Lembrando padre Antonio VIEIRA, S.J. (1608-1697)

Quatro séculos de um vencido que sonhou com o quinto império

“Antonio Vieira é de fato o maior prosador – direi mais, é o maior artista da língua portuguesa. E só por isso porque o foi, e não porque se chamasse Antonio”.
Fernando Pessoa in Alguns Autores Portugueses.

Em 2008 o mundo festejou os quatrocentos anos de nascimento de um dos maiores sermonistas em língua portuguesa. No alvorecer do século das ciências nascia Antonio Vieira, que se tornaria um dos maiores pregadores – escritores sacros de todos os tempos. Um dos maiores cultores da língua portuguesa.

O futuro Padre Antonio Vieira nasceu em Portugal (Lisboa), em 1608 e faleceu no Brasil (Bahia), no ano de 1697. Escreveu /ditou mais de duzentos sermões – conforme a edição príncipe – que são verdadeiras obras primas da literatura em língua portuguesa. Um exegeta. Um ourives da língua de Camões. Um diplomata hábil para assuntos de estado e política. O púlpito do latim pulpitum( também significa tablado de teatro) era a sua tribuna, e um sermão podia se transformar num discurso político-histórico. O virtuosíssimo dialético dos sermões podia ser de ordem moral, religiosa, política ou histórica.

Defendeu de forma política muito discutível e, felizmente sem sucesso, a entrega de Pernambuco aos Holandeses quando do período de dominação batava em território brasileiro. Sonhou visionariamente com o advento do Quinto Império Português-Cristão. Foi perseguido pela terrível inquisição Portuguesa. Quatro séculos de um vencido que não pode exercer plenamente a atividade de pregador. Foram muitas as atividades que ele teve que desenvolver na sua vida longeva de quase 90 anos, e os infortúnios das muitas enfermidades que lhe acometeu o impediam de exercer o ofício apostólico em sua plenitude.

É do ano da restauração de Portugal – 1640, o famoso “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra os holandeses”. Nesse sermão o Padre Vieira utiliza-se de toda a sua eloqüência e verve para dirigir-se ao próprio Cristo para não esquecer os Portugueses que professam a fé católica, em detrimento dos holandeses que comungam do Calvinismo: “considerai Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai que tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras àqueles mesmos portugueses a quem escolhestes entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas” .

O Sermão Seiscentista

É grande deleite espiritual e lingüístico com que lemos ainda hoje os sermões do Pe. Vieira. Há uma riqueza da linguagem. Riqueza que se traduz na variedade das locuções, na exuberância do vocabulário, na harmonia das frases, na disposição habilíssima do ritmo e das figuras a ORATÓRIA atingiu um alto grau de perfeição. Uma aura que jamais se apagará (Joaquim Ferreira in História da Literatura Portuguesa).
Os sermonistas do seiscentos tinham grande prestígio nas cortes literárias e artísticas. Na ornamentação das formas e do conteúdo habilmente estudado os elementos definidores do estilo. Pe Vieira foi um dos maiores estilistas da língua portuguesa.
O Sermão Seiscentista compõem-se das seguintes partes: O tema, ou seja, o passo evangélico sobre o qual vai basear o discurso; O intróito, onde o pregador expõe as idéias fundamentais que vai defender; a invocação, onde pede auxilio, geralmente, da virgem; o argumento ou corpo do sermão em que desenvolve o pensamento, realçando e adornando com exemplos, casos bíblicos, alegorias e sentenças dos santos padres ou moralistas pagãos. O sermão termina com uma peroração, em que tirando do que foi dito, exorta e conclama os fiéis a pô-lo em prática. Essa estrutura não é rígida em Vieira e não tem o esquema rígido da maneira Francesa de um Bossuet. Em Bossuet, a justificativa política para o imperialismo dos reis é encontrada na Bíblia. Em Vieira, a realidade humana também é vista na imagem da bíblia e no espelho das profecias, em exemplos quase sempre tirados dos livros sagrados (J. Mendes in Pe. Vieira: Coleção Gigantes da Literatura Universal, Verbo 1972).

O grande estudioso do barroco. Affonso Ávila observa que em Vieira, o sermão torna-se persuasório devido: a) técnica de recorrência e iterativa ( repetitiva) da linguagem; b) pela força encantatória da beleza verbal; c) pela veemência dialética ( o procedimento discursivo está sempre ajustado á proposição dialética, isto é, à idéia central do sermão ).

Padre Vieira e o Brasil

O Padre Vieira residiu muitos anos no Brasil, onde pregou alguns dos seus mais conhecidos sermões. Aos seis anos acompanhou seus pais, fixando-se na Baia, onde só voltaria para Europa 27 anos depois. Foi aluno do colégio jesuítico da Baia e logo se mostrou um aluno brilhante. Para se comunicar com os ameríndios e escravos aprendeu o tupi-guarani e quibundo. Os indígenas o respeitam e chamam-lhe de padre grande (“payassu”).

