Lissões de literrorturra

Li “Um inimigo do povo”, de Ibsen, no fim da adolescência. A experiência foi marcante. Se o médico era boa gente e sofria tal rejeição ao tentar superar um problema real de sua cidade, havia algo errado com os que o rejeitavam tão violentamente. A atitude final do personagem, auto-confiante na desgraça, não podia significar loucura e sim uma capacidade de enxergar longe mesmo sofrendo as piores violências.
A FSP de 21 de julho de 2011 publicou um texto de Ferreira Gullar com o título “Em time que está ganhando…”. Ele comenta ação da Prefeitura do Rio de Janeiro contra grades que cercam praças públicas. Defende essas grades contra quem as perturba: “a praça havia se tornado um valhacouto de vagabundos, mendigos, drogados e assaltantes”.
Por favor, releiam o trecho.
Seu autor é conceituado escritor, cogitado até para ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura.
Quem são os inimigos do povo nesse trecho do conhecido escritor? Contra quem deve agir o poder público nesse texto? Qual a política social que o escritor prescreve para aquelas criaturas que constituem o valhacouto?
O escritor parece não ver nenhum problema na sociedade que gerou o “valhacouto”. Sua escrita propõe explícita exclusão dos referidos seres, talvez seu extermínio mesmo (saudades dos fornos crematórios?). Ele supõe que a mesma sociedade, excluído o valhacouto, é “time que está ganhando”.
O mundo dos intelectuais conformistas piora a olhos vistos!

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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