Literatura, sim – Escritor: não

“A literatura é o direito da morte” (Blanchot)

O Rio Grande do Norte possui uma boa literatura que precisa ser lida e conhecida. Uma literatura essencialmente confessional que ainda espera seu grande escritor. Mesmo na poesia onde essa literatura alcançou melhores níveis de realização – ainda assim – é pobre na sua dicção e originalidade. Um escritor não é aquele que escreveu um livro. Um livro em pequena tiragem e pago com o próprio bolso. Aqui quase sempre o que prevalece são os egos e “eus” inflamados de pouca literatura e pouco estudo. O escritor do RN precisa trabalhar mais seu Édipos. A palavra escritor precisa ser usada com mais parcimônia. As palavras de um modo geral precisam ser mais acarinhadas por nós.

O escritor? Quando penso em um escritor penso – por exemplo – em Flaubert. Esse, sim, um grande escritor. Alguém que leu tudo e estudou tudo para escrever quatro livros. Um escritor que não escrevia “eu”. Na ficção – tão pobre entre nós – o autor deve se manter invisível. Foi essa invisibilidade que Flaubert perseguiu incansavelmente. Alguém que passava dias suando para escrever uma lauda. Para escrever aquela palavra justa (“le mot juste”).

Penso naqueles que editam um livro com meu amigo Abimael e no outro dia aparecem como escritor, com direito a páginas desde jornais e holofotes. Quanta ilusão! Lembrem-se: a escritura de um livro não fornece o direito da imortalidade. É preciso acreditar para escrever. É preciso estudar. Mirem-se no exemplo do escritor de Madame Bovary e Educação Sentimental.

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Comments

There are 7 comments for this article
  1. horácio oliveira 7 de Dezembro de 2010 10:41

    Mas por que o eu não pode entrar na ficção? Que história é essa? Por que o eu não se introduz na narrativa? Que ficção é essa que não tem marcas de subjetividade? E se o próprio Flauber falou que “Madame Bovary sou eu”? E desde quando a “escritura” define direitos a imortalidade? Que escritor é esse que escreve pensando na imortalidade? Borges dizia que ao escrever não pensava em ninguém, não tinha em mira nenhum leitor. Ele escrevia pelo prazer de escrever, considerando-se principalmente um leitor hedonista. Publica uma “antologia pessoal”. Nâo seria, por isso, Borges um escritor? As escolhas que o argentino fez não implicam uma subjetividade? E qual é o problema do eu? A impessoalidade do observador não é uma ficção?

  2. João da Mata
    João da Mata 7 de Dezembro de 2010 11:39

    Caro Horácio Oliveira,

    Obrigado pela elegancia das suas indagações. Não tenho respostas para tudo e no momento estou sem poder escrever . Estou terminando o semestre com muitas provas para corrigir. Pretendo escrever um pouco mais sobre Flaubert No momento diria que Flaubert foi é um ourives da palavra. Um grande artista. Um autor impessoal. Voce não sabe nada de Flaubert lendo Madame Bovary.
    Flaubert foi um grande admirador da Cervantes. No Quixote ele invejava – sobretudo – aquela não pretensão á arte.
    Na ficção o EU deve se ausentar ao Máximo .

  3. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 7 de Dezembro de 2010 12:38

    Horácio, camarada, suas indagações são bacanas. Eu também quero e espero pelas melhores respostas para elas, e de quem está obrigado a respondê-las. Mas, não estou com muita fé, não…
    Pelo visto, tem um certo EU que deveria se ausentar ao máximo…

  4. João da Mata
    João da Mata 7 de Dezembro de 2010 13:09

    “Emma Bovary c’est moi”

    Horácio, só mais uma coisa.

    Flaubert nunca disse essa frase. Essa frase é atribuída a ele para se defender um pouco das graves censuras e acusações aos bons costumes que o romance sofreu quando de sua publicação.

    Abraços fraternos

  5. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 7 de Dezembro de 2010 17:22

    Responsabilidade e honestidade intelectual são sempre necessidades de primeira ordem. Há dados equivocados e/ou truncados que podem confundir e desinformar.

    E aqui é um espaço para a opinião que informa.

    Há de se ter alguma seriedade no trato dessas coisas. Inadmissível que numa só frase se tenha informações tão ambivalentes e teratológicas quanto um tamanduá com cabeça de anaconda.

  6. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 7 de Dezembro de 2010 23:34

    “Pretendo escrever um pouco mais sobre Flaubert”. (João da Mata)

    Sinceramente, todos devemos temer essa grave ameaça…

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