Literatura Brasileira Hoje: uma ideia

Por João Cezar De Castro Rocha
REVISTA PESSOA

Literatura Brasileira Hoje: é muito simples o ponto de partida deste projeto, iniciado no último dia 9 de abril com a presença do escritor Ricardo Lísias {foto}. Trata-se de iniciativa apoiada pelo programa de pós-graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

É muito simples, dizia, o propósito de Literatura Brasileira Hoje: questionar a transformação do escritor em autêntica persona pública, exposta na miríade de festivais literários que, felizmente, se organizam em todo o país.

Felizmente: deixemos de lado elitismos caricatos e nostalgias infundadas. A proliferação de encontros talvez ofereça uma oportunidade para superar a endogamia autofágica definidora da vida cultural brasileira. Aliás, sua marca mais saliente é a presença hegemônica de herdeiros em todas as áreas. Nesse horizonte, a abertura propiciada pelo cenário contemporâneo deve ser celebrada.

Contudo, um paradoxo ameaça tornar-se o retrato em preto e branco de certos impasses estruturais: segundo índices recentemente divulgados, não existe correspondência entre o crescimento exponencial de festas literárias e o incremento do hábito de leitura. Para tudo dizê-lo com exatidão: desde a realização da primeira FLIP, em 2003, convivem duas tendências adversárias, e, no limite, excludentes: solicita-se cada vez mais a presença física do escritor, porém, a tiragem de seus livros segue como se ainda estivéssemos em 2002… Vale dizer, o escritor é visto, incontáveis selfies são tiradas e devidamente compartilhadas, porém, seu texto não é lido, seu projeto literário sequer imaginado.

O que fazer?

Em primeiro lugar, expor a armadilha que domina a lógica do sistema literário brasileiro: tornado celebridade, ainda que em escala muito reduzida, o escritor será consumido como imagem de segunda grandeza. Aqui a porca torce o rabo: se o escritor pode ser tratado como celebridade, ora, as celebridades do mundo artístico também podem produzir textos!

Não somente: e se, depois de rascunhar um punhado de páginas, a celebridade decide publicar um livro? Pois bem: como se trata de uma celebridade, por assim dizer, célebre de verdade (a tautologia é a engrenagem desse sistema bem azeitado), publicará com a chancela de uma editora de prestígio e, preciso acrescentá-lo?, com um aparato promocional correspondente ao valor de seu nome no mercado. Daí, a profecia se cumpre: agora, duas vezes célebre, a celebridade é vista e muito lida – ao menos, as vendas de seu livro são impactantes. Dessa anomalia, os mais apressados extraem conclusões pueris: tudo se resolve na prática de uma escrita simples, que, segundo juram, demanda uma complexidade inimaginável.

A perversão não tem limites: “Viram”, seguem triunfantes os partidários dessa hermenêutica desinibida, “os escritores contemporâneos não são lidos porque … escrevem literatura”.

O pior de tudo: o mercado editorial parece ter caído nessa esparrela, assim como alguns cadernos culturais. Deixemos a diplomacia de lado: a maior parte dos textos publicados nessa linha de montagem da “simplicidade complexa” não passa de uma mescla constrangedora de técnicas ficcionais oitocentistas e um lirismo de funcionário público.

(Funcionário público municipal, ressalve-se.)

Tal circunstância estimulou o aparecimento de um fenômeno novo: a emergência de uma geração de produtores de texto, que publicam mais do que escrevem. E isso porque, no fundo, não escrevem, porém produzem textos. Muitos. Inúmeros. Todo o tempo. Tanto que se percebe, na consulta atenta de seus livros, que o típico produtor de texto lê muito pouco; afinal, ele precisa produzir novos textos. É a lógica do universo midiático contrabandeada para a literatura.

O produtor de texto, por isso mesmo, dá as mãos ao provedor de conteúdo, curiosa figura, oriunda da pluralidade de plataformas engendrada pelos novos meios de comunicação e alimentada pelos cruzamento das redes sociais. O provedor de conteúdo possui uma meta exclusiva: ocupar espaço na mídia. Ele é um bem-comportado funcionário do contemporâneo, cuja palavra vale exatamente porque não pesa. Dublê profissional, transita entre áreas e disciplinas como quem troca de figurino. Jornalista um dia; romancista acidental em outro; por fim, analista de comportamento. Pouco importa, pois, para esse jesuíta pós-moderno, os fins justificam os meios: precisamente estar na mídia.

As pontas se atam: metamorfoseada em produtor de texto, a celebridade é o provedor de um conteúdo já conhecido: sua própria celebridade – outra vez, a repetição se impõe.

Competição desleal, nesse meio de campo compacto, o escritor nem mesmo consegue tocar na bola.

Reitero: o que fazer?

Ao certo, ninguém sabe, mas arrisco uma proposta: apostar numa leitura intensa do aqui e agora. A melhor forma de encarar os desafios atuais consiste em ler com olhos livres o que temos diante deles. Essa é a premissa que favorece Literatura Brasileira Hoje, projeto que deseja aproximar ficção contemporânea e reflexão acadêmica.

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