Sobre Lemniscata, de Pedro Balduíno

Fotografia: Andréia Lucynara

O novo filme de Pedro Balduíno, Lemniscata, traz um suspense metafórico cuja surpresa surge já no formato. Propositadamente pensado para exibição em celular, Balduíno e sua produtora trazem um filme não tão óbvio, mas não tão incompreensível.

Reflexo de um presente paranoico, Lemniscata surge como um singular experimento audiovisual. Diferente de outras narrativas mais claras, como Paralise, Distorção e Epitáfio (três obras do RN que falam de medo), o filme entra num universo de intenso apelo simbólico, conseguindo ser bastante comunicativo com um uso muito diminuto de fala.

Se não dá para afirmar que Lemniscata surge de cara como uma obra prima, podemos ao menos reconhecer o trabalho meticuloso de cenografia e maquiagem.

Realizador Pedro Balduíno é carioca residente em Natal

É verdade que o curta aparece num momento em que as produções do estado vinham experimentando uma nítida evolução técnica, mas o primor cinematográfico não é seu maior trunfo.

Leminiscata é, sim, um interessante experimento estético. Seu destaque, entretanto, vem pela riqueza narrativa. Nenhum elemento visual é descuidado e tudo ajuda a obra a performar uma interessante exploração da criatividade — dos limites do que é possível fazer com o máximo de limitações.

O filme se passa num único prédio, tem basicamente dois cenários, cinco atores e uma equipe de dez pessoas. Um micro crew, em termos de cinema.

Tenho a impressão de que obras feitas nesse limbo rebelde da independência permitem excentricidades particularmente ousadas.

[Alerta de spoiler]

Demônios psíquicos

No enredo acompanhamos Sasha, uma jovem que, ao chegar chegar em casa, vai achando uma meada de demônios espalhados por seu apartamento. Depois do susto vem o embate. Ela os enfrenta numa luta visceral, é quase vencida, mas acaba sendo salva por sua sombra.

Os demônios — tema recorrente na produção balduinística— podem representar sentimentos como soberba, luxúria, preguiça e ambição sendo visitados pelo ego. Todo um espectro de paranoias com as quais muitos de nós nos deparamos quando voltamos para casa e estamos sós.

Leia “O Amor É Para Os Valentes: Sobre Bandeira de Trapos, de Themis Lima, artigo de Raul Pacheco

A cena em que Sasha vê seu eu entre a soberba e a preguiça, irada contra uma e arrastada pela outra, enquanto a luxúria observa, me pareceu mais ilustrativa que enigmática.

Acredito que o curta pode ser lido assim, como paralelo simbólico das nossas batalhas internas. Sim, quase vencidos, mas até agora, bem ou mal, escapando.

Brincando com elementos de terror e do mistério, Pedro cria um filme curto, simples e sofisticado. Uma criação esperta de um criador inquietante.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × dois =

ao topo