Lento cataclismo

Por Daniel Galera
O GLOBO

Pelo décimo-primeiro dia seguido, as ruas de Porto Alegre tremulam sob o sol castigador sem a presença de ônibus de transporte público. O site da Metsul informa que o “calor atingirá níveis excepcionais e históricos hoje em parte do Rio Grande do Sul”. Um termômetro do Centro aponta 47 graus. Saí para almoçar e posso atestar que a temperatura lá fora não é terrena. Todo verão, por essas bandas, há a ocorrência pontual do fenômeno que meu chapa Daniel Pellizzari certa vez batizou de “sauna cremosa de Satã”. Mas este ano é diferente. Já estive em Manaus e Mossoró, não estou exagerando. As plantas estão queimando. Temos 40 graus de sensação térmica nas madrugadas. A água que sai da torneira da pia da cozinha a partir do meio-dia queima a mão. Ao contrário do Rio de Janeiro, não temos praia nem brisa marítima. As águas poluídas do Guaíba umedecem ainda mais a atmosfera e possuem um aspecto escaldante, para não dizer mortífero. Falta água e luz em vários pontos da cidade, às vezes por horas ou mesmo dias. A população das áreas periféricas sofre mais e bloqueia ruas e estradas para protestar contra o descaso. Aniquilados pelo calor, os moradores de rua do meu bairro dividem as sombras mais arejadas para dormir no fim da manhã.

Devido à greve dos ônibus, as ruas e calçadas estão ainda mais vazias que de costume nessa época do ano. As poucas pessoas que se veem nas ruas estão visivelmente transtornadas e desorientadas pelo calor ou pelo desespero de não conseguir chegar no trabalho e tocar a vida direito. Trabalhadores de periferia choram para as câmeras do jornal local porque não conseguem se deslocar e estão tendo os dias descontados pelo patrão. Lotações, veículos de transporte escolar autorizados emergencialmente pela prefeitura e ônibus piratas caindo aos pedaços voam pelos corredores de ônibus vazios, abarrotados de gente com hipertermia. Os táxis buzinam e anarquizam à vontade, desvairados com a overdose de passageiros; alguns, de acordo com relato não confirmado que ouvi no ponto de ônibus, cobram bandeira dois em plena semana útil, à luz do dia. A greve, declarada ilegal pela Justiça do Trabalho, parece não ter hora para acabar. Os rodoviários brigam entre si e com os patrões, acusados de incentivar o impasse para pressionar o governo por aumento de tarifa. Ônibus que saem das garagens são apedrejados.

Brinca-se que Porto Alegre se transforma numa cidade de zumbis durante a temporada de verão, mas a brincadeira nunca foi tão séria, e de fato perdeu a graça. A impressão que se tem não é tanto de um cenário pós-apocalítico. Está mais para um pré-apocalipse. Ou melhor: é uma Porto Alegre em pleno apocalipse. Pelo menos é isso que minha imaginação começou a gestar de uns dias para cá. Por mais que esteja bem-informado ou mesmo engajado nos problemas reais, um ficcionista tenderá a amplificar e transformar a experiência própria e o mundo a seu redor em algo diferente, que atende em primeiro lugar aos desígnios da história a ser contada, às vezes em detrimento da correção fatual ou de ideais de conduta. Dentro da ideia de um romance que estou rascunhando, encaixa-se de repente essa Porto Alegre infernal, inserida num cataclismo lento e abafado no qual a Humanidade termina não por causa de uma catástrofe, epidemia ou tiroteio nuclear, mas porque se exaure aos poucos, sem escândalo, sem perceber, cozida aos poucos pelo sol numa sociedade emperrada.

Em “Fantasma sai de cena”, Philip Roth escreveu: “Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida?”. Roth conclui em seguida que essa amplificação, para algumas pessoas, “constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante”.

Em um lindo texto publicado em 2012, “What is real is imagined” (O que é real é imaginado), Colm Tóibín afirma que o mundo da ficção é frágil e persiste apenas porque é baseado na força da cadência e do ritmo da linguagem. “A história tem uma forma, isso vem primeiro, e depois a história e sua forma precisam obter substância e nutrientes do passado persistente, de memórias nítidas ou de incidentes subitamente inventados, recordados, borrados ou incrementados. Assim vêm as frases e mais um dia de trabalho. Com sorte, apesar de toda a fragilidade e desconforto, o que se formará a partir disso parecerá mais real e mais verdadeiro, mais envolvente e duradouro, que o noticiário do dia.”

Quero que esse calor passe e que essa greve termine, mas ao mesmo tempo, como ficcionista, seja pelo prisma da amplificação ou da devoção à forma, o fato é que a cidade, à revelia dela e também minha, me inspira.

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