Lionel, o memorioso

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Aos 29 anos, Lionel Messi ganhou tudo com o Barcelona: oito vezes o campeonato espanhol, cinco vezes o prêmio de melhor jogador do mundo pela France Football e pela FIFA, quatro UEFA Champions League, três mundiais interclubes e gols antológicos em artilharias inesgotáveis

Recordo-me dele ainda garoto, baixinho, quase bobo, cabelo escorrido pouco maior do que corte iêiêiê, sorrateiro e veloz feito uma pulga, pois não é assim que lhe chamam nas Espanhas?, entre marcadores e colegas ostentosos, como Ronaldo, o Gaúcho.

Recordo-me das três Copas do Mundo em que se acreditava em uma nova explosão maradoniana, ou algo que o valha, daquele menino que carrega uma perna esquerda transcendental.

Foi ao Oriente, à Alemanha, ao sul da África, e nada.

Veio ao Brasil, mi mundo, tu mundo, como cantava o pitbull cubano, hinchada louca numa invasão tão bonita admirada por nós outros, ganhou uma, duas, três e estancou no Maracanã lotado.

Falaram em 100 mil argentinos aqui, 200 mil no Chile, na derrota do ano passado para o time da casa (fotos abaixo), e outro tanto desses nos Estados Unidos, na nova decepção, ocorrida na noite de domingo último, na final da Copa América do Centenário.

Penso que torcedor de futebol é quem mais busca a experiência de corpo presente, daí tanta intensidade, tanta paixão – se toda reconstituição do passado é vicária e hipermediada, ele entra no estádio para fazer a história sem intermediações.

Minha deplorável condição de brasileiro amargurado com futebol contribui na escritura de algo grandiloquente sobre o que Lionel Messi fez no Barcelona, nesta década em que estamos.

Na Catalunha é onde mora desde os 13 anos.

Na Catalunha é onde virou o maior jogador de futebol do planeta, com uma sequência de títulos e exibições de fazer Pelé repensar seu marketing.

Assim como Jorge Luis Borges, o conterrâneo instalado entre os cânones da literatura mundial, ele se tornou maior do que o futebol argentino de sua época e mais sedutor que a tradição futebolística da qual deveria pertencer.

A imagem dos dois é mais poderosa do que as letras e o futebol argentino, do ponto de vista europeu.

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Jorge Luis Borges usou a tradição gauchesca para fazer literatura universal com narrativas de vinganças, insônias, duelos de faca

Beatriz Sarlo falou que ler Borges como um escritor universal, aclamado em todo o mundo lhe provocava uma satisfação imensa, ao mesmo tempo em que batia uma sensação de perda irreparável e de traição com tudo o que o portenho defendeu durante parte considerável de sua carreira: o fato de ser um escritor do arrabalde, de um país distante dos ‘grandes centros’, terra tratada como o fim do mundo pela metrópole.

Por Messi, muito argentino se sente traído ao vê-lo brilhar na Europa com a camisa azul-grená, com a qual é comparado com Pelé e Maradona, e perder campeonatos em sua periferia.

É como se renegasse o gauchismo, o tango, a milonga.

São 23 anos sem conquistas da Argentina, já pensou?

Ambos, Borges e Messi, de vida privada despida de atos espetaculares, ‘sem graça’ para tabloides marrons.

O boleiro até se encheu de tatuagens, deixou a barba ruiva crescer, mas continua bom moço, casado, quieto na dele, sem revidar nem botinada, pouco atrativo para a indústria de celebridades.

Seu negócio é celebrar a bola, o gramado, as gentes bestificadas com jogadas impossíveis para todos os outros.

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Cego durante a metade da vida, Borges nunca escreveu romances e entrou para o ‘cânone’ literário mundial com suas histórias fantásticas cheias de questões filosóficas e ideológicas; livros como O Aleph, Ficções e O Fazedor são fundamentais em uma biblioteca particular

Já o autor de O Aleph e Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, pensou a literatura argentina como a reunião entre a tradição gaúcha e o intertexto – antes deste virar moda.

