
    Em minha rememoração, procurei evidenciar que eu estava enganado aos 15 anos de idade quando me sentia desconfortável em relação a aspectos da escrita musical de Chico Buarque – inclusive cenas de erudição explícita e louvour a-crítico do padrão castiço, recuperados pela ideologia dominante à época para caracterizar aquele músico como bom moço e seu pretenso aliado. Entendi depois (e digo isso no texto) que outras questões vinham junto com erudição e padrão castiço, como vêm junto hoje, na poesia de internet: erudição e padrão castiço podem não ser alheios à crítica. Não se trata de campanha contra a erudição – talvez seja melhor falar em erudições para não colocar o pensamento num lugar fixo. Se isso não ficou claro, a culpa não é dos leitores, é minha, que não consegui tornar minhas memórias mais compreensíveis, organizando-as bem para qualquer interessado. Procurarei me corrigir mais daqui por diante e agradeço muito pelas sugestões de ambos. Como se diz no popular: vivendo e aprendendo. Pior seria pensar que já se sabe tudo e não há mais nada para aprender – equivaleria à morte.
    Evito argumentar com erudições e padrão castiço como portos seguros indiscutíveis e absolutamente alheios às barbáries contemporâneas. Melhor pensar nesses supostos polos opostos como problemas.
    Fernando, Chico Buarque está no fim do texto porque também está no começo e no meio. Quando à indagação sobre cu e calças, sei que convivem intimamente – proximidade, passagem de matérias de um para as outras, eventual pressão destas sobre aquele. Afora isso, nada mais tenho a dizer. Quero o bem para o órgão e a roupa, tão necessários para nossa sobrevivência.
    Aproveito para reiterar que tanto Fernando quanto Carlos são portadores de erudições discretas, embora vastas, num estilo quase calvinista. Seus poemas deixam isso muito claro. Recomendo a leitura deles a todos.

  9. Fernando Monteiro 12 de agosto de 2011 18:29

    PS:
    E Chico Buarque?
    Está fazendo o quê, aí no “credo” final desse seu texto?
    Enfim, com a finalidade de atender ao seu “reclamo”, Marcos, por coisas menos “castiças” e menos “eruditas” (é isso??????), eu tento lhe agradar com esta segunda pergunta de suprema delicadeza e alto refinamento formal, diante dessas suas, eu repito, um tanto abstrusas (desculpe o reincidente uso de uma palavra castiça) “preocupações”:
    O QUE TEM A VER O CU COM AS CALÇAS?…

  10. Fernando Monteiro 12 de agosto de 2011 18:17

    Reclamar do excesso (?) “de correção castiça e cenas de erudição explícita”, num tempo de vulgaridade alarmante como este que vivemos, é nada menos que desconcertante, Marcos, senão um completo contrasenso.
    Música vulgar, poesia vulgar, ficção vulgar, cinema vulgar, teatro vulgar, pintura vulgar, vulgaridade vulgar — são praticamente assim todas as coisas que nos cercam. Se entendi bem esse seu reminiscente/confuso texto ao mesmo sentimental/autoreferente e (tentando ser) ao mesmo “crítíco” etc etc, então a pontinha tímida da cabeça de algo “castiço” (porra, que refrigério!, que ótimo que apareça algo castiço em meio à tanto lixo!) e também algum sinal de “erudição” num mundo de ignorantes triunfantes por toda parte etc etc, DEVERIAM ser rejeitados, ou ser motivos da “preocupação” que você abstrusamente confessa. ]
    É isso?
    Se não é, escreva de novo, com mais foco e precisão — porque não ficou claro seu raciocínio, eu pelo menos não entendi bem e acho que não se pode saber — nesse seu texto — se o que lhe “desagrada” é a QUALIDADE (hoje rara!) nas coisas da cultura, e ao mesmo tempo parecendo que vc pretenderia, digamos, que a receita e o cânone passassem a ser, preferencialmente (???), os dos — por Jairo Lima batizados — “intelectuais de shopping”. Esses, nunca são castiços nem eruditos verdadeiramente — até porque não poderiam ser, né?…

  11. Carlos Gurgel 12 de agosto de 2011 15:29

    grande texto Marcos!! lembro-me de voce com seu “Relógio” amedrontando o tempo dos covardes
    abração!
    Cgurgel

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