As livrarias da minha vida

Por José Eduardo Agualusa
O GLOBO

Durante muitos anos, sempre que viajava para o Rio, escolhia o hotel em função da proximidade com a Livraria da Travessa, em Ipanema. Hoje em dia frequento mais a Travessa do Shopping Leblon. É lá que combino todos os meus encontros. Sou pontual. Infelizmente a pontualidade é, de entre todas as virtudes, aquela que mais se parece com um defeito. Sobretudo no Rio de Janeiro. Se um amigo me convida para jantar em sua casa às 21 horas, eu apareço às 21 horas. Com amigos cariocas muitas vezes fui recebido com indisfarçada desconfiança.

“Você?! Não disse às 21?!”

“São 21!”

“Exatamente. Você chegou muito cedo. Cara, que saco!, você chega sempre cedo demais.”

A verdade — juro! — é que faço um enorme esforço para chegar atrasado, mas nunca consigo. Sempre acontece alguma coisa — calha-me na sorte um taxista que gosta de velocidade, ou então é o trânsito que subitamente se abre para que nós passemos, como o Mar Vermelho diante de Moisés —, e eu acabo chegando à hora aprazada.

Geralmente, antes. Assim, passei a combinar todos os meus encontros na Travessa do Shopping Leblon. Enquanto os meus amigos não chegam, vou me informando sobre os novos lançamentos e namorando títulos. O pior que pode acontecer, caso os amigos se atrasem muito, é eu comprar mais livros do que aqueles que o meu orçamento permite. Talvez eu leia um pouco acima das minhas possibilidades.

Gosto muito da Travessa, como gosto, em São Paulo, da Livraria da Vila, não apenas pelo motivo óbvio, por causa dos livros, mas porque são espaços charmosos e acolhedores. Contudo, se tivesse de escolher uma livraria, no mundo, onde passar o resto dos meus dias, escolheria a Altair, em Barcelona. A Altair junta livros e viagens e só isso já justificaria a escolha. Mas tem mais. Muito mais. Em primeiro lugar a Altair não expõe apenas alguns livros de viagens. Estão todos lá. Ou assim parece ser. São milhares e milhares de títulos, em vários idiomas, além de mapas dos lugares mais improváveis e inexplorados. Logo à entrada da livraria, que se distribui por dois andares, numa área enorme, existe uma parede onde qualquer viajante pode deixar notas. Há leitores que deixam as suas impressões e sugestões de viagem e outros que buscam parceiros de aventura; uns que alugam quartos em cidades de que nunca ouvimos falar, e outros que procuram um livro raro, num idioma obscuro. A livraria oferece ainda um espaço para leitura, com cadeirões confortáveis. Gosto de me sentar num deles como se estivesse em casa — na casa que sempre quis ter — enquanto decido que livros levarei. Na Altair funciona ainda uma agência de viagens especializada em roteiros exóticos. Assim, o leitor-viajante pode adquirir os livros, mapas e ainda as passagens para o destino dos seus sonhos.

Em Lisboa há também uma livraria de viagens de que gosto muito, a Palavra de Viajante, a qual, embora pequena, é muito simpática e acolhedora. Cuidado para não entrar, logo na porta ao lado, na livraria da Chiado Editora. A primeira vez que isso me aconteceu julguei ter transposto um portal para um universo paralelo. Ali estava eu numa livraria portuguesa, rodeado de estantes por todos os lados, mas não era capaz de identificar um único autor. Todos os títulos me eram estranhos. Saí. Voltei a entrar, mas os estranhos livros continuavam lá. Só mais tarde percebi que tinham todos a mesma chancela. A Chiado Editora deve ser a editora de língua portuguesa que mais títulos publica. É também a menos conhecida. Os autores pagam para serem publicados — e logo esquecidos. Os livros da Chiado raramente surgem em qualquer outra livraria. É, com certeza, um excelente negócio para a editora. Não para os escritores.

Ainda em Lisboa aconselho uma visita à Bertrand, no Chiado, quanto mais não seja por ostentar o título de livraria mais antiga do mundo. A Ler Devagar, no espaço da Lx Factory, instalada numa antiga tipografia, tem sido considerada uma das mais bonitas do mundo por publicações como “New York Times”, “The Guardian” e muitos outros. Mais do que bonita, é um espaço originalíssimo e um paraíso para quem procura publicações raras e mais antigas. Bonita, sim, sem qualquer dúvida, é a Lello, na cidade do Porto. O esplendor da escadaria em madeira, que leva ao segundo andar, é de tirar o fôlego. J.K. Rowling viveu no Porto durante alguns anos. Diz-se que a Lello inspirou a escritora britânica para criar a livraria na qual Harry Potter e os seus colegas adquirem os livros de magia.

Pode ser. Magia não lhe falta.

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