Literatura e clínica

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Recordo a ideia de Gilles Deleuze, segundo a qual o escritor, mais do que um doente, é um médico. A literatura não é só um trabalho de linguagem, mas é também um instrumento de trato e de “cura”, pensava Deleuze. A literatura é _ ou dever ser _ uma clínica. Essas ideias, tão férteis, e que me parecem tão verdadeiras, me voltam enquanto, preparando-me para uma palestra, releio, ao acaso, alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade.

Surgem-me, mais exatamente, no momento em que releio “A mão suja”, poema incluído em “José”, distante livro publicado no ano de 1942, que talvez me atraia porque duplica meu próprio nome. Ali, em “José” (em mim mesmo? mas quanta vaidade!) está quase tudo. A ideia de que o poeta, ao contrário do que pensam os letrados de gabinete, é um homem que tem as mãos sujas. O mundo o incomoda _ e, justamente por isso, sobre ele se debruça, nele mete as mãos. Justamente por isso, o poeta o revolve e cava. “Minha mão está suja./ Preciso cortá-la. / Não adianta lavar./ A água está podre.” – escreve Drummond.

Escreve e, assim, anuncia toda uma ética que guiará sua poesia até os últimos versos. Posição que vem desde muito longe, vem desde o nascimento. Escreve: “A mão está suja,/ suja há muitos anos”. A sujeira se mistura à poesia. A sujeira é a poesia? Invertendo as coisas: a poesia é o enfrentamento daquilo que adoece e que dói. Um médico não se limita a observar (como uma tela) uma ferida à distância: deve aproximar-se e tocá-la. Deve pedir exames clínicos que o levem a vê-la por dentro. Em resumo, e como o poeta: deve penetrar na ferida, tomar posse dela, para só então pretender curá-la.

Não é simples. Não é fácil. Nem sempre é suportável. “Ai, quantas noites/ no fundo da casa/ lavei essa mão,/ poli-a, escovei-a”, prossegue Drummond. Polir, escovar, lustrar: instrumentos da técnica, que vêm, quase sempre, de encontro aos sentimentos. Para domá-los. Para domesticá-los. Sim: esse enfrentamento também é a poesia. Trabalho de depuração, exercícios de linguagem que, no entanto, só fazem ampliar o ferimento. Isso (fazer poesia) dói. O poeta tem a nostalgia da vida comum: dos tempos em que não precisava se debruçar sobre o outro. “Quisera torná-la,/ ou mesmo,por fim,/ uma simples mão branca,/ mão limpa de homem,/ que se pode pegar”.

Mas, quando você aperta as mãos ásperas de um poeta, toda a sujeira do mundo agarra. A técnica é um instrumento; a sujeira é o objeto. E o que é a sujeira, senão a própria vida que, inconstante, frágil, se expõe como uma ferida aberta? Colocada no centro da poesia, a sujeira é a própria poesia. Sem ela, sem o mundo e suas dores, poesia não há. “Inútil reter/ a ignóbil mão suja/ posta sobre a mesa”, diz Drummond. Inútil “cortá-la,/ fazê-la em pedaços/ e jogá-la ao mar”.

A sujeira do mundo _ o próprio mundo _ sempre retorna. O mais asséptico dos poetas traz os pés fincados na terra imunda. A mais alta torre de marfim se ergue sobre a pedra dura. Disso não nos livramos, tampouco os poetas se livram também. Mas não querem se livrar: querem escrever. Sonha Drummond: “Com o tempo, a esperança/ e seus maquinismos/ outra mão virá/ pura _ transparente _ / colar-se a meu braço”. Essa mão, contudo, se sujará também. Não como um castigo, mas como um destino. Não por um acaso, ou um deslize, mas apenas por estar viva.

Leio Drummond, penso em Deleuze e relembro o quanto de sujeira _ de vida _ falta, às vezes, à poesia. Temos, felizmente, grandes poetas que não esquivam desse destino. Paulo Henriques Brito, Alberto Martins, Lucinda Persona, Nuno Ramos, Ana Martins Marques. Temos Manoel de Barros, temos Adélia Prado. Todos com as mãos sujas, debruçados sobre as feridas do mundo, concentrados em tratá-las. Se haverá cura? Não, cura não haverá. Doer é próprio do humano. Os poetas se limitam a acolher e acariciar essa dor.

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