Liberdade a qual preço?

Por Roger Cohen
FSP/New York Times

Roxana Saberi, a jornalista iraniano-americana que em 2009 passou 101 dias na notória prisão de Evin, no Irã, escreveu um livro obrigatório sobre seu próprio colapso moral sob interrogatório e a subsequente redenção pela verdade.

“Todo o mundo tem um preço”, disse-me na década de 1980 um agente da CIA em Roma. Penso nessa frase desde então. Ninguém sabe quanta pressão é capaz de suportar, até ser submetido a ela. Acho que a maioria das pessoas tem, sim, um preço, mas nem todas.

Saberi, de ascendência nipo-iraniana, ex-finalista do concurso Miss EUA, preparava outro livro quando agentes iranianos a arrastaram para Evin.

Acusada de espionagem, mantida em isolamento, ela logo recebe uma oferta do seu implacável interrogador:

“Talvez possamos chegar a algum tipo de acordo.”

“Um acordo?”

“Antes, confesse ter reunido informações para a CIA.”

“Mas eu não estava…”

“A ajuda de pessoas como você poderia ser útil para nós.”

“Aonde você quer chegar?”

“Você sabe, ajude-nos”, responde ele. “Reúna algumas informações úteis para nós.” Saberi, conforme ela relata em “Beetween Two Worlds” (Entre dois mundos), se desintegra sob tal pressão -compartilhada por incontáveis presos políticos no Irã. Ela se vê “privada de integridade e dignidade”. Sente-se abandonada por todos, inclusive por Deus.

Logo ela aceita fazer uma “confissão” filmada, contando como foi recrutada por um “Sr. D”, como foi paga por ele para espionar o Irã para a CIA, como a pesquisa do seu livro era um mero disfarce para entrevistar iranianos. Ela se diz pronta para espionar para o Irã.

Em troca dessas mentiras, prometem-lhe a libertação, mas a libertação não é imediata, e Saberi, ajudada pela coragem de outros presos, começa a se perguntar qual é o valor da liberdade se for obtida nesses termos.

Ela embarca em uma jornada para longe do mundo exterior e de suas concessões, na direção de um mundo interior feito de absolutos. Aqui, Deus, não mais evocado iradamente como o traidor injusto do seu destino, se torna sinônimo de verdade.

Sua epifania ocorre na metade do livro: “Lágrimas começaram a rolar pela minha face conforme eu percebia que havia desistido da verdade por conta do medo do homem e do medo da morte.

Sim, eu queria viver, mas que tipo de vida valia a pena viver?… Pelo menos entendi que eu tinha de contar a verdade -mesmo que isso me custasse a liberdade, mesmo que me custasse a vida”.

Ela se desmente, diz a um juiz que sua “confissão” é toda mentira, e começa a fazer as pazes com a ideia de que poderia passar muitos anos na prisão.

Na verdade, sob intensa pressão internacional, a sentença inicial de oito anos de prisão é suspensa, e ela é solta -apenas um mês antes da tumultuada eleição iraniana, que levou a detenções e julgamentos em massa, a muitas dessas “confissões” e a algumas execuções. Um momento significativo ocorre quando o jovem interrogador que a atormentava lhe diz que sempre soube que sua confissão era mentira.

Aqui estamos no coração do labirinto do Estado repressor. Mentiras -sobre espionagem, sobre “revoluções de veludo” tramadas no exterior para ameaçar o Irã, sobre agentes da CIA- têm de ser geradas para defender uma República Islâmica cujo próprio nome se tornou uma falsidade.

Sim, a maioria das pessoas tem um preço. Elas não assumem o risco da verdade em uma terra de mentiras. O medo prevalece sobre a consciência. Mas epifanias como a de Saberi de fato acontecem. A rebelião da natureza humana contra a falsidade é arraigada. Por isso, acho possível uma mudança fundamental no Irã ao longo da próxima década.

Como observou Hannah Arendt, “sob condições de terror a maioria das pessoas irá obedecer, mas algumas pessoas não irão”.

Continuou ela: “Humanamente falando, nada mais é necessário, e nada mais pode ser razoavelmente perguntado, para que este planeta continue sendo um lugar adequado à habitação humana”.

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