A literatura universal

Por Juan Pablo Villalobos
BLOG DA COMPANHIA

Eu ia escrever uma crônica magnífica para vocês para começar o ano: era um dos meus propósitos para este 2015. Ia ser um texto sobre a vocação de escritor, sobre como foi que eu virei escritor, e ia falar de minha adolescência numa cidadezinha do México, uma cidadezinha do interior bem parecida com qualquer cidadezinha do interior de São Paulo, vamos dizer, ou do Paraná, ou de Minas Gerais até.

Na minha crônica, quer dizer, na minha adolescência, havia um professor de espanhol chamado Juan Luján, que incluía, dentro do programa de espanhol do segundo ano da “secundária” (equivalente à oitava série no Brasil), algumas aulas de “Literatura Universal”. Sempre gostei do fato de os humanos usarem o adjetivo “universal” sem nenhuma vergonha, não porque achasse que os terrícolas eram os únicos seres inteligentes do universo (e olha lá), se não porque eu acreditava que, no caso da literatura, isso significava que a gente ia agregar a literatura de outros planetas assim que os extraterrestres chegarem à Terra e trouxerem os romances e poemas deles. Se algum dos leitores desta crônica, que ia a ser magnífica, não acredita na existência de vida alienígena, com certeza é porque não cresceu numa cidadezinha do interior de Jalisco, da Bahia ou de Tocantins até.

O método de ensino de Literatura Universal do professor Juan Luján era verdadeiramente estapafúrdio. Consistia na pronúncia, em voz tonante, de movimentos literários e autores. Romantismo! Realismo! Naturalismo! Vitor Hugo! Goethe! Balzac! Flaubert! Dickens! Zola! Etc! Ele ditava e a gente escrevia. Listas. Ora, ler literatura a gente não lia, a gente só ficava na pronúncia. Tolstoi! Gogol! Logo, na hora da prova as perguntas eram: 1) Mencione três movimentos literários europeus do século XIX; 2) Cite três autores realistas; 3) Etc. Aliás, outro dos meus propósitos para o 2015 era escrever a palavra “estapafúrdio” numa crônica magnífica, e até engraçada, que ia ser esta.

O que eu mais gostava das aulas de Literatura Universal era quando o professor Juan Luján pronunciava o nome do Dostoiévski. Ele dizia, com voz tonante: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski! Daí começava um rumor na aula. O quê? Como? E o professor Juan Luján tinha que ir na lousa para escrever o nome. A gente copiava o nome. Demorava, no mínimo, cinco minutos (tinha um pessoal lá que vou te contar). Enquanto os mais lerdos ficavam abismados na escrita da “k” e da “h” de Mikhailovich e se negavam a admitir que daí saísse o som da “j” em espanhol, eu repetia o nome do escritor russo dentro de minha cabeça. O sobrenome Dostoiévski criava a mesma fascinação que a possível existência dos extraterrestres. No final das contas, as duas coisas eram muito distantes e tinham o poder de me tirar daquela cidadezinha e me transportar a uma realidade mais excitante, ou pelo menos bem menos tediosa. Eu não tinha sido um grande leitor durante a infância, a literatura para mim não significava nada especial e ainda ia demorar alguns anos até eu virar um leitor compulsivo e chegar a ler Crime e Castigo (e ainda alguns anos mais até eu ter um gosto literário definido e saber que na minha lista de escritores favoritos não estaria Dostoiévski, e sim Gogol e Bulgákov).

Na crônica que eu ia escrever, e que ia ser magnífica, eu pensava descrever a escola (uma escola católica), a classe (cheirava a peido permanentemente), ia fazer uma lista de apelidos dos colegas (“El Huevo”, “El Mascafierros”, “Tabú”, “Porky”), dos professores (“El Espagueti”, “El Peluquín”, “El Mesié”), e ia até ser indiscreto e contar uma fofoca sobre o futuro do professor de Literatura Universal Juan Luján. Sobre o futuro, quer dizer, desde a perspectiva daqueles anos da oitava série, o que hoje é um passado bem distante (mais de 25 anos!). Porque ele ia acabar casando com uma das minhas coleguinhas, a mais bonita, aliás, assim que ela fez 18 anos (Romantismo), e iam ter um filho (Naturalismo), e logo iam se separar (Realismo).

Até aqui a ideia para minha crônica magnífica estava sob controle. Mas então havia um problema: eu não sei explicar que é que tem a ver a pronúncia das listas de escritores da Literatura Universal com a minha vocação de escritor. Sei que isso explica o fato de eu ter virado escritor, mas não sei como. Eu poderia arriscar que eram um tipo de ladainha, que aqueles nomes eram um chamado, mas isso tem um cheiro a religião que hoje eu não posso aceitar (traumas daquela escola e daquela cidadezinha que me fizeram agnóstico). Ou poderia dizer, como já disse, de fato, que esses nomes representavam outra vida possível, longe daquela cidadezinha e daquela escola, outra vida onde eu seria outra pessoa e não esse carinha careta, ingênuo, cheio de medos e preconceitos. Sei lá. A verdade é que não sei explicar e assim é impossível escrever uma crônica magnífica. Os escritores magníficos tem explicações magníficas sobre a vocação de escrever. Histórias de doenças na infância que os recluíram e os condenaram a ler um livro após outro. Histórias de traumas, violência ou injustiças contra as quais a literatura virou um arma de rebeldia. Histórias de famílias de artistas e intelectuais onde ser encanador ou engenheiro é considerado uma traição à linhagem. A minha história, porém, só tem o inexplicável efeito premonitório das listas de escritores da Literatura Universal.

Fica, ainda, uma pergunta mais intrigante: por que eu não virei ufologista em vez de escritor?

Os extraterrestres, aliás, que eu saiba, não chegaram à Terra até hoje e a Literatura Universal continua a ser, por enquanto, só a nossa literatura.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

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