Literatura feita de vida e amor

Por Guiomar de Grammont

Com rara erudição, cortante crítica social e observações cáusticas, textos de Moacyr Scliar apontam sempre para as questões essenciais da tragédia humana

Moacyr Scliar era daquelas pessoas sem reposição. Nunca mais haverá ninguém como ele, tão solícito com os amigos, tão discreto e elegante diante de uma confidência, tão generoso ao dar um bom conselho. Ele era, como muitos vêm lembrando, nosso Príncipe das Letras, caracterizava-se pela nobreza e solicitude no trato com as pessoas. Ele e Judith, a esposa que, em geral, o acompanhava em suas viagens, conseguiam tornar qualquer conversa agradável, passar alguns momentos com eles era um privilégio.

Quando a conheci, julguei-a tão encantadora, que lhe perguntei se ela era “a segunda esposa do Moacyr”. Os dois riram muito, pois eram casados há mais de 40 anos, a “primeira esposa” era ela mesma. Tentei, atabalhoadamente, explicar que havia julgado o par tão harmônico, ambos tão próximos um do outro, que não podia ser que tivessem acertado tanto logo de primeira, sem nenhuma tentativa prévia. Judith replicou, sorrindo: “Tu és uma figura, Guiomar!”. A anedota entrou para o repertório dos Scliar e tive que confirmá-la algumas vezes, junto de outros amigos.

Fiquei muito surpresa quando, ao ser apresentada a Moacyr, ele contou que já me conhecia, pois havia lido meu livro sobre Don Juan, Fausto e o Judeu Errante em Kierkegaard. Passamos um par de horas falando sobre o judeu que vagava eternamente pelo mundo, sem repouso, lenda que o fascinava. Ele gostava de contar uma história em que sua mãe que, ele dizia: “Como toda mãe judia, só pensava em alimentar bem os filhos”, ao perceber que seu irmão não comia nada, o seguiu e descobriu que o pequeno rebelde recusava a comida dela, mas pedia alimento aos operários que faziam uma obra em frente à rua. “Foi aí que minha mãe, antes do Lula, fez o primeiro pacto com os operários da história do Brasil…”, dizia Moacyr, arrancando gargalhadas da plateia. E completava: … “ela passou, então, a encher a marmita dos operários para que o filho não deixasse de comer sua comida”. A plateia ia abaixo, de tanto rir, mesmo que já tivesse ouvido a história, tamanha era a graça com que ele a contava.

A cultura judaica, matéria de muitos de seus livros, para ele, era marcada por contradições, como revela seu interessante ensaio, O Enigma da Culpa, em que desfia muitas histórias de sua juventude. Como memória de infância, porém, sempre julguei que o livro que realmente retratava o imaginário esfuziante do menino que viria a se tornar um dos maiores escritores brasileiros, era A Guerra no Bom Fim, seu primeiro romance, um conjunto de histórias fantásticas, vividas na época da 2.ª Guerra, nessa espécie de país surreal que, não por acaso, tinha o nome do mesmo bairro de imigrantes judeus de Porto Alegre, em que Moacyr havia crescido. Ali moravam o menino Joel e sua turma, mas Bom Fim era também povoado por personagens extraordinários, como Kafka, Chagall e também super-heróis de revistas em quadrinhos da época, além de personagens não menos fantásticas, como uma sensual jumenta que arrebatava os corações dos homens.

O primeiro livro que li de Moacyr foi A Mulher Que Escreveu a Bíblia e passei a ler todos que ele publicava, desde então. Lembro-me que tinha chegado de viagem e devia ainda buscar condução para Ouro Preto, mas o livro era tão envolvente que não consegui tomar nenhuma providência para comprar passagem de ônibus, enquanto não o terminei. Nesse livro, que passei a presentear, emprestar e recomendar a todas as pessoas que eu conhecia, um professor de história faz experimentos não ortodoxos em seus alunos das virtudes da “terapia das vidas anteriores” e, por essa estranha via, surge a voz da narradora, uma concubina de Salomão invocada nos experimentos espiritualistas. O livro é a narrativa das peripécias tragicômicas dessa mulher de natureza apaixonada, porém, de feiura sem remédio, para fazer com que o rei a escolha, dentre as 700 esposas de seu harém. Finalmente, Salomão acaba atraído pela inteligência de sua consorte, a qual teria sido a verdadeira fonte de todas as sábias decisões atribuídas ao rei pela tradição. O soberano lhe confia a tarefa de escrever uma narrativa histórica que culmine com a descrição de sua glória e poder. Não por acaso, o livro virou peça de teatro, tão delicioso e engraçado o discurso da personagem.

