Livro: Como os sons da natureza explicam a origem da música e da cultura

Bernie Krause estava em Ruanda, em 1987, para registrar o som de gorilas.

Nos confins do pequeno e montanhoso país, sete anos depois conhecido por uma carnificina sem igual na Era Moderna, na briga entre duas etnias com mais de 800 mil mortos, em apenas três meses, ele achava que sua experiência de duas décadas em meio ao Reino Animal era suficiente.

De repente, dois machos anunciam um confronto.

Com microfones sensíveis, o doutor em bioacústica escuta detalhes dos barulhos emitidos pelas feras.

Por azar, estava sentado e amedrontado entre os dois inimigos.

A escolha de estar na África tinha sido feita ainda nos anos 1960