Líquida e lírica

Encantei-me com a poesia de Iara Maria Carvalho no primeiro momento em que a colhi com meus braços de poeta-aprendiz: ocasiões esparsas no facebook em que a poeta jorrava, como avalanche, escritos viscerais e, sobretudo, humanos, muito humanos; afinal,  como ela mesma diz, “chega um tempo em que a vida precisa ser dita em voz alta”. 

E que bom que o neon e o outdoor de sua poesia vagueiem pelas ruas, entre os carros e as avenidas, porque eles são belos, extremamente belos. E tudo que é belo, é também urgente e necessário.

Meu segundo encontro com sua poesia foi no Bardallos: horas abertas de palavras vigorosas; o toque lírico entre o Insurgências Poéticas e o Casarão de Poesia.

Nesses segundos suspensos, Iara presenteou-me com seu Saraivada, e eu pude flutuar sobre a densidade desse livro.  Como diria Matilde Campilho, talvez a poesia não salve o mundo, mas ela salva, sim, o minuto. E a escritora portuguesa completa, acurada: “estamos aqui para dançar sobre os escombros”.

Iara não sabe o quanto esvoacei meu corpo sobre meus próprios cacos e ruínas lendo sua poesia; quantos minutos de benevolência e beleza me foram dados graças à sua generosidade de compartilhar com o mundo as palavras que saem dos dedos dessa mulher com nome de sereia.

Leia “Viver é muito perigoso”, de Magno Catão

E por isso mesmo, líquida, esparramada pelos móveis de sua casa, os quais ela mastiga com ousadia e uma pitada de louca lucidez à procura de adivinhar o que a “queima de tão forte”.

Até o mesmo o fogo é lambido, até mesmo o fogo é armazenado em frascos de poemas. Existe um “calor colorido” em Saraivada, habitando o “espaço vivo da palavra mais cortante”.

Aliás, o que me queima, o que me armazena de brilhos lendo a poesia de Iara Maria Carvalho é a sua coragem; acredito que seus poemas são, sobretudo, corajosos.

A mulher-sereia não tem restrições e não guarda receios de falar da morte e das “migalhas rolando frias pela ponte do pescoço”, cápsulas de cada cor para uma mulher que se define como uma “Ursa Bipolar”, a propósito, talvez um dos poemas mais icônicos do seu livro.

Um livro tão geométrico e multifacetado

“[…] quantos minutos de benevolência e beleza me foram dados graças à sua generosidade de compartilhar com o mundo as palavras que saem dos dedos dessa mulher com nome de sereia”

E apesar de os oceanos lhe terem “roubado o ócio e o desejo”, Iara, e mesmo que esteja ou estivesse “vazia metade do seu coração”, e embora “a metade cheia” esteja ou estivesse desconhecida, na verdade, Saraivada não é composto de metades, porque elas são poucas para um livro tão geométrico e multifacetado: aqui há o erótico e a flama recolhida, o sangue escorrendo compondo uma obra, bobos bonitos a quem são dedicados um azul tão bonito, o azul do céu, “para onde voam todos os bobos líricos de deus”.

Para você e sua poesia, eu digo: “a esperança nascendo eu acho bonito”. Para você e sua poesia, desejo uma vida mais larga que todos os oceanos; e eu digo:

no fim tudo morre,
mas o fim ainda não chegou.

eu, que tão natureza morta já fui,
ainda estou viva.

eu, que já fui impermeável à vida,
hoje me vejo líquida,
lírica.

uma maçã com escuros
à espera de um aboio que amanheça
o sol.

Ilustração: Beatrice Daga

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