De personagens e cenários fantásticos, para muitos, uma doidera só, ele levantou questões filosóficas e ideológicas, em movimento por diversas culturas, sempre em choque com a periferia, com a orilla, como diziam os portenhos dos 30s e 40s sobre aquele lugar entre a planície e as casas derradeiras de Buenos Aires.

Até Borges, a literatura argentina era rica em regionalismo, mas presa ao mesmo.

Ele universalizou o duelo de facas, a trairagem e a vingança sanguinária dos Pampas, a vida rural criolla.

Fez da margem uma estética.

A grande questão de sua obra:

Como seria possível escrever literatura em uma nação culturalmente periférica?

Pois o regionalismo, seja ele argentino, nordestino ou gaélico, nomeia o que desaparece com uma linguagem literária que já não se usa na cidade.

Borges fez o inverso: imaginou uma cidade do passado numa literatura futura.

Já Messi é escravo da memória dos argentinos por Maradona e o bi mundial antológico de 1986, e do presente, em que o tabu de mais de duas décadas sem conquistas impregnou de Jujuy a Santa Cruz.

Após a vitória chilena nos pênaltis, anteontem, uma chuva ácida de mensagens lotou as redes com críticas pesadas ao craque de Rosário – as mais brandas são as já conhecidas sin huevos (nosso ‘sem culhão’) e pecho frio (Peito frio, algo como nosso ‘amarelão’); ainda que nas horas subsequentes tenha iniciado um verdadeiro clamor nacional, mídia inclusa, diante sua declaração de que tinha sido sua despedida da seleção.

Foi tratado como Funes, o memorioso, personagem de um conto borgeano dono de percepção sobre-humana, que decora tudo em segundos, cria novos sistemas de numeração, sem ser aceito como gênio, vivente da escuridão, isolado, mufino até morrer em um cômodo de um rancho.

Messi_Final Copa America 2015Decime qué se siente

A história de Funes (uma metáfora sobre a insônia, dizia Borges) faz parte do magistral Ficções, conjunto de 16 contos, divididos em duas partes: O Jardim de Veredas Que Se Bifurcam e Artifícios, publicados aquela em 1941 e esta, em 1944.

Na trama, o narrador inominado conhece Funes através de um primo, em um verão no vilarejo de Fray Bentos.

Tempo depois, Funes cai de um cavalo e fica paralítico, trancafiado em um quarto sem luz.

Ele sabe que o narrador recebeu livros em latim pelo correio e pede emprestado apenas um deles e um dicionário.

Afirma ser o suficiente para aprender a língua românica.

O narrador zomba da audácia do garoto de 19 anos, mas empresta os livros.

O encontro improvável entre os dois acontece naquele mesmo quarto escuro, sem que o rosto de Funes apareça.

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Argentina perdeu três finais em dois anos; duas para o Chile, na Copa América; tabu de 23 anos sem títulos sufoca talento se Messi na seleção, o que revolta parte dos torcedores (La hinchada)

Lembrava de tudo, de todos os detalhes de a infância, com a super memória desenvolvida após a queda do cavalo.

Em uma analogia ludopédio-literária forçada, Messi, a cada queda, a cada derrota de sua seleção, resgata episódios na memória dos argentinos, que o jogam no breu, como o quarto sombrio de Funes, aquele que dita a Naturalis historia, de Plínio, da primeira à última página sem saber o que fazer com tanto conhecimento.

Antes da final contra o Chile em Nova Jersey, a segunda em dois anos, Maradona, do alto do cadafalso, sentenciou:

“Ganhamos com certeza. Se não ganharmos, nem voltem”.

A morte de Funes, tão novo, versado em latim com a leitura de meros dois livros, impressionou o narrador borgeano.

O novo ‘fracasso’ de Messi, para uma parte da torcida argentina, é isso: a morte e o desperdício de um talento único, de uma capacidade enorme de improviso e de proporcionar cenas de uma beleza plástica com raras equivalências.

Para os outros.

Cego, como Borges na segunda metade de sua vida, é quem enxerga desse jeito?

Ou futebol só vale a pena com melodrama?

Diga você como se sente.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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