O literato mais vagabundo que o Ceará possuiu

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Leonardo Mota (1891-1948) foi escritor, professor, advogado, promotor de justiça, secretário de governo, tabelião e jornalista; na foto, ele observa Jacó Passarinho e Cego Aderaldo; livro Violeiros do Norte ganhou prêmio de melhor ensaio de 1926 pela Academia Brasileira de Letras

Você mora em uma capital nordestina, em uma das cidades mais violentas do mundo, com sugestões de desenvolvimento pra todo lado.

Nos últimos anos, viu o surgimento de novas vias expressas, viadutos, edifícios cada vez mais altos, concessionárias de automóveis importados, bistrôs e empórios de nome afrancesado, butiques de marcas mundiais, arenas esportivas compatíveis com o que se vê em Amsterdã, Munique ou Zurique.

Você tem 35, 40 anos, deixemos a coisa assim, idade limbo de quem foi criado ‘à moda antiga’ e, ao mesmo tempo, está exposto à modernices, como smartphones, whey protein, Instagram, Netflix, XVideos, escova progressiva e o esgotamento dos jornais impressos.

Percebe mudanças comportamentais em pleno vigor, com uma oferta de conhecimento, prazeres (reais e fictícios) e informação inimagináveis até para um cortesão de Luís XIV, o Rei Sol.

“As pessoas estão mais exibidas”, diz um amigo professor de geografia, ainda preso a um moralismo transviado pela juventude criativa do momento.

Ele despeja uma série de críticas à indústria musical, “Só lixo”, como que apagasse da memória os anos 1980 e 1990 de MC Hammer, Jane Duboc, Locomia, Vanilla Ice, Polegar e Trio Los Angeles.

Até entendo (e concordo) a comparação entre o forró comercial de hoje e o da ‘época de ouro’ da Somzoom Sat, Mastruz com Leite x Wesley Safadão, mas penso que nunca foi tão fácil fugir do besteirol ou se enviesar pelo desconhecido.

Para além da música, pois um leitor de décadas passadas sofria um bocado com a falta de bibliografia de certos temas, com escassas livrarias, etc.

Isso nos permite investigar temas desprezados por muito jovem ‘massificado’, porém de profunda importância para uma região e um Estado inserido nos primeiros e fundamentais capítulos da história brasileira.

Tem o rock feito aqui estourado no país; tem o audiovisual, quem diria!, bem representado por diversos coletivos; grupos teatrais pra todos os gostos; só que meu interesse pela cultura popular, por entendê-la como fonte de pesquisa social, suplanta o imediatismo da empolgação com o cenário artístico potiguar atual.

É disso que trata esta nota: dos estudos realizados por Leonardo Mota sobre a cantoria, ou repente, na virada do século XX.

Focado em três livros do advogado cearense, amigo íntimo de Rachel de Queiroz, que impressionou Câmara Cascudo e Tristão de Athayde: Cantadores, Violeiros do Norte e Sertão Alegre.

Se você botou fé no que eu disse, siga em frente.

Se não, suspenda a leitura e vá até nossa home, que o Substantivo Plural tem muita coisa boa para ler.

leonardo mota e LUIZ DANTAS QUEZADO
Leota e cantador Luiz Dantas Quezado, dono de memória prodigiosa, tinham relação de respeito mútuo

Embaixador do sertão

Ler sobre cantadores é se deparar com racismo e machismo em banda de lata, o que pode ajudar na compreensão de uma parcela dos dois males ainda poderosos.

Duelo com um negro entre os pelejadores era certeza de fustigada na cor da pele e na condição de escravo direto ou de algum ancestral.

O mais famoso deles foi entre Francisco Romano Caluête e o cativo Inácio da Catingueira – Francisco também era conhecido como Romano do Teixeira e Romano de Mãe D’água, nome de uma cidade paraibana e de um de seus povoados.

A lenda em torno desse desafio, ocorrido na feira livre de Patos em 1870, corre solta – versões falam em três ou oito dias de confronto, e até que durou apenas algumas horas.

