Liberdade marginal

Por Almandrade (na foto com Oiticica – à esq.)

Para Hélio Oiticica a arte era uma opção de vida contra toda e qualquer forma de opressão: social, intelectual, estética, política… Inventor, teórico, refletiu e interrogou a brasilidade e a universalidade da arte, sempre inconformista e indiferente à moda. – Arte concreta, Neoconcretismo, Parangolé, Tropicália, vanguarda brasileira dos agitados anos 60, White Chapel Galery (Londres), seis ou sete anos de Nova Iorque; uma vida de tensão em fazer arte e habitar o mundo. Ao romper com o objeto/arte como coisa destinada à visualidade (relação “contemplativa”), busca o tato e o movimento, repõe a sensibilidade recalcada pelo tecnicismo do movimento concreto. Cor, estruturas, palavras, fotos, dança, corpo, definem a obra. A participação física é o centro e o interlocutor do acontecimento/arte, o conceito de visão envolve todo corpo, difícil não pensar na fenomenologia de Merleau-Ponty.

Nas palavras de Mário Pedrosa, em 1965:

“A beleza, o pecado, a revolta, o amor dão à arte deste rapaz um acento novo na arte brasileira”.

O trabalho de Hélio Oiticica teve uma inserção no ambiente cultural de vanguarda deste país, no momento de sua maior produtividade. Dos Metaesquemas (desenhos em 58/59, quando o artista era integrante do grupo Frente) aos ambientes de 69, um percurso que incorporou a improvisação e a expressividade corporal para construir um trabalho. Rompeu com a noção de quadro e libertou a cor da relação figurativa. A cor deixou de ser um aspecto visual, nos ambientes e nos objetos, o espectador era convidado para o contato físico. Penetráveis (maquetes). Bólides (objetos de vidro com pigmentos para serem manipulados), Parangolés (capas para vestir o corpo). Passista da Mangueira. Tropicália.

“Tropicália é a primeiríssima tentativa consciente, objetiva, de impor uma imagem obviamente brasileira” ao contexto atual da vanguarda e das manifestações em geral da arte nacional. Tudo começou com a formulação do Parangolé, em 1964, com toda a minha experiência com o samba, com a descoberta dos morros, da arquitetura orgânica das favelas cariocas (e conseqüentemente outras, como as palafitas do Amazonas) e principalmente das construções espontâneas, anônimas nos grandes centros urbanos – a arte das ruas, das coisas inacabadas, dos terrenos baldios, etc.”  H.O.

“Propositadamente quis eu, desde a designação criada por mim de “tropicália” (devo informar que a designação foi criada por mim, muito antes de outras que sobrevieram, até se tornar a moda atual), até os seus mínimos elementos, acentuar esta nova linguagem com elementos brasileiros, na tentativa ambiciosíssima de criar uma linguagem nossa, característica, que fizesse frente à imagética Pop e Op internacionais, na qual mergulhava boa parte de nossos artistas”.  H.O.

Uma manifestação ambiental em que, ao penetrá-la, o espectador era bombardeado por imagens sensoriais, devendo reagir com todos os sentidos, a Tropicália foi instalada pela primeira vez em 1966, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Irreverente, rigoroso e anarquista ao mesmo tempo, coerente com suas propostas, tinha um perfeito domínio intelectual sobre seu próprio trabalho. Mais do que uma instalação de arte, a Tropicália era um pensamento avançado sobre a arte brasileira.

“Como se vê, o mito da tropicália é muito mais do que araras e bananeiras: é a consciência de um não condicionamento às estruturas estabelecidas, portanto altamente revolucionário na sua totalidade. Qualquer conformismo, seja intelectual, social, existencial, escapa à sua idéia principal”.  H.O. – 1968.

A experiência de Hélio Oiticica parte do concreto para a periferia do projeto construtivista, adotando procedimentos estranhos como: a marginalidade, a crítica à produção industrial, a participação do corpo na leitura da obra. No princípio era Mondrian e Malevitch; depois, o outro lado da modernidade: Marcel Duchamp. Uma  trajetória exemplar, na forma como transformou o seu trabalho, fazendo daexistência a condição da arte. A vida de um artista não explica a obra; mas, se comunicam, principalmente no caso de Oiticica. Seu trabalho é resultado de sua relação tensa com o cotidiano, que via na marginalidade uma idéia de liberdade; aliás, o artista não é um marginal que empresta seu corpo ao mundo, para transformá-lo em pintura?! (Marleau-Ponty). Com a Tropicália, Oiticica submeteu a brasilidade a uma inteligência rigorosa, sem perder o referencial poético. Uma proposta cultural que buscava algo à margem, ou melhor, entre “o visível e o invisível”; construir, com a experiência sensorial, um pensamento.

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