Talvez para justificar as divertidas interpolações de expressões contemporâneas nas histórias bíblicas, Scliar utilizava com frequência o recurso, comum na literatura romântica, de inserir uma história dentro de outra. Frequentemente, personagens do presente, como médiuns ou professores, eram os narradores do enredo, contado, em geral, em primeira pessoa, sem mediações. Dessa forma, ele reinterpretava as passagens da Bíblia, fazendo a crítica do presente através de curiosos anacronismos, como no recente Manual da Paixão Solitária, em que Judá sonha em abrir uma franquia – que fará muito sucesso e se espalhará em tendas pelo deserto – para explorar o extraordinário dom de interpretação de sonhos de seu irmão José. As figuras lendárias do livro sagrado acabavam personificando vícios e virtudes dos seres humanos. Apesar da cortante crítica social, Moacyr tinha tanta simpatia por seus personagens, que não era difícil nos identificarmos com suas mazelas e fraquezas, com seus atos impensados e desejos recônditos. Em uma das vezes em que mediei mesas com ele, perguntei a meu amigo por que recorria à Bíblia para falar da vida atual. Sorrindo, ele respondeu que assim era mais seguro. Não corria risco de nenhum conhecido julgar que fora retratado em seus livros.

Em vários das suas obras, como é o caso desse maravilhoso best-seller, em que a protagonista escreve para superar suas desventuras e também do Shelá de Manual da Paixão Solitária, a escritura confere a seus personagens um lugar no mundo. O narrador escreve para dar vazão a desejos não realizados. Escrever é ato que realiza e redime, faz com que o homem supere as limitações impostas pela existência.

Certa vez, na Bienal de Minas, alguém enviou um twitter estranhando que apresentássemos Moacyr Scliar como um escritor irônico, pois a imagem que tinham dele era de um senhor sério e engravatado. Da mesma forma, achei graça quando alguns alunos que o haviam conhecido no Fórum das Letras me manifestaram quanto ficaram surpresos e encantados com seus livros. Acharam incrível que aquele senhor sábio e simpático, que lhes lembrava os mestres do filme Guerra nas Estrelas, fosse o autor de uma literatura com tanto erotismo e sarcasmo. Ficaram maravilhados com as observações cáusticas do autor sobre a vaidade, as pretensões e a concupiscência da humanidade.

Ele sempre tinha um bom conselho: em Ouro Preto, quando lhe disse que estava escrevendo um romance sobre a Guerrilha do Araguaia, me disse para continuar a ler tudo que pudesse encontrar sobre esse episódio da história brasileira. Porém, ao contrário do que eu fazia no trabalho acadêmico, ao escrever ficção, devia deixar de lado as fontes de pesquisa e “soltar o verbo, o mais livremente possível”. Essa delicadeza era parte dele, uma característica de seu espírito generoso, sempre disposto a ouvir e compreender as inquietações mais simples dos jovens escritores que o procuravam. Em Salvador, em um café da manhã, me advertiu que jamais, em hipótese alguma, devia confessar que havia esquecido o nome da pessoa para quem deveria dedicar um livro. Disse, com o gostoso sotaque do Sul: “Tu não te lembras daquela pessoa, mas ela está ali, satisfeita porque tu fizeste parte da vida dela e nunca te perdoará o esquecimento”. Ele e Judith me fizeram rir, contando casos sobre situações em que Moacyr precisou encontrar uma saída de emergência.

