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Livro alinha Renard Perez ao romance de formação

Vinte e oito anos depois da sua segunda edição, que portava a chancela da Editora Civilização Brasileira em parceria com o Instituto Nacional do Livro, sai agora, em terceira edição, o livro “Começo de caminho: o áspero amor”, de Renard Perez, agora chancelado pelo Instituto Pró-Memória de Macaíba e a editora mossoroense Sarau das Letras, e tendo na capa um belo trabalho gráfico do artista plástico Dorian Gray. O prefácio é assinado por Clauder Arcanjo, enquanto as orelhas têm a marca de Valério Mesquita. A nós coube a revisão e a atualização ortográfica da obra.

Único romance do macaibense Renard Perez, “Começo de caminho: o áspero amor” se enquadra à perfeição na tradição europeia de origem alemã do Bildungsroman, ou seja, o romance de formação, no sentido em que retrata o processo de aprendizagem de vida de um jovem nordestino tentado fazer a vida na cidade grande, onde chega não só com a coragem e a cara, mas com uma bagagem de leituras e esboços de escritos literários.

O jovem, como somos tentados a supor, é mesmo um duplo do autor, se levarmos em conta que compartilha com o autor o projeto de escrever um romance, mesmo que para isso tenha de viver dias de penúria material na falta de um emprego fixo, e de desespero existencial em consequência de uma relação amorosa mal-sucedida. Trata-se, portanto, de alguém que se debate entre buscar um meio de vida, desenvolver um trabalho literário e administrar trabalhos de amor, no sentido que lhe dá a peça homônima de Shakespeare. No campo literário, porém, sua paixão é pacífica: a obra machadiana, e, dentre os contemporâneos, Jorge Amado.

Mas, o que sabe um jovem motivado por uma paixão literária do que se passa na cidade do Rio de Janeiro nos anos 1950? Como encontrar seu próprio caminho entre inúmeras possibilidades abertas ao sucesso e ao fracasso que se lhe figuram à frente? E como lidar com os ardis da experiência amorosa, aliás matéria-prima clássica dos romances da vida e dos livros?

“Começo de caminho: o áspero amor” trata, assim, de questões que assumem caráter universal, na medida em que lida com esse problema crucial que é a transição da juventude para a idade adulta, ou seja, para a assunção de responsabilidades e afirmação individual, tema, aliás, do livro “Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister”, de Wolfang von Goethe, e que deu origem ao gênero do romance de formação.

O personagem Carlos Vasconcelos chega à juventude como qualquer outro rapaz: ignorante do que possa significar essa idade, confirmando aquele epigrama de La Rochefoucauld de que “chegamos inteiramente inexperientes a cada nova idade da vida”. Isso explica por que comete um erro após outro na sua relação com Clotilde ― ou Clô, como prefere Carlos ―, uma jovem comerciária que ele conhece numa sessão de cinema em Copacabana.

Paralelamente a essa experiência de fracassos, ou apesar disso, Carlos Vasconcelos desenvolve sua própria literatura. E é nessa seara onde colherá uma sucessão de pequenos êxitos que o ajudarão a contrabalançar os fracassos da área sentimental. Sua educação sentimental trilhará, portanto, por ásperos caminhos, como anuncia o título da obra.

Desde longe se sabe que erros e acertos não se equivalem, sobretudo quando envolvem áreas tão dispares como afetividade e criação literária. Há, de fato, um erro emocional ― para aproveitarmos uma imagem sugestiva de Cristovam Tezza ― na trajetória de Carlos Vasconcelos. O que não impede que o romance se espraie por outras plagas. E caso não o fizesse, como mereceria o título de romance? Certas posições assumidas por ele estão hoje datadas. Responderíamos que elas têm papel subsidiário no desenrolar da trama ou, no mínimo, seriam tributadas ao amadurecimento do personagem. De fato, que importa isso se aí as histórias de vida e a trama literária se dão as mãos para que finalmente surja o romance?

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Comentários

1 comment

  1. Francisco Sobreira 9 agosto, 2011 at 17:47

    Nelson,
    Gosto desse romance de Renard, que me foi presenteado por ele. E você soube, numa análise relativamente curta, ir direto ao ponto central do livro. Um abraço.

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