Literatura e presentismo

Ilustração: desenho do poeta Luís Carlos Guimarães

Amigos e amigas:

No tempo das vanguardas, havia um sentimento difuso de que o passado era um fardo descartável e que no presente estava tudo: técnica, mudança, futuro começando. As vanguardas viraram classicismos (qualquer academia de arte ensina Dadaísmo). E os outros classicismos, talvez sem querer, retomam um presentismo que foi daquelas vanguardas. Volta e meia, alguém desqualifica poetas do passado em nome da excelência do presente, como se o presente se inventasse a partir do nada.
Se isso ocorre em nome de gosto pessoal, é um procedimento tolerável. A coisa se complica quando assume ares de norma acadêmica: como o escritor fulano ou a escritora sicrana (do presente) são excelentes, seus antecessores, piores, são lixo mesmo, talvez nada – um convite à desmemória.
Lembro de alguns concretistas ridicularizando Antonio Cândido porque ele comentava os poemas de Casemiro de Abreu em sua “Formação da literatura brasileira” e não destacava autores infinitamente melhores da época. Acontece que Antonio Cândido não pretendia exatamente apresentar uma lista dos mais mais. Ele falava da formação de um sistema literário onde escritores pequenos, médios e grandes desempenharam diferentes papéis, inclusive na formação do hábito de leitura. Casemiro, leitura mortífera para quem nasceu ouvindo ou lendo João Cabral, foi muito lido, sim, contribuiu para criar hábitos de leitura – que podem ser até leituras contra ele.
No RN, quero deixar claro que tenho a máxima admiração por escritores dos anos 60 para cá que tive a oportunidade de ler desde a juventude – Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros, Zila Mamede, Diva Cunha, Paulo de Tarso e outros. A excelência desse grupo não nos autoriza a triturar os pioneiros do final do século XIX e até os anos 50, que inventaram um fazer literário numa terra sem bibliotecas nem livrarias, como nos informa muito adequadamente Câmara Cascudo em seu “Alma patrícia”.
Por outro lado, o deslumbramento com o presente (poucos autores ou mesmo UM autor) alimenta perigosa ilusão: a de que esse presente é homogêneo, nem que seja através do mágico poder de poucos autores ou UM só autor. Um presente sem tensões nem alternativas, ante-véspera do totalitarismo.
Prefiro pensar que o pensamento (inclusive o poético) se dá em coletividade, pacientemente, com acúmulos, perdas e tensões. Sem um herói civilizatório único.
Esquecer é péssimo. Podemos perder importantes potencialidades que autores pequenos, médios e grandes abrigaram e continuam a abrigar.
Abraços a todos e todas:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 + 18 =

ao topo