Literatura e samba em Cachoeira da Bahia

Por Ronaldo Correia de Brito
TERRA MAGAZINE

Vista da cidade de Cachoeira, que recebeu sua primeira Festa Literária

O Vapor de Cachoeira continua de caldeiras apagadas, não se escuta seu apito ao longe, nem se avista o alvoroço das pessoas quando ele chegava ao porto. Apagou-se a fumaça branca da chaminé da mesma maneira que morreu o fogo dos engenhos.

Igualzinho ao romance Fogo Morto, de José Lins do Rego. Nem dá para acreditar que o ouro revestindo a capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo veio da riqueza da cana, do açúcar e do orgulho em estampar Cachoeira no cenário brasileiro como cidade faustosa. E mais depois, como cidade revolucionária que declarou a independência da Bahia antes do dia 7 de setembro.

Cachoeira mesmo dessemelhante continua linda. O casario de pé, tombado, tombando, teima em manter o orgulho de seu antigo estado. Ficou longe o fausto da cana de açúcar, do tabaco, das fábricas de charutos, da Igreja Católica, dos Terreiros mas as ruas largas desembocando no rio, se abrem para outros engenhos.

De 11 a 16 de setembro aconteceu a Festa Literária Internacional de Cachoeira, na boa febre dos eventos literários que proliferam por todo Brasil, dando voz a escritores, intelectuais e poetas. Durante seis dias falou-se de livros, de contexto racial nas Américas, história e negritude, linguagens e geografias, conto, romance, poesia, escrachos, escárnios e samba, bastante samba, na sala de debates e no palco de rua.

A festa de Cachoeira não ficou limitada ao círculo de uns poucos iniciados. Como no Samba de Roda Suerdieck, tradicional samba do Recôncavo, o espaço para dançar e participar da festa foi aberto à cidade. Na plateia, estava presente o leitor comum, aquele que é tão caro ao escritor e que foi assunto de um livro da escritora inglesa Virgínia Wolff.

Temas polêmicos como o contexto racial nas Américas mobilizaram platéias e torcidas, criando polaridades entre os pensamentos de Nei Lopes e Liv Sovik de um lado e Rodrigo Constantino do outro, sobretudo quando trataram sobre as “cotas” na universidade brasileira.

Porém as mesas que se mantiveram dentro do universo da ficção, abordando técnicas de escrita e linguagem, não foram menos empolgantes, sobretudo quando se abriu espaço para os escritores lerem os seus textos e os poetas declamarem suas poesias.

A FLICA foi produzida por uma equipe jovem, que realizou a festa num estilo descontraído e eficiente. Tudo funcionou bem em Cachoeira. A conclusão é de que há público interessado em boa literatura. Só é necessário apostar numa didática em que o público é seduzido pelos livros e seus autores, e pelas questões que eles suscitam.

Escritores e poetas necessitam apenas de silêncio e ouvidos atentos para escutar a voz que se guarda nos livros.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 26 de outubro de 2011 13:29

    os comentários de horácio oliveira são escritos com águas sossegadas e dadivosas de beira rio.

  2. horácio oliveira 26 de outubro de 2011 11:38

    Ah! Cachoeira do Rio Paraguaçu! Todo ano vou a Cachoeira comer uma maniçoba na beira do rio e passear por suas ruas antigas. Há anos faço isso e, para mim, é sempre uma curtição cultural.

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