Literatura Contemporânea e Felipe Pena

Li o post do kriterion do Jairo Lima com um trecho do artigo que o Felipe Pena publicou na Rascunho. Já li um livro de Pena e me surpreendi com a opinião forte exposta no texto.

Então, fui até o blog dele para ver se encontro o texto na íntegra. Não encontrei, mas achei outro trecho que complementa bem a idéia dele. Segue-a

“Há um movimento contrário ao “status quo literário” no interior da própria crítica. O recente livro do ensaísta búlgaro Tzvetan Todorov, um dos herdeiros mais ilustres do formalismo, é um claro exemplo. Em A literatura em perigo (Difel, 2009), Todorov afirma que o principal risco que ronda a literatura é o de não participar mais da vida cultural do indivíduo, do cidadão. E isso acontece, segundo o autor, porque os escritores não se preocupam com a afetividade e o prazer do leitor, limitando-se apenas a aspirar ao elogio da crítica.
Em um mea culpa corajoso, Todorov conclui: “A história da literatura mostra bem: passa-se facilmente do formalismo ao niilismo ou vice-versa. (…) Numerosas obras contemporâneas ilustram essa concepção formalista de literatura; elas cultivam a construção engenhosa, os processos mecânicos de engendramento do texto, as simetrias, os ecos, os pequenos sinais cúmplices. (…) Para essa crítica, o universo representado no livro é auto-suficiente, sem relação com o mundo exterior.”
Outro crítico de renome, o professor Émile Faguet, titular da cadeira de Literatura Francesa na Sorbonne, também vai pelo mesmo caminho no ensaio A arte de ler (Casa da palavra, 2009), quando dá a um capítulo o título de escritores obscuros: “Esses autores desfrutam sempre de enorme reputação. Têm um bando e um sub-bando de admiradores. O bando é composto por aqueles que fingem entendê-los, o sub-bando por aqueles que não ousam dizer que não os compreenderam e que, sem os lerem, declaram que são primorosos”
Mas também há exemplos mais antigos. O irlandês C.S. Lewis, que morreu em 1963, dizia que a grande leitura não exige perícia ou força; exige, ao contrário, desarme e paixão. Lewis era um defensor do leitor leigo, “comum”, ou seja, “aquele que lê sem nada esperar, que lê simplesmente porque o livro o agarra e ele não consegue mais largá-lo”
É em busca desse leitor que vai a literatura de entretenimento. E não custa repetir: entretenimento não é passatempo, é sedução pela palavra. É um conceito ao qual se deve atribuir valor artístico e estético. É um termo que não pode ser rotulado ou tratado com preconceito. É um gênero cuja boa tecelagem está entre as mais difíceis e trabalhosas.
Tudo é linguagem, mas a narrativa é a base da literatura. Uma história bem contada é a meta que perseguimos.” Disponível aqui

Acho interessante as colocações dele. Principalmente no estigma do “entretenimento” – encarado por muitos como o inferno da intelectualidade. Pena é um entusiasta da sedução pela palavra, do jornalismo literário, da capacidade que um bom texto tem de nos deixar absorto, de fazermos perder o senso de noção tanto por causa da qualidade e das idéias expostas, quanto pela história escrita.

Há sim uma literatura intelectualmente hermética, que não se preocupa em boas histórias, mas em uma espécie de masturbação intelectual. Concordo com ele. Discordo quando há a generalização. Há uma autores contemporâneos que buscam na simplicidade e  boas histórias, de cabeça posso citar o Milton Hatoum, o Marçal de Aquino, o Bernardo Carvalho e até o controverso Chico Buarque (considero, e não estou sozinho nisso, um dos melhores autores da nossa época).

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Jairo Lima 8 de Maio de 2010 10:20

    Caro Fábio, masturbação também é cultura e entretenimento. Agora, tem gente que não gosta da versal intelectual do vício solitário, não porque é masturbação (prazer) mas porque, sendo intelectual, gera esforço para ser digerida. É ou não é? É não? Então, tá. Abraço no Felipão Que Pena.

  2. Marcos Silva
    Marcos Silva 8 de Maio de 2010 14:32

    Amigos e amigas:

    Fico um pouco embaraçado quando leio a expressão “masturbação intelectual” como sinônimo de coisa ruim. Um coito é melhor que uma masturbação mas a última não é nada desprezível, pelo contrário, tem horas em que é muito bem-vinda, evidencia auto-estima e direito ao prazer. Masturbações e coitos intelectuais são formas legítimas de se sentir e de sentir o mundo. Hierarquizar uma e outra (metaforicamente, no caso do mundo intelectual), excluindo a inferior, é duvidoso e talvez presunção ortodoxa.
    Abraços a todos e todas

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