Romano era o cantador mais famoso do sertão paraibano e teria relutado em duelar com um escravo analfabeto, tocador de um instrumento considerado menos nobre, o pandeiro.

Sobre o vencedor também salta a polêmica, com a variante mais aceita ser a da vitória de Romano, homem branco dono de terras e entendedor de botânica e astrologia, sobre o analfabeto miserável – numa peleja de cantoria, perde quem engasgar em um tema ou na rima.

Outra versão: Erro de Romano.

Pelos códigos sociais da época, um escravo era proibido de sentar durante a peleja com um homem livre, de modo que Inácio ficou o tempo todo em pé, com o pandeiro próximo ao rosto do Romano, que teria se irritado e perdido a concentração nos versos.

Segundo Leonardo Mota, Inácio teria ascendido na sociedade brasileira, como José do Patrocínio e Cruz e Sousa, não fosse escravo e vivesse em região mais próspera.

Inácio valia três vezes mais que outros escravos, tanto que foi enterrado com ‘pompa’ no cemitério de Teixeira, enrolado numa rede.

Romano abriu assim o duelo:

Inaço, que andas fazendo

Aqui nesta freguesia,

Cadê o teu passaporte,

A tua carta de guia,

Onde tá o teu sinhô,

Cadê a tua famia?”.

Cantadores.violaCatingueira é nome de povoado na ribeira do rio Piancó, também na cidade de Teixeira.

O escravo virou mito no interior da Paraíba, ao morrer moço, aos 30 e poucos anos de idade, entre 1881 e 1882, de uma forte pneumonia contraída em trabalhos de roçado.

Inácio respondeu Romano sem negar sua condição de escravo, mas com cautela. Disse que seu senhor sabia por onde andava, que o liberava para a cantoria.

Romano duvidou.

Inaço, deixa-te disto,

Não te posso acreditá,

Pois eu também tenho nêgo

E só mando trabaiá

Cumo é que teu sinhô

Vai te mandar vadiá?”.

Trecho longo do mítico desafio consta em Cantadores (1921), obra responsável por transformar Leonardo Mota em renomado folclorista nacional.

O livro foi um marco por botar cantadores no centro da cultura e gritar para todos saberem da existência dessa tradição trazida por colonizadores e reorganizada nos trópicos – depois o próprio Cascudo viria com seu clássico Vaqueiros e Cantadores. 

Ele e Cascudo, por sinal, foram colegas de turma na faculdade de direito, em Recife.

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Da junção de fragmentos biográficos, de letras de canções trazidas no tempo de Cabral, de peculiaridades da vida no sertão, Leonardo Mota nos deixou alguns livros importantes para a compreensão de um fenômeno fundador do nordestino, hoje mergulhado em uma ‘globalização’ estético-cultural, porque não dizer, opressora com sua realidade.

Leota, como era chamado pelos íntimos, partiu do homem para a cultura, reuniu material que unia brasileiros e portugueses através da memória popular, com um enorme detalhe: sempre, sempre in loco, pois refutava o intelectual de gabinete com sua fama de andarilho, de aristocrata que torrou um cartório para se debandar sertão adentro.

Daí a auto-denominação irônica que intitula este escrito.

A fama de destemido e grande pesquisador foi bater no Sudeste, tanto que Violeiros do Norte ganhou o prêmio da Academia Brasileira de Letras como melhor ensaio de 1926.

Para mim, é seu livro mais valioso.

Sujeito vigoroso, bem humorado, piadista e exímio orador, a ponto de viver seus últimos anos de vida como palestrante, Leonardo foi o interprete da prosódia cabocla, cheia de elipses e neologismos.

Brincava que era um gordo oriundo da terra da fome e contestava o papo de que o sertanejo tinha ‘alma de lama e aço’, dito pelo conterrâneo Gustavo Barroso, autor de Ao som da viola e Terra do Sol.

Rebatia Monteiro Lobato também, com a caricatura feita pelo paulista do matuto como indivíduo lerdo e  sem fibra.

