Leveza e peso nas redes sociais

Por Tácito Costa 

A cantora Vanessa da Mata publicou recentemente um tweet que chamou-me atenção de cara porque remeteu-me ao meu último texto aqui (dia 05). “Ser, absorver a leveza de momentos duros da vida. Não fazer drama onde há solução e onde o tempo pode sanar! Ser leve para viver com leveza”.

No meu texto, que trata da intolerância, pensei em abordar também a questão da leveza, não por acaso tema de importantes escritores do século XX, como Ítalo Calvino (“Seis propostas para o próximo milênio”) e Milan Kundera (A insustentável leveza do ser). Lembrei-me também que Cecília Meireles tem um poema sobre a questão, que transcrevo no final. No caso de Calvino, a abordagem se refere mais a valores literários, embora algumas questões levantadas possam se estender à vida.

Acabei me estendendo mais do que queria e não disse como considero importante que incorporemos a leveza ao nosso cotidiano. Sobretudo às redes sociais, onde o ambiente costuma ser beligerante e agressivo. Até mesmo num simples grupo de familiares ou amigos no WhatsApp o clima muitas vezes fica pesado e agressivo.

Intriga-me a mudança de personalidade que algumas pessoas leves, amáveis e educadas no convívio pessoal, sofrem nas redes sociais, onde se apresentam mal humoradas, ríspidas e… “carregadas”. Quando, esperamos isso daquelas figuras que já são assim no dia-a-dia e que evitamos socialmente, nas livrarias, cafés e calçadas.

Qual é a verdadeira personalidade dessas pessoas? A que elas apresentam no convívio pessoal ou nas redes sociais? Acho que só um estudo científico poderá nos responder. O fato é que as redes sociais mexem profundamente com a cabeça das pessoas. E pelo que tenho visto não é para melhor.

Talvez tenha sido por isso que a frase “Ser leve para viver com leveza” não saiu da minha cabeça. Poderíamos transformá-la em lema, adotando-o em nosso proveito, principalmente, mas com reflexos diretos no nosso entorno social. Leves como crianças num balanço.

Porque quanto mais leve e pássaro, como canta Cecília, mais fácil levar a vida.

 

LEVEZA
Cecilia Meireles

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 15 de setembro de 2014 23:33

    Engraçado, mandei mensagem sobre esse post e ela se desmanchou no ar.
    Cecília é grande, considero quilométrico tiro no pé da ABL não ter incluído Cecília e Clarice em seus quadros, burrice sem correção. Confesso que o brilho de Cecilia me parece nada leve, é até mesmo toneladas pelo monte de belezas e verdades que ela, como todo (a) grande artista, nos traz.

  2. Geraldo Alves Spinelli Júnior 15 de setembro de 2014 12:05

    Cecília Meireles é (na minha opinião) a nossa maior poetisa, li toda sua obra numa edição em papel bíblia da capa verde, e me apaixonei até hoje, se não sei decorado vários poemas, sinto a sonoridade deles, e lembro-me da sua visão crítica, da sua intransigência diante da realidade, e de sua intransigência diante da arte, ouso dizer. Mas, a internete não é livre, a internete é um jogo de cartas marcadas, muitas vezes sutil que poucos percebem. Ex. Quando a BP (British Petroleum) fez o maior crime contra a humanidade de todos os tempos, derramando milhões de óleo cru no Golfo do México, tentei na época me informar nessas porcarias de site de busca tipo google, facebok, etc.., e etc…, e o que li ?, mensagens e mais mensagens filtradas e omissões criminosas, Inclusive um sacana que publicou um artigo (com certeza falso) dizendo que o derramamento de óleo tinha sido benéfico para o ecossistema pois algumas algas digeriam o petróleo. Pensei cá comigo, por que esse fdp não alimenta a mãe e os filhos dele com petróleo ?. Cecília, eu canto por que o instante existe !

  3. Luiza 14 de setembro de 2014 22:17

    é verdade tácito, me pergunto a mesma coisa, certa vez escrevi sobre ” a internet e sua liberdade perigosa” uma liberação, um verdadeiro “abra suas asas, solte suas feras”. e sei que essa “liberdade é tanto pro lado rispido quanto para o de ser e dizer o que quiser.
    essa falta de leveza as pessoas andam sofrendo sim, não só isso mais a falta de compaixão e gentileza tbm. ninguém vomita acor iris e se assim transparece ser o tempo todo, o facebook denuncia. “é assim animais ou menos assim.”

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