Lendo o livro do mundo com Zygmunt Bauman

“Os homens lutam e perdem a batalha, e as coisas que eles lutaram para acontecer, apesar da derrota, transformam-se para não ter o mesmo significado que antes, e outros homens têm de lutar por aquilo que agora se entende por outro nome”. É com essa citação de William Morris (apud A dream of John Ball), que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve o oásis da esperança em que o homem contemporâneo se refugia, sempre que possível, a fim de contemplar (suponhamos), os escombros dos sonhos que deixaram para trás, como herança para os seus sucessores. Bauman, vale lembrar, é mundialmente conhecido por livros como “Mundo líquido”, “O amor líquido”, “A modernidade líquida”, que introduzem novas ideias na sociologia.

A citação de Morris, que integra a entrevista com Bauman publicada na revista Cult 138, escancara, por assim dizer, o estado da arte da utopia dos dias que correm, quando deparamos com questões que nunca são respondidas, porque um sortilégio oculto da linguagem as transforma em outras perguntas, que pouco ou nada guardam do conteúdo das anteriores, e estas não tardam a absorver a nossa atenção, esquecidos das suas antecessoras.

É particularmente preocupante que os sonhos cumpram o mesmo destino comum reservado às perguntas banais, cuja formulação dispensa uma resposta porque em geral se extinguem no próprio instante em que são formuladas. Ante a paisagem de terra arrasada que produzem, resta ao homem da pós-modernidade um último artifício: reformular o sonho, dando-lhe um novo nome, na impossibilidade de lhe dar um novo conteúdo. Quando esses sonhos se mostram capazes de contagiar outros seres humanos, são rebatizados de utopias.

Embora pessimista com o cenário da pós-modernidade, Bauman, como diligente discípulo de Morris, entrevê brechas na paisagem cerrada do mundo da vida. Entre a metáfora do caçador – para quem o mundo repousa sob um sistema divino, portanto, legítimo –, e a metáfora do jardineiro (“o jardineiro sabe que a ordem no mundo depende da constante atenção e esforço de cada um”), Bauman opta pelo segundo.

Mas de que meios dispõe o jardineiro do sociólogo polonês para remodelar o mármore partido da utopia, se essa própria palavra se fragmentou em milhões de fragmentos irrecuperáveis e dispersos no sítio de busca Google, ou, num processo inverso, se funde, num verbete do Thesaurus (do dicionário Roget) em um misto de “fantasia” e “irracional”, testemunhando, assim, conforme o próprio pensador, “talvez o fim da utopia”?

É que, no fundo, Bauman desconfia, na sua leitura panorâmica do livro do mundo, que há jardineiros de menos, enquanto os caçadores não cessam de se multiplicar em todas as latitudes. E os caçadores, já sabemos, não cuidam senão do jogo lúdico de perseguir a presa e, por extensão, outros caçadores, lobos que são uns dos outros…

Declara Bauman: “a maioria dos caçadores não considera que seja sua responsabilidade garantir a oferta na floresta para outros, que haja reposição do que foi tirado […]. Pode ocorrer aos caçadores que um dia, em um futuro distante e indefinido, o planeta poderia esgotar suas reservas, mas isso não é sua preocupação imediata. Isso não é uma perspectiva sobre a qual um único caçador ou uma ‘associação de caçadores’ se sentiria obrigado a refletir, muito menos a fazer qualquer coisa”.

A tarefa dos jardineiros é, assim, inversamente proporcional à sua demografia: quantos menos são, maiores são os fardos que pesam sobre seus ombros. Por exemplo, cuidar do futuro do planeta.

No fundo, a mensagem do epígono de William Morris é de que chegou a hora de inverter a equação demográfica que subtrai jardineiros e faz proliferar caçadores. Um mundo mais equilibrado entre essas duas categorias humanas poderia, quiçá, assegurar a oferta de florestas para outras gerações de caçadores e jardineiros, garantindo, assim – por um artifício de metáfora –, que a escritura do livro do mundo não cesse, por falta de matéria-prima, na virada da próxima geração. Tudo isso, independentemente do aceno das utopias.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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