A lição contra a lição de moral

Por José Geraldo Couto
BLOG DO IMS

Se filmes do leste europeu são raros nos nossos cinemas, uma produção búlgara é quase uma anomalia. É o caso de A lição, de Kristina Grozeva e Peter Valchanov, que chegou como quem não quer nada e tem grandes chances de arrebatar as almas sensíveis que porventura ainda existam nas nossas plateias.

Premiado em festivais internacionais (Varsóvia, San Sebastián, Tóquio), A lição é, de certo modo, um primo-irmão do recente Dois dias, uma noite. Assim como no filme dos irmãos Dardenne, trata-se aqui da odisseia miúda de uma mulher acossada pelo aperto material, que se torna em algum momento também uma provação moral. Em ambos, acompanhamos quase passo a passo a caminhada da protagonista em sua luta pela sobrevivência num mundo hostil ou indiferente.

Narrativa austera

Para além do tema, uma forma naturalista e austera de narrar, herdeira do neorrealismo, aproxima os dois filmes, ainda que A lição talvez careça do rigor e do brilho dos Dardenne. Voltaremos ao assunto.

Aqui, a (anti) heroína é Nadezhda (Margita Gosheva), professora ginasial de inglês numa cidade do interior da Bulgária. Tudo começa quando a carteira de uma aluna é furtada por um colega na sala de aula e Nadezhda tenta descobrir o autor do delito e usar o episódio para dar aos estudantes uma lição de moral. Vem daí a ironia não muito sutil do título, pois quem acabará aprendendo uma dolorosa lição será a própria professora.

Endividada, ameaçada de perder a casa por falta de pagamento da prestação, ela não pode contar com o marido bêbado e desocupado, e não quer recorrer ao pai, abastado e bon-vivant. Diante da insensibilidade kafkiana do Estado e do capital, ela acaba nas mãos de um agiota inescrupuloso (Stefan Denolyubov).

É aqui que entra, talvez, a diferença essencial entre a abordagem dos diretores búlgaros e a dos irmãos belgas. Vestígios de maniqueísmo perpassam a sólida estrutura narrativa de A lição, jogando o espectador contra o agiota malvado, o pai devasso, a madrasta frívola. Se em Dois dias, uma noite a ênfase é na economia política que impinge aos indivíduos os dilemas morais, aqui o acento parece colocado na constituição moral de cada um.

Elogio da imperfeição

Mas isso não diminui a potência do filme, uma vez que o importante é a transformação que se opera no espírito e na atitude da protagonista. À parte isso, A lição conta com inspiradas soluções dramáticas e visuais, como a da velha van que o marido de Nadezhda quer vender e que emperra na calçada bem em frente ao portão da casa, obrigando todos a uma patética ginástica para entrar ou sair.

Igualmente admiráveis são as elipses e os subentendidos, como por exemplo na sequência em que a professora vai à delegacia prestar queixa contra a chantagem do agiota e sai de lá sem dizer uma palavra.

O mundo retratado em A lição é opaco e cruel, mas não desprovido de humor, nem de afeto, nem mesmo de uma obscura e retorcida beleza. Para percebê-la, talvez seja necessário despojar-se, como Nadezhda, da rigidez moral e aceitar a imperfeição dos seres e da vida.

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