Lívio Oliveira e a poesia brasileira contemporânea

Por Thiago Gonzaga*

É lugar-comum dizer que a poesia produzida atualmente no Brasil é bastante diversificada, possuindo inúmeras características e tendências. A arte poética, como qualquer outra arte, reflete a pluralidade do seu fazer, naturalmente, com instantes de maior ou menor sensibilidade, e encanto artístico.

Poderíamos afirmar que o gênero poético, atualmente, é um fenômeno multifacetado, dada a imensa variedade e a pluralidade de poetas e as maneiras de expressarem sua arte. Isso também acontece no Rio Grande do Norte. Dessa forma, nós leitores, temos que estar abertos às inovações e formas diversas. Enxergar uma nova maneira de se olhar a clássica vertente literária, que hoje, se distancia muito daquela poesia romântica tradicional, que ficou popularmente conhecida.

Com pouco mais de cento e cinquenta anos de história, a literatura potiguar nunca esteve tão sintonizada com o que acontece em outros lugares do Brasil e do mundo, como na atualidade. São inúmeras as obras, de vertentes variadas que provam essa sintonia literária. Se a nossa literatura ainda é tímida, na distribuição e nos espaços das mídias (jornais, tevês), sob outros aspectos, ela mantém uma das nossas principais qualidades, a tradição literária.

A poesia potiguar contemporânea recorre ao conceito de tradição para estabelecer a comunicação entre tempos e autores diferentes. Ao mesmo tempo, está inserida na busca pela criação e pela experiência, aliada à tradição e à linguagem, que seus autores emprestam às obras.

De modo geral, ela está num plano de diálogo e de busca que inclui o poeta-escritor e a maneira como ele enxerga o mundo. Se buscarmos informações nas maiores universidades do Estado, veremos que existem quase sempre novos trabalhos sobre a nossa poesia, mesmo que não necessariamente sobre a poesia contemporânea, mas mantendo a nossa tradição literária. É bem verdade que, raramente um poeta consegue, em um pequeno espaço de tempo, estabelecer algum tipo de recepção mais consequente, de acordo com os trabalhos que vai realizando, nem consegue incluir suas obras de maneira efetiva em debate, ou ter uma crítica literária mais consistente sobre seu trabalho. São raros os que alcançam isso em vida.

Porém, apesar dos entraves já conhecidos da nossa literatura, acreditamos que muitos poetas do Rio Grande do Norte terão seus trabalhos reconhecidos a nível nacional e inclusive acadêmico, muito brevemente, e o poeta Lívio Oliveira é um destes.

O escritor publicou recentemente “’Cais Natalense” (8 Editora,2014), livro composto de 101 haicais, numa obra que concilia conhecimento, técnica, inspiração e, sobretudo transpiração. O tipo de poema presente em “’Cais Natalense” fora trabalhado pelo poeta num livro publicado em 2007, “Pena Mínima”. Vemos, pois, que Lívio Oliveira, já domina o haicai e é um dos pioneiros no Estado nessa modalidade poética.

No trabalho, que procura adequar suas palavras a formas, sem optar pela dispersão, o poeta usa o máximo com o mínimo, adotando a técnica originalmente japonesa, que tem também outro cultor entre nós, o poeta Jarbas Martins, que dispensa apresentação; ele publicou recentemente “44 Haicais” (8 Editora, 2014).

Lívio Oliveira, nessa nova obra também trabalha com o uso de camadas sonoras e remete um pouco também a outras escolas poéticas; há visualidade através de algumas ilustrações que colaboram para se conceber melhor os poemas, alguns destes remetendo à poesia concreta.

Os novos haicais de Lívio Oliveira, têm o mérito de não repetir, nem se parecer com o seu livro anterior de haicais. Caracterizados por acentuada variedade, vão desde temas da natureza, da cidade, do sertão, a temas sociais com grande penetração.

A obra de Lívio Oliveira traz haicais à maneira tradicional japonesa, isto é, orientados pela prática do haicai japonês trazido para o Brasil. No momento, no país, coexistem várias vertentes no haicai brasileiro: a tradicionalista, a de inspiração zen, a filiada a Guilherme de Almeida, a epigramática e a de matriz concretista.

O haikai, ou haicai, é uma pequena poesia com métrica e molde orientais, surgida no século XVI, muito difundida no Japão e que vem se espalhando por todo o mundo desde o século passado. Possui uma longa história (fiz um pequeno estudo introdutório sobre essa técnica no livro de Jarbas Martins). No haikai, de maneira geral, se faz perceber curiosos e belos fatos que geralmente passam despercebidos aos nossos olhos. O objetivo é capturar a essência do local numa poesia contemplativa e descritiva com grande valorização nos contrastes, entre outras virtudes. É uma forma extremamente concisa de poesia.

Esse bom momento, que vive a poesia potiguar, nos permite imaginar que o poema de origem japonesa, além de outras técnicas, continuará a ter, na literatura local, um papel interessante, contribuindo muito com a literatura brasileira de modo geral, já que, as tendências dominantes na poesia brasileira de hoje, também se combinam entre si de maneira variada, intencional ou não, mas formando uma unidade e uma tradição.

 

*Thiago Gonzaga é pesquisador de literatura potiguar, autor dos livros, Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos Vol 1 & 2.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 13 de janeiro de 2015 18:42

    Gostei do excelente texto de Thiago Gonzaga. Salve Lívio!

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