A literatura da realidade

Por Paulo Roberto Pires
BLOG DO IMS

Com o Nobel de Literatura para Svetlana Alexievich, a Academia Sueca contempla, pela primeira vez, o jornalismo. No mimimi protocolar que se sucede ao anúncio do prêmio, a escolha de 2015 bate no nervo dos defensores da literatura como uma das “belas artes”, daqueles que sempre desprezam as escolhas como “políticas”, principalmente quando os autores não são europeus ocidentais ou americanos. Desta vez o critério é político, sim, e num sentido que vai além de atrair as atenções para a conturbada Bielo-Rússia natal da escritora, pois diz respeito também, ou sobretudo, à saudável contaminação da fabulação pela reportagem, sua eterna prima pobre, em tempos de depreciação do jornalismo. Alexievich não é colaboradora eventual da imprensa, é jornalista em tempo integral e exerce a profissão como seus melhores expoentes, unindo a prática a uma reflexão sobre sua forma.

Não li Svetlana Alexievich, traduzida em 19 países e, ao que saiba, com um único livro em português, O fim do homem soviético – Um tempo de desencanto, lançado em junho deste ano, em Portugal, pela Porto Editora. Mas a julgar por suas próprias palavras, fartas em seu ótimo site, estamos diante de uma escritora bem pouco ortodoxa: “hoje, quando o homem e o mundo tornam-se tão multifacetados e diversificados, o papel do documento na arte torna-se cada vez mais interessante, na mesma medida em que a arte como tal muitas vezes se mostra impotente. (…) Depois de vinte anos trabalhando com material documentário e tendo escrito cinco livros baseados nele, declaro que a arte falhou em entender muitas coisas sobre as pessoas.”

A matéria-prima de seus principais livros são depoimentos de pessoas que viveram, de formas diferentes, diferentes aspectos do fim do império soviético. No primeiro, O rosto pouco feminino da guerra (aproximado a partir da versão em inglês), ela ouviu algumas das mais de um milhão de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. O conflito, desta vez visto pelas crianças, é o tema do segundo, As últimas testemunhas: o livro de histórias bem pouco infantis. Zinky boys: vozes soviéticas da guerra do Afeganistão continua o grande painel histórico composto ainda por Vozes de Chernobyl e por O fim do homem soviético, este centrado em depoimentos de pessoas comuns, afetadas cotidianamente pelas grandes mudanças históricas da região.

Para cada livro, ela diz trabalhar entre três e quatro anos. Cada um deles envolve ainda entrevistas de pelo menos 500 pessoas de gerações e procedências diferentes. É a partir dessa imersão nas vozes de quem vive a História no detalhe que busca um gênero, necessariamente híbrido, que já definiu como “romance coletivo”, “romance-oratório” ou “coro épico”, sempre inspirada por Ales Adamovich, autor bielo-russo que, segundo ela, explorou de forma pioneira esta polifonia resultante de uma atenta escuta de “pessoas reais”. “Busco um método literário que permite chegar o mais perto possível da vida real. Realidade sempre me atraiu como um imã, ela me tortura e hipnotiza, quero capturá-la no papel”, escreve ela.

Ainda que desmesurada, de tonalidade épica, a ambição de Svetlana Alexievich não destoa, em essência,  da utopia de seus colegas do chamado new journalism, que buscavam através de procedimentos literários enriquecer em humanidade e reflexão o mero registro objetivo. Também não é diferente do que se vê hoje no chamado jornalismo narrativo, que nos EUA e na América Latina busca alternativas à sensaboria do registro rápido e rasteiro dos fatos, do divórcio entre opinião e realidade, do caráter relatorial de boa parte do que se lê em jornais e revistas.

Em entrevista à Associated Press durante a temporada de especulações sobre o prêmio, Maria Schottenius, crítica literária do jornal sueco Dagens Nyheter, lembrou que o flerte da Academia com um jornalismo que se poderia chamar “ literário” não vem de hoje. Segundo ela, o polêmico Ryszard Kapuscinski, autor de livros como “Ébano” e “O imperador” e acusado de inventar histórias, chegou a ser seriamente cogitado para 2007, justamente o ano em que morreu. Outro nome já lembrado pelo Nobel seria, ainda segundo ela, do holandês Ian Buruma.

As repercussões políticas do Nobel de Literatura de 2015 talvez não estejam na geopolítica. Mas na afirmação de que o jornalismo, quando feito de forma séria, empenhada e, por que não?, obsessiva, continua a ser um instrumento fundamental de leitura crítica do mundo. Por mais que parte significativa da imprensa insista em mostrar o contrário.

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