Literatura: grande, único e inadiável personagem

O Caderno Idéias e Livros, do JB, publicou hoje texto do poeta e crítico Hildeberto Filho sobre  o livro “Vi uma foto de Anna Akhmátova”, de Fernando Monteiro, disponível para download em nossa ESTANTE (lateral direita do SP).

( *) Hildeberto Barbosa Filho

A narratividade e a reflexão conformam o lirismo singular de Fernando Monteiro, em Vi uma foto de Anna Akhmátova (Fundação Cultural do Recife, 2009). Pela primeira, o autor como que descortina, na voz do eu lírico, a experiência epifânica da descoberta; pela segunda, faz-se o percurso reflexivo em torno da poesia, da literatura, da arte, da existência, da política , do “terror” e da “beleza”. Se lá, à maneira de Proust, o poeta vivencia o apelo de impactante “madeleine”, transmutada na foto emblemática de Anna e mais ainda nas gotas de sangue de cada um de seus poemas, aqui, o que importa é formular uma consciência crítica e dilacerada acerca do sentido e da significação da palavra literária.

É evidente que, enquanto corpo lírico, o longo poema não elide a presença dos ingredientes essenciais ao gênero, a exemplo do ritmo e das imagens, das pausas e dos silêncios, sobretudo na visceralidade de alguns versos, delimitando, assim, sua espessura estética. Vejam-se algumas amostras colhidas ao acaso em sua safra gigantesca: “Lá onde se afoga / tudo que guardamos / num mar de abandono” (p. 7); “(…) Bessarábia / (essa palavra de areia e teia de tarântulas” (p. 11); “(…) Isso passou, mas ficou uma marca / na nuca da poesia, abaixo do cabelo / do vento crescendo para apagar os versos” (p. 15); “És o meu terror – e a Mãe de todo amor.” (p. 50), e “(…) o mundo parece um arrastar de tamancos pesados / aligeirados pelos rios das messes, de janeiro a janeiro. // O mundo podia ser feliz – enquanto amanhece” (p. 76).

No entanto, ao peso da lírica em si, fincada na energia de uma subjetividade angustiada e na estesia fluida e melódica da linguagem, agrega-se, através de uma poética dialógica, de uma poética da leitura, a força ética de uma expressão inventiva, na qual o gesto primal de ver, de ver e olhar, de olhar e meditar, desencadeia o fluxo da memória, o pathos da existência humana e a ontologia do ser poético (no texto, simbolizado na figura da poetisa russa). Narratividade, reflexão e lirismo me levam, pois, a pensar na possibilidade de um poema ensaístico ao modo de A terra desolada, de T. S. Eliot; de Um parque de diversões, de Lawrence Ferlinghetti; de Poema sujo, de Ferreira Gullar, e de Trigal com corvos, de W. J. Solha. Um poema que, sem abdicar de seus elementos seminais, principalmente metáfora e música, articula e edifica uma visão de mundo totalizante em que valor artístico e valor moral e filosófico convergem para sua materialidade verbal e para suas ressonâncias significativas. Um poema que o insere numa tradição irrealizável ou por se realizar: o poema prosa, o prosoema, como diria o mineiro Altino Caixeta de Castro. Um poema que, ao ser lido, convoca o leitor para a leitura do mundo.

Pernambucano, Fernando Monteiro se prescreve uma atitude diria isolada em meio ao movimento que Tadeu Rocha designou como Geração 65, movimento que tem, em César Leal, o epônimo decisivo, e, em Alberto da Cunha Melo, Ângelo Monteiro e Marcus Accioly, suas vozes principais. Passando ao largo do telurismo de João Cabral de Melo Neto e das inclinações míticas e armoriais de Ariano Suassuna, autores fundantes para aquela geração, o poeta traz à tona o drama de Anna Akhmátova, vítima do totalitarismo e do terror stalinista, na União Soviética, e, também, por empatia, afinidade e solidariedade, traz à tona o seu drama como poeta e escritor, o drama de todo poeta e escritor que vive o exílio na linguagem, cerceado pelos imperativos da sociedade de consumo e pela barbárie da globalização capitalista. Por isso, em Fernando Monteiro, estética e ética constituem faces de uma mesma moeda.

Escritor verdadeiramente literário, literário não no sentido de Gilberto Freyre, pois Fernando não é dado a coregrafias retóricas. Porém, literário no sentido de que a literatura é seu grande, único e inadiável personagem. Anna Akhmátova se inscreve, em seu longo texto, como metáfora de todos os poetas autênticos, aqueles outsiders que combatem a tirania e a intolerância com a beleza e a poesia. Há tristeza, há morte, há terror no seu poema, mas, todo ele configura uma arquitetura iluminada que desvenda, como uma revelação, o outro lado, o lado cruel, grotesco e ao mesmo tempo sublime da vida.

(*) HBF é poeta e crítico literário paraibano.

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