Ler pra quê?

TC

Vai que é tua Jairo Lima!

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André laurentino
NO ESTADÃO

Isto aconteceu há muito tempo, em Recife, na agência de propaganda onde eu trabalhava.

Uma tarde, o chefe abriu a porta de sua sala e gritou o meu nome. Eu tinha 19 anos e uns óculos grandes, daqueles cujas lentes vão até as bochechas. Mais que óculos, eles funcionavam como um escudo, deixando apenas o queixo e parte da testa descobertos.

Entrei na sala e ele logo me mandou fechar a porta. Pediu que eu sentasse. “Tanta cerimônia só pode ser sabão”, pensei. Eu era iniciante e não imaginava, no círculo banal de minhas atribuições, qual erro grave eu poderia ter cometido que justificasse uma bronca a portas fechadas. “Não deve ser bronca”, concluí. “Vou ser apenas demitido”.

“Queria lhe fazer uma pergunta”, ele disse. Tinha idade de ser meu pai e usava a mesma barba grisalha que eu respeitava em casa. “Me diga uma coisa, por que você insiste com esse negócio de ler?” Eu, que preparava um discurso maduro de aceitar demissão, não soube o que responder. “Tudo o que um homem faz na vida, André”, ele disse, “é para transar com uma mulher. E, hoje em dia, livro debaixo do braço não pega ninguém. No meu tempo, sim. Dependendo do livro, você terminava a noite com a mais gostosa da faculdade. Livro era mais importante que desodorante”. E terminou com um sábio conselho: “Larga tudo e vai fazer musculação”.

Não segui o conselho, como atestam os meus bíceps, mas temi que nele houvesse uma verdade terrível.

Se o homem erra, as bestas teimam: segui lendo.

Com o tempo, meu chefe virou meu amigo. Jairo Lima é um intelectual apaixonado, ouve ópera como quem vê copa do mundo e já leu tudo. As noites de quinta-feira regadas a gim tônica, música e literatura que passei em sua casa foram fundamentais na minha vida.

Hoje, sexta-feira, estou assistindo à Festa Literária Internacional de Parati edição 2005, junto com tantas outras pessoas que teimam em contrariar o conselho do Jairo. Os ingressos para a FLIP se esgotaram em minutos (sim, minutos). Isso mostra que ler ainda é a segunda melhor coisa que se pode fazer na cama. E que os livros não atrapalham a primeira. Graças a eles, e à minha teimosia, me apaixonei e me casei com a mulher mais linda da América do Sul, que está grávida de minha filha Rosa, uma homenagem também ao João Guimarães. Em vez de abandonar os livros, troquei de óculos.

Nem mesmo o Jairo, autor do conselho, parou de ler. Deixou, isto sim, a publicidade e se mudou para Natal, onde é feliz com sua pequena livraria. E com uma nova mulher.

Publicado no Guia em O Estado de S. Paulo

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. françois silvestre 18 de novembro de 2011 17:05

    Beleza de texto! Viva André e viva Jairo!

  2. Jairo llima 18 de novembro de 2011 16:42

    E é tudo verdade, Tácito, juro e dou fé.

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