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Lições espirituais na forma de meias coloridas

Em um templo budista na Califórnia, a chance de me olhar no espelho.

Quem diria que num retiro de meditação com o psicólogo e ex-monge budista Jack Kornfield, considerado um dos professores espirituais mais influentes do nosso tempo, uma de minhas grandes lições espirituais se apresentaria na forma de um par de meias.

Bom, deixe-me explicar.

Eram 09h em Spirit Rock, um templo de retiro budista a 50 minutos de San Francisco (EUA).  À meia-hora do acontecimento, a entrada do local estava congestionada de carros (a maioria BMWs e outros automóveis caros). Mesmo assim, como tudo era bem organizado, havia um senso de fluidez no tráfego.

Fomos direcionados ao estacionamento de veículos e pegamos os pertences que precisaríamos para o dia de ensinamentos e práticas. Quando começamos a caminhar em direção ao salão, vejo duas mulheres do outro lado da estrada. Elas aparentavam ter mais de 60 anos e se vestiam de forma elegantemente casual, com camadas de roupas de tecidos finos que se movimentavam com o vento à medida que caminhavam conversando animadamente.

No momento que as observei, percebi que minha mente tinha começado a criar uma estória sobre uma delas. Em milésimos de segundos, os pensamentos se apressaram e a classificaram dentro da categoria “típica frequentadora de eventos espirituais”, ou seja: mulher de uma certa idade e de elevado poder aquisitivo.

Em menos de um minuto, minha mente informou com determinada nitidez quem era aquela pessoa desconhecida. Instantaneamente emergiu em mim uma série de emoções e narrativas sem nunca ter falado com ela.

Algo em mim dizia: “Ela é privilegiada e esnobe, provavelmente, tem uma máscara espiritual, medita e participa de eventos espirituais e não observa sua sombra e seus recantos de ódio e preconceitos.”

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Encravado em uma floresta de carvalhos com mais de 400 hectares, o Spirit Rock Meditation Center fica a 50km de São Francisco.

Estórias, piadas e notícias de jornal

Enfim, a estória que criei sobre a estranha ativou emoções de raiva contida, desaprovação e julgamentos. Apesar do enredo dramático ter dominado minha tela mental, decidi deixar tudo de lado e focar no evento que começaria em instantes e segui em direção ao salão.

O salão se encontrava 60% cheio e Jack Kornfield, psicólogo de renome internacional e um dos pioneiros a introduzir a prática budista da meditação no Ocidente, estava no palco sentado, tranquilo, organizando papeis. Em menos de 10 minutos o salão lotou e o evento iniciou.

O dia prosseguiu pleno de ensinamentos, risadas e meditações. A forma como Jack desperta nossa humanidade com profundeza, humor e simplicidade, e oferece luz pras escuridões contemporâneas, é impressionante e aliviante.

Eu, como um admirador do seu trabalho, me reencontrei com uma sabedoria interior que, por vezes, é abafada pela minha confusão e egoísmo diário.

O evento era direcionado a iniciantes na prática da meditação e ele nos guiou por diferentes tipos de meditação, intercalando-os com estórias, piadas, notícias de jornal e ensinamentos clássicos do Budismo.

De maneira despretensiosa, ele fez uma síntese brilhante entre a prática profunda do Budismo com o insight da psicologia moderna. Durante aquela tarde, foi fácil constatar sua maestria em criar pontes entre os dois campos de exploração da psique humana.

O tempo passou na medida certa para acolher cada palavra falada. Já era tarde, quase no final do evento, quando ele nos sugeriu uma meditação andando. Para quem nunca praticou, informo que consiste em dar passos lentos e conscientes, voltando sua atenção sempre para cada passo dado. Grande parte do grupo foi convidado a praticar no terraço.

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Jack Kornfield estudou budismo durante anos na Índia, na Tailândia e em Mianmar; é autor de vários best-sellers nos Estados Unidos.

Faça!

O clima era frio, porém, ensolarado. Alguns caminhavam de sapato, outros, de meias. Eu estava concentrado em meus passos e nos movimentos da minha mente, que partiam em direções diversas, desde lembranças de um passado remoto a ruminações sobre o futuro, quando vejo na minha frente dois pés que se moviam devagar.

Em câmera lenta olhei em direção aos mesmos, e senti o coração ensolarar ao perceber que cada pé estava coberto por uma meia de cor diferente. Um de amarelo irradiante e outro de um azul firme como o céu.

“Quem é esta pessoa tão interessante, ousada e criativa?”, perguntei em silêncio à medida que, curioso, levantava meu olhar para vê-la. E eis que para minha surpresa era ela, uma das desconhecidas que vi no estacionamento. Aquela que julguei como superficial, privilegiada e talvez preconceituosa estava agora ali em frente. Não me contive e ao fim da meditação decidi falar com ela. Me aproximei e disse:

– Licença. Adorei suas meias – falei com um sorriso aberto.

– Obrigada – ela me disse receptiva.

– Você sabe que desde criança eu sempre quis calçar uma meia de cada cor, exatamente como você faz.

– É só comprar dois pares de meia: um de cada cor e usá-las separadamente.

Neste momento, ela abriu um grande sorriso e disse com alegria e firmeza: FAÇA!

– Vou fazer sim. Você me inspirou e me mostrou que é possível. Obrigado. – falei com gratidão e alegria, e me despedi da mesma.

socksDuas sentenças

Caminhei de volta ao salão refletindo a ironia daquela estória. Momentos depois, ouvi Jack Kornfield falar do quão facilmente julgamos o outro e dos riscos que corremos por, precipitadamente, nos deixar levar por nossos julgamentos.

É claro que as palavras confirmaram o que eu havia experienciado momentos antes com a mulher de meias coloridas. Os dias se passaram e ainda acolho a lição daquele encontro.

A mesma pessoa que imaginei ser tão desinteressante e negativa foi também quem me trouxe uma lição de alegria libertadora. No nosso encontro, eu me vi no espelho, tanto no julgamento que cometi, como na ousadia em vestir as meias coloridas.

Uma lição talvez foi a de não acreditar tão rapidamente nos pensamentos que julgam, de acolher com atenção amorosa à minha falta de clareza mental, de humildade quanto à reconhecer que nossas certezas são frágeis quando sustentadas por emoções e pensamentos precipitados, e que é preciso cultivar compaixão para conosco e para com o outro.

Todo ser humano é um mestre em potencial e pode oferecer uma chance de elevarmos nossa consciência e de crescermos em compreensão.

Em cada passo que damos na auto-observação há uma chance de conhecermos os mecanismos automáticos de nossas mentes. A cada passo, há uma chance de acolhermos nossas imperfeições e as alheias com atenção amorosa.

No meu caminhar abrigo com gratidão o encontro com a senhora das meias coloridas que tanto ensinou sobre minhas projeções mentais e sobre o valor da autenticidade.

Meu próximo passo? Encontrar dois pares de meias de cor diversas e calçar uma meia de cada cor.

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Joseh Garcia

Comentários

1 comment

  1. Diulinda 19 agosto, 2018 at 17:11

    Olá José Garcia!Mais um bom texto!Partilhar com os leitores do substantivo plural,uma experiência destituída de qualquer tipo de máscara,é corajoso e incentivador para os que pretendem enfrentar o espelho de sua própria incompletude humana.Vou esperar o próximo!

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