Leonardo afirmava em alto e bom som durante palestras pelo Sudeste que foi o caboclo cearense quem desbravou o país em direção à Amazônia e fundou o Acre.

O frango e o calango

Virou minha carta régia o escrito de Mário de Andrade para Luís da Câmara Cascudo, em junho de 1937, na qual o potiguar leva uma ‘reprimenda’ por desprezar o que existia aqui no Nordeste, bem diante de seus olhos.

Bastava sair da rede e adentrar os sertões, conversar com as gentes comuns e parar de gastar intelecto com personagens do além-mar.

É na terra de chão quente e seco que a valentia e a brutalidade surgem no desafio da cantoria, sem pólvora, sem espoleta.

Se a cultura é adaptação ambiental, Leonardo Mota como um mestre em explorar territórios e boas histórias teve o cuidado de não expor apenas o incomum, o engraçado, o estranho regional.

Ele sabia que verso de amor era secundário para cantadores de sua época; que animais fracos, como o calango e o frango, eram usados em analogias para esculhambar adversários; que temas sexistas saiam de emboladores, diferente dos cantadores (estes mais líricos e trovadorescos, aqueles, mais percussivos e tolerantes quanto as regras de rima); e que cantar na praia ou em bares soava como pedir esmolas.

CantadoresNo livro Cantadores, Leonardo Mota revela pequenas biografias de repentistas históricos pras bandas do Ceará, como o Cego Sinfrônio; Jacó Passarinho (ufano de ser branco, dispensava duelos com negros e mestiços); Azulão, sujeito agressivo nas provocações, afamado na trocação de bofete em meio ao cantar; e Luís Dantas Quesado, famoso vate sertanejo, nascido em São João do Rio do Peixe (PB), radicado na terra de José de Alencar.

Cantadores que se vangloriavam de duelar em cidades com duas igrejas, como símbolo de imponência urbana.

Leota lembra que Lampião só viu uma cidade com mais de uma igreja: Mossoró, onde do Alto da Conceição teria dito:

“Terra com mais de uma torre não é pra cangaceiro atacar”.

Da junção de fragmentos biográficos, de letras de canções trazidas no tempo de Cabral, de peculiaridades da vida no sertão, Leonardo Mota nos deixou alguns livros importantes para a compreensão de um fenômeno fundador do nordestino, hoje mergulhado em uma ‘globalização’ estético-cultural, porque não dizer, opressora com sua realidade.

Vai muito além de curiosidade intelectual, essa procura pelo passado, pela raiz cultural da região onde o Brasil começou a ser construído.

Ou sem entendermos as tradições populares que nos cercam não viramos meros copiadores baratos, sem originalidade, do labor artístico dos outros?

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Conrado Carlos 24 de julho de 2016 14:02

    Valeu, Hermes!

  2. Hermes Halley 23 de julho de 2016 21:09

    Muito bom! Texto leve, Informativo, crítico e direto.
    Vou pesquisar mais sobre o Leonardo Mota e o Ramos Cotoco! É preciso navegar nas suas raízes…
    Abraços!

  3. Conrado Carlos 15 de julho de 2016 9:51

    Oi, Cellina, que bom que gostou. Assim que ‘descobri’ Leonardo Mota não parei mais de ler. Vou começar a pesquisar sobre o Ramos Cotoco para, quem sabe, fazermos algo parecido. Abraço!

  4. C ellina Muniz 15 de julho de 2016 0:12

    Como cearense de criação e coração, tenho que dizer que amei este texto! Mas, por outro lado, ao ler o título, me ocorreu pensar que você falaria de uma figura que talvez faça mais jus à condição de literato cearense vagabundo por excelência: Ramos Cotoco, cujo centenário de morte se completa agora em 2016. Autor de “Cantares Bohêmios”, só pra se ter ideia, o cara serviu de inspiração para Falcão: na Fortaleza Belle Époque desfilava como um excêntrico dândi, com seu braço atrofiado, satirizando nas suas modinhas a pretensão de civilidade reinante. Quem sabe um outro tema para um próximo texto, Conrado?

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