[SAFRA 71] “Songs of Love and Hate”, Leonard Cohen

Entre os anos 60 e 70, apenas Leonard Cohen conseguia realmente rivalizar com Bob Dylan no que diz respeito ao uso da língua inglesa no mundo da canção (isso porque, obviamente,  a língua materna de Chico Buarque é o português).

Quando vivia na Grécia, no começo dos anos sessenta, Cohen, filho de um bem estabelecido comerciante judeu da cidade de Montreal, precisava de dinheiro para pagar suas contas, já que seus dois romances e seu trabalho como poeta, já reconhecido no Canadá desde os anos 50, não custeava seu estilo de vida nas ensolaradas ilhas do mar Egeu.

Foi então que começou a compor canções que acabaram sendo gravadas pela sua amiga Judy Collins, cantora de folk e ativista política da mesma linhagem de Woody Guthrie, Pete Seeger e Joan Baez.

Em 1966, Collins emplacou nas rádios norte americanas a balada Suzanne, composta por Cohen em 1965 e inspirada no relacionamento que teve com uma bailarina. A gravação abriu caminho para que seu amigo poeta assinasse com a gravadora Columbia e tentasse uma incursão também como cantor.

Foi assim, meio sem querer, que o poeta influenciado por Lorca, Yeats e T. S. Eliot se tornou um dos maiores songwrites do século passado, influenciando gente como Nick Cave, Bono Vox e Jeff Buckley.

Em 1971 Cohen já havia gravado dois discos com um relativo sucesso de público  e crítica. Resolveu então dar um passo mais ousado e gravar aquele que seria o seu disco mais denso e melancólico.

O disco é um ponto de virada, uma inflexão na obra de um dos maiores compositores do século XX.

Songs of love and Hate, foi gravado em Nashiville, terra do Country, e foi produzido por Bob Johnston, que já havia trabalhado com Dylan, Johnny Cash e Simon and Garfunkel. Com uma banda de apoio, chamada The Army, Cohen gravou sete canções e acrescentou uma gravação ao vivo da música Sing Another Song, Boys! registro de sua apresentação ao vivo no festival da Ilha de Wright em agosto de 1970.

O tom monocórdico e recitativo da voz de Cohen, cercado pelo seu dedilhado intimista no violão, pontuado por um grupo de cordas e pelas belas harmonias do conjunto de vocais femininos, permeia o disco. Suas canções criam climas densos, como em Avalanche, melodias perturbadoras e circulares ornando imagens de suicídio, como em Dress Rehearsal Rag e ambientes profundamente melancólicos, como na clássica Famous Blue Raincoat.

A poesia de Cohen é metódica, detalhista. Suas imagens, antes de seguirem o estilo das associações espontâneas e intuitivas de um Dylan, são cheias de pequenos flashs do cotidiano e de imagens líricas, que acabam tocando sentimentos profundos de amor, solidão e desamparo.  Esse trabalho poético com a canção faz com que Cohen seja visto muito mais como um poeta minucioso colocando música na poesia do que um compositor encontrando palavras para combinar com as melodias que cria.

Com exceção da ácida Diamond in the mine, em que as amarguras pelos amores perdidos, dos laços rompidos, se torna revanche e ganha uma pegada Country que combina muito mais com o clima de Nashville, o terceiro disco de Cohen é um mergulho extremamente corajoso nos abismos mais íntimos e nas feridas mais profundas, deixando à mostra as cicatrizes da alma que atormentavam a vida do poeta na época.

Anos depois, em 1991, em uma entrevista para o Throat Culture Magazine, Cohen afirmou que durante a gravação de Songs of Love and Hate: “absolutamente tudo estava desabando ao meu redor. Meu espírito, minhas intenções, minha vontade.”. Depois da gravação do disco o poeta, caiu em uma longa e profunda depressão, que o acompanhou por vários anos.

Esse álbum, de capa negra e letras brancas, onde aparece uma irônica foto de Cohen rindo;apesar de sua simplicidade musical e sua economia sonora, é central pra quem quer compreender a obra do autor de Chelsea Hotel #2 e Halelujah.

O disco é um ponto de virada, uma inflexão na obra de um dos maiores compositores do século XX. Agora, a gente tem de ir logo advertindo: não é aconselhável mergulhar distraído e desatento nos  abismos e labirintos desse álbum lançado 50 anos atrás. Especialmente se você é alguém que tem dificuldade em perceber a beleza profunda que se esconde por trás da mais aguda melancolia.

Ficha do disco

Songs Of Love and Hate

Leonard Cohen

Gravadora: Columbia

Produção: Bob Johnston

Nacionalidade: Canadá

Duração: 44:48

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito [ Ver todos os artigos ]

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