Quando Vieira está com a idade de 18 anos passa um ano ensinado retórica e humanidades em Olinda, e retorna para ensinar nos arredores da Baia. Em dezembro de 1634 é ordenado Padre, e no seu retorno à metrópole torna-se conselheiro do rei D, João IV. Em 1652, Vieira é novamente enviado à colônia e passa nove anos no Maranhão, só interrompidos por uma vinda á metrópole em 1654-55. Um dos biógrafos do Pe. Vieira foi o grande escritor e jornalista maranhense João Francisco Lisboa (1812-1863). O autor do Jornal de Timon foi um crítico contundente e parcial do padre Vieira. A vida dos oradores sacros está principalmente nos seus discursos – observa Lisboa. Um triunfo oratório é, para o pregador, como é para o general o ganho de uma batalha.

O Sermão Décimo Quarto, pregado na Bahia, à Irmandade dos pretos, no ano de 1633, é celebre pela defesa dos escravos e da sua condição de amados pela mesma mãe de Deus. VIEIRA conclama os escravos a não só aceitarem à condição de cristãos, mas a ficarem felizes com sua cruz e fado.

Saibam pois os pretos, e não duvidem que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua: Sciant ergo ipsam matrem: e saibam que com ser uma Senhora tão soberana, é Mãe tão amorosa, que assim pequenos como são, os ama, e tem por filhos.

No dia 13 de junho de 1651 pronuncia em São Luis do Maranhão, o célebre Sermão “Santo Antonio pregando aos Peixes”. Nesse Sermão, Vieira usa de alegorias e ironias que são pregadas aos homens que não atendem aos apelos do seu verbo apostólico. Vieira tem a tendência de transformar a imagem em alegoria – uma metáfora a desenvolver-se. Aqui ele utiliza a metáfora do peixe-sal para falar do combate à corrupção. O pregador que não salga, e a terra que não se deixa salgar deve ser jogado fora como inútil.

“Vós, diz o Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra; e chama-lhes sal da terra porque quer que façais na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção: mas quando a terra se ver tão corrupta , como está a nossa, havendo tanto nela que tem efeito de sal, qual será ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou porque o sal não salga, ou porque terra não se deixa salgar e os ouvintes, sendo verdades a doutrina que lhes dão a não querem receber…
suposto, pois, que o sal não salga e aterra não se deixa salgar; que se há de fazer a esta terra?
“Cristo disse logo: se o sal perde a substancia e a virtude, e o pregador falta á doutrina e ao exemplo, o que há de fazer e lançá-lo fora como inútil, pra que seja pisado por todos”.

Edições dos Sermões e outras obras do Pe. Antonio Vieira

Apesar da importância desses sermões para a literatura em língua portuguesa, ainda não existe uma edição que se possa dizer satisfatória e completa desse monumento da literatura clássica. A principal edição das obras completas do Padre Antônio Vieira tem 15v e foi prefaciada e revista pelo Pe. Gonçalo Alves. Porto: Livraria Chardron, 1907-1909. Essa obra teve várias reedições, entre elas: Porto: Lello e Irmãos 1951, 15v; Porto: Lello, 5v. 1959, em papel bíblia. Essa ultima edição é a que tomamos como referencia. Os sermões foram traduzidos para o Alemão, Inglês, Espanhol, Francês, Italiano e outras línguas cultas. Os sermões foram organizados em 15v, treze em vida do autor. O primeiro volume da edição príncipe foi publicado em 1679. Além dos Sermões (1679-1694), foram publicados ainda: Maria Rosa Mística, 1686-1699; Clavis Prophetarum 1741; Arte de Furtar, 1652 (atribuída a ele); Cartas em 3v, 1735-1746, etc. No Brasil, destacaria a edição brasileira organizada por Alcir Pécora (Hidra), reunindo uma seleção dos melhores sermões de Vieira, em três volumes, incluindo uma seleção das cartas. Recentemente foi defendida na UFRN uma tese de doutorado sobre o Padre Vieira, pelo professor da UERN Rodson Ricardo, com orientação do nosso colega Willington Germano, prof titular da UFRN.

As edições da Carta de Antonio Vieira foram compiladas pelo seu grande biógrafo português João Lucio de Azevedo (1855 – 1933). A coleção de João Lúcio foi lançada em 1925-1928, perfazendo um total de 729 cartas, essenciais para conhecer a trajetória criativa do padre Vieira em atribuladas missões evangélicas e diplomáticas. Essas cartas foram editadas recentemente no Brasil pela Editora Globo em três volumes com prefácio de Alcir Pécora.

Excertos do Pe. Antonio Vieira:

O morrer Cristo pelos homens não foi a maior fineza de seu amor; maior fineza foi Cristo o ausentar-se, que o morrer.

Palavras sem obras são tiros sem bala; atroam mais não ferem.

O maior prêmio das ações heróicas é fazê-las.

Quem faz o que devia, devia o que fez, e ninguém, espere paga de pagar o que deve.

Porque o ver é a causa do chorar.

Que coisa é a vida senão uma lâmpada acesa: vida e fogo? Vida que com um sopro se faz; fogo com que o sopro se paga.

O primeiro remédio é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.

É a luz mais benigna que o Sol; porque o Sol alumia mais abrasa: a luz alumia mais não ofende.

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