Livro

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“Vai passar, eu sei que vai passar”
(Caio Fernando Abreu).

Respiro profunda e inutilmente
E balbucio um texto
(“Vai passar, eu sei que vai passar”)
Mas eu apenas
Balbucio;
Certeza que passa,
Não tenho.
Preciso comer este texto
Para alimentar a esperança
Que não tenho
E, dizendo a mim mesma,
Tudo passa, inclusive
Eu
Que sigo…
Olhos abertos;
Peito fechado;
Punho cerrado.
Em certos pontos da vida,
Somos como um livro jogado.
Uma história,
Digamos,
Até interessante…
Mas, largado num canto,
Lá está:
Esquecido, empoeirado
E dentro dele
Toda história,
Todos os silêncios,
Todas as exclamações
E uma inútil interrogação
Insiste
Em contar fatos.
Suas verdades
São como contos
Mal-assombrados
Bizarros,
Macabros.
Um dedo na narina;
Outro na ferida.
Assim, respira
Um livro fechado.
Uma porta,
Duas insinuações de janela,
Uma caixa com fendas
E uma teimosa alma
insistindo em vazar pela fresta.
O dia dorme;
A noite acorda.
Feito de contrastes,
O relógio parece querer enganar
O tempo veloz
Que,
Irreverente, nada tem a ver
Com a indiferença
Que permeia
O desabitado
Mundo meu.
Feriado é como dia de enterro:
Morto,
Posto entre as paredes
E a luz fluorescente
E através das escadas sujas,
Mal postas que me dão acesso
Às batidas do coração,
Implodo
Numa busca que me parece inútil
E é inútil tentar
Fazer e dar sentido
Ao que está morto.
É inútil adoçar o café,
Mastigar o pão.
Inútil é, também,
Abrir os braços
Para doar
E pedir abraço.
(Há braços estendidos
Que abraçam apenas o vão
E mãos vazias de corpos gelados
Que desfiam sorrisos vagos).
… Não quero me enganar;
Não gosto da mentira.
Dela tenho total pavor,
Mas a feia verdade é bela,
Penso nela
Como alguém que num deserto ]
Entende
Que a verdade é:
Ainda posso respirar,
Mesmo que por uma narina.
Passar, talvez, não passe.
Mas, deixará nos pés feridos, calejados
De quem pisa em brasa,
De quem beija espinhos,
Marcas,
Como troféus
E dentro das feridas,
Um livro jogado, esquecido
Entre a poeira e o sangue.

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Paulo Caldas Neto 26 de novembro de 2012 15:31

    Ednar,

    Boa descrição de cenas. Um livro realmente é a melhor metáfora para nos representar enquanto seres jogados ao léu pela céleres figuras do tempo e da História.

    Abraços e continue assim.

  2. Ednar Andrade 24 de novembro de 2012 11:52

    Com certeza* ao vivo :Beijos (ao vivo nos dias 10 e 11 de dezembro, viu?)

    (Então é Natal…:) ? (Presente. viu?) Haha!!)

  3. Ednar Andrade 24 de novembro de 2012 11:44

    Eita!!! Hahahaaa!!

    Meu querido.

    Não sei se sou poeta,de uma coisa sei:tu és um amado meu, viu? Obrigada por teus elogios que chegam a minha pele.

    Arrepiei…:)

    Quanto a imagem livro,quando fiz a busca do mesmo, tive a preocupação de saber a procedência,mas….Não havia.

    Poesia:tento aprendê-la.

    A vida tem me passado textos tão variados ….Um dia,quem sabe serei.

    http://www.substantivoplural.com.br/sem-poesia/comment-page-1/

  4. Marcos Silva 23 de novembro de 2012 18:15

    Querida Ednar:

    Esse poema tem momentos muito bonitos. Gosto especialmente da sequência “um dedo na ferida / outro na narina / Assim respira / um livro fechado”. O desfecho também é muito bonito: “Entre a poeira e o sangue”. Também a inutilidade de adoçar o café. E a belíssima imagem. Meu amigo Joel Carvalho fez uma série de trabalhos desse teor (livros presos por cordas, cadeados, parafusos), será que esse trabalho é dele?
    Às vezes, você me parece não se levar muito a sério como poeta, fala como se escrevesse à toa. É ótima sua ausência de presunção. Mas é necessário saber que está fazendo poesia, sim. Poesia não é qualquer coisa.
    Beijos (ao vivo nos dias 10 e 11 de dezembro, viu?)

  5. Anchieta Rolim 23 de novembro de 2012 17:53

    Ednar, esse é simplesmente MAAAAASSA!!!

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