Lesbos, de Beth Olegario

Enquanto alguns
aproveitam as férias
no mar azul da Itália:
Camogli, Baia del Silenzio, Monterosso
Ilha de Elba, Chiaia di Luna,
Costa Amalfitana e Spiaggia dei Frati.
Mulheres e crianças em longa espera se desesperam
ao ver os corpos de outras tantas crianças
serem levados pelas correntes do Mar Adriático

Se isto fosse um poema
os leitores se lembrariam que Safo
também teve seu corpo levado
por estas mesmas correntes.
Mas isto não é um poema.
E os corpos negros migrantes e pobres
jamais serão lembrados.

Ser um refugiado é estar desapossado de si.
É ser um corpo esperançoso equilibrando-se sobre a morte.
Ser uma mulher refugiada em um campo de refugiados
é estar em delito.
É preferir dormir com fraldas
à ter que ir a noite a casa de banho.

De servem os valores humanitários?
De que serve a poesia em Camp Moria?

A poesia de nada serve.
Nunca houve humanidade
Foi por estar certa disto,
que há 2.600 anos Safo
lançou-se do penhasco de Lêucade.
Os fragmentos de seus poemas sobreviveram a ruína.
Os imigrantes que vagam em botes
no mar Egeu desaparecerão.
Pois não nos interessa as suas vidas, nem as suas histórias.
Mas os versos de Safo sobreviverão.

Cinco mil e quinhentas pessoas foram jogadas em Moria.
No campo, concentração de corpos.
sírios, iraquianos e paquistaneses.
Desconcertados. Empilhados.
Lesbos tornara-se a ilha do desespero.
Coletes já não salvam.
A poesia de nada serve.

Recita Ro-La, uma jovem síria
«A vida é um inferno em Camp Moria». Enquanto corpos são levados pelas correntes do Mar Adriático

Enquanto Ro-La recita o verso da morte
Enquanto Safo lança-se todos os dias do penhasco de Lêucade.
Um turista de férias repete todas as manhãs: Che bello l’azzurro del mare italiano.

Fotografia: Joris Van Gennip

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