A literatura sem floreio e perfumaria de Carlos de Souza

O poeta, o cronista, o crítico literário, o jornalista engajado socialmente, o leitor refinado e profundo conhecedor de literatura, o ficcionista que manda bem no conto e no romance. Tudo isso pode ser encontrado em “Urbi”, livro de contos do escritor Carlos de Souza, lançado no final do ano passado. Mais uma edição caprichada do Sebo Vermelho, desta vez com projeto gráfico assinado por Alex de Souza.

Alguns dos contos, “A cidade escura”, “Malone vive” e “Maritacaca” foram premiados no Concurso Literário Bartolomeu Correia de Melo 2013, da Cooperativa Cultural da UFRN. Ou seja, textos que já passaram pelo crivo de uma comissão julgadora do ramo, o que significa uma espécie de “seguro” para o leitor, que poderá lê-los certo que não perderá seu precioso tempo, hoje quase todo dedicado às redes sociais, esse Cérbero que ameaça tomar o lugar da Rede Globo em nossas vidas.

“Urbi” apresenta oito contos. Sete curtos e um longo,“Maritacaca”. Algumas características perpassam quase todos. Como críticas contra a intolerância e a religião (“não importa se a religião é um conforto para os fracos e oprimidos. Ela vem sempre acompanhada de intolerância, violência, guerra, genocídios”); e contra a desigualdade social (“Espremidas em seus barracos, suportando a vida em suas palafitas. Nada mudara para aquela gente”).

Mas também cabem metaliteratura, poesia (“O amor é o delírio de deuses embriagados” ou “Nas águas mansas do manguezal, emas com longas pernas atoladas no musgo lamacento bicam mariscos renitentes, para que não evitem o cair da tarde transformada na bola de fogo do sol sobre a vegetação marinha…”), reflexão sobre o presente e o fazer literário e o sonho nesses contos de Carlão de Souza.

Nos três primeiros contos, “A cidade escura”, “A cidade clara” e “A casa” sente-se um clima onírico e meio fantástico, que lembra a escola latino-americana “realismo fantástico”. Os que gostei mais foram “A Eclésia”, “O amor” e “Malone vive” (inspirado em Malone Morre, de Samuel Beckett ), mas, claro, trata-se de uma escolha muito pessoal.

Acho também que uma menor ingerência do narrador, muito saliente, opinando em demasia, em quase todos os contos, seria um ganho. No geral, os contos estão no mesmo patamar literário e revelam um autor amadurecido e em pleno domínio da escritura.

No livro, o escritor, que é mestre em Ciências da Linguagem, pela UFRN, tem condições de ser mais sincero, por não tratar especificamente de autor ou livro, o que geraria melindres e mágoas, e deixa explícita sua visão sobre literatura (em seus artigos na Tribuna do Norte ele é sempre diplomático, complacente), como nesse trecho em que se refere à produção poética:

“Porque o poema não deve ser perfumado com palavras lindas, mas arrancado das tripas, da alma, do coração tingido de sangue, vômito e merda sem a busca inútil da beleza nos róseos dedos da madrugada, essa busca tola dos poetas açucarados que não vivem em sua carne as dilacerações da poesia, tratando-a como veículos de suas vaidades e da aprovação de seus pares…”.

Fica a advertência. Sobram carapuças.

“Porque nada tem fim, nada permanece, nada tem sentido mesmo assim” (frase final de “Maritacaca” e do livro).

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