Ele costumava escrever mais de um livro por ano e já havia publicado mais de 70. Contei-lhe que seu conterrâneo, o escritor Amílcar Bettega, me disse que, em Porto Alegre, circulava a lenda de que Scliar tinha uma legião de anões que escrevia por ele. Dias depois, em Lyon, no Festival Belles Latinas, sem saber que esta seria a última vez que veria meu amigo querido, lhe perguntei: “Como é isso, como consegue ser tão profícuo?”. Ele me disse que escrever tinha se tornado como “respirar” e que eu devia “escrever sem parar, para exercitar”. A sábia Judith comentou: “Moacyr tem uma concentração impressionante. Ele escreve o tempo todo, até no avião”. E fazia-o, sempre, com rara erudição, apontando sempre para as questões essenciais da tragédia humana.

Escreveu ensaios sobre os mais diversos assuntos, sempre com uma percepção acurada do absurdo da existência. A medicina, além do interesse pela saúde pública, também fornecia matéria para as reflexões delirantes de seus personagens. Não é incomum, em sua ficção, que um órgão do corpo humano comece a narrar suas desventuras, ainda que através da imaginação da pessoa que o abriga. Esse recurso é hilariamente utilizado em seus últimos livros, como no interessante Eu Vos Abraço, Milhões, sobre a febre proselitista do marxismo no início do século. Em seus livros, espermatozoides, baço, próstata metaforizam ambições e angústias humanas. As referências escatológicas apontam sempre para a finitude do corpo, ínfimo e desprezível. A vontade do homem não é nada diante das imperiosas necessidades biológicas.

Moacyr Scliar ganhou notoriedade internacional ao ser vítima do plágio do tema insólito e genial criado por ele no livro Max e os Felinos, em que um jovem alemão embarca em direção ao Brasil para escapar ao nazismo. Porém, o navio transporta também animais a um zoológico e a turbulenta carga acaba fazendo-o naufragar. Max escapa em um barco, contudo, subitamente, para seu terror, um outro sobrevivente salta do navio para viajar com ele: é um jaguar. Além de revelar a extraordinária potência onírica de sua imaginação, a novela, que alcança profundidade metafísica, é uma alegoria da truculência da ditadura. O escritor canadense Yann Martel se apropriou do ponto de partida e construiu um romance semelhante, ainda que mais centrado na relação entre o homem e o divino. O assunto chegou aos noticiários internacionais porque o canadense acabou ganhando o prestigioso prêmio Booker com essa obra. Até aí tudo estaria bem, nada é original no mundo (exceto, talvez, a literatura de nosso autor), contudo, o problema é que Martel esforçou-se por esconder essa influência. Em seu prefácio, entre muitos agradecimentos, sem mencionar Moacyr Scliar, o canadense atribui o tema central de seu livro à vida, motor da inspiração. Em nenhum momento ele menciona Max e os Felinos e, quando foi questionado, ele disse que tinha sido inspirado por “uma crítica depreciativa sobre o romance de um escritor menor da América do Sul”, escrita por John Updike no New York Times. Esse jornal havia, de fato, publicado uma crítica do livro de Moacyr Scliar, porém, muito elogiosa e assinada por Herbert Mitgang. Tive a oportunidade de inquirir Moacyr Scliar sobre esse fato quando mediei mesa com ele na Maison d”Amérique Latine, de Paris e, sem deixar de manifestar seu desapreço pela atitude do colega, nosso autor soube colocar a questão em termos elevados, buscando tirar dela lições mais universais. Moacyr lembrou que o problema não era o fato de ter sido plagiado, mas a forma como a literatura latino-americana é tratada no mundo, o desequilíbrio de forças com que temos que lidar no mercado e na mídia internacionais.

A sensação que temos, todos os amigos, é de que Moacyr não morreu, está apenas em meio a mais uma viagem e vai responder, mesmo em trânsito, às nossas mensagens, descobrindo, de todas as formas, um pequeno espaço em sua agenda impossível para nossos convites, muitas vezes, apenas pelo prazer de nos encontrarmos. Ele sabia que o interesse pela literatura só se mantém no contato com os leitores. Folheio agora seus livros, e há tanta vida no estilo febril e despudorado, que o escritor me faz sorrir a cada linha. Ele escrevia com tanto prazer que essa sensação se comunica a quem o lê. Moacyr Scliar estará sempre vivo, em seus livros e na memória de todos que o conheceram.

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