Literatura de interrogação

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Uma declaração _ que aparece em destaque na contracapa do livro _ me chama a atenção, em particular, em “O livro das palavras”, volume de entrevistas com os vencedores do Prêmio Portugal Telecom de Literatura que organizei com minha amiga Selma Caetano (editora Leya) e que acaba de chegar às livrarias. O autor é outro querido amigo, o premiado Rubens Figueiredo. Sem contorções, com seu estilo direto, ele nos diz: “A maior parte da literatura tem a função de adaptar e integrar as pessoas aos mecanismos pelos quais a sociedade se reproduz tal como é. Tentar questionar esses mecanismos me parece um requisito para que um livro tenha relevância”.

Rubens tem toda razão no que diz. Prolifera no mercado uma literatura “adaptativa”, sem inquietação, marcada apenas pelos desejos de “escrever bem” e de “vender bem”. Literatura que vem sendo praticada, inclusive, por autores jovens e cheios de futuro, que deveriam estar inquietos e usar a escrita para expressar sua perplexidade diante do mundo. Não perder essa perplexidade, não perder essa capacidade de se interrogar é, me parece (seguindo Rubens), um requisito fundamental para os grandes livros.

A literatura se faz na base de interrogações, e não de respostas. Ela se faz a partir de deslocamentos de visada, e não de fotografias serenas. Os grandes escritores estão sempre a buscar novos caminhos, novas ideias, novas direções e desprezam com grande ênfase os destinos já conhecidos. Não é apenas Rubens que pensa assim. No mesmo “O livro das palavras”, João Gilberto Noll nos traz mais um luz a respeito, quando diz: “A literatura reumaniza o leitor, ela lhe aponta a sua própria complexidade _ que ele é mau, bom, rude, angelical. É assim, extraindo do humano essa radicalidade, que ela reencanta aquele que lê”.

Mostra-nos Noll o ímpeto da grande literatura para descerrar novos cenários e abrir novas feridas sobre o humano. O ímpeto como um elemento fundamental da escrita. Não por vingança, ou algum tipo de perversidade, mas porque só assim ela é capaz de interrogar e de expandir o campo do humano. Só assim ela é capaz de humanizar seu leitor. Se bem que a perversidade _ e aqui volto à contracapa do livro _ também está necessariamente incluída. Quem nos alerta a respeito é Gonçalo M. Tavares: “Escrever é quase um ato perverso, no seu sentido mais literal. Verso é a parte escondida, o lado detrás, o que não é evidente, o que não se vê à primeira.

Perversidade é percorrer o lado escondido, o lado menos claro, mais sombrio. É fazer um itinerário em redor de nossos medos”.

A declaração de Gonçalo teria sido uma epígrafe perfeita para meu “Inventário das sombras”, antigo livro que lancei em 1999 pela Record, reunião de retratos de escritores _ Nelson Rodrigues, José Saramago, Adolfo Bioy Casares, Dalton Trevisan e muitos outros _ nos quais tentei exercitar esse rodeio interior proposto pelo escritor português. Não sei se consegui, francamente. Mas algo ali já me empurrava para não acreditar apenas no que está evidente, para não me contentar com o literal. Literal e literário são adjetivos que não guardam nenhuma relação entre si, a não ser, provavelmente, a de oposição.

A litreratura _ voltando à ideia inicial de Rubens Figueiredo _ tem como marca e função o questionamento das coisas tais quais elas são. Infelizmente, o mercado está cheio, hoje, de livros conformistas, de narrativas que se limitam a repetir o já feito e o já dito, evitando qualquer espécie de risco. E o risco está na base da criação. Sem risco não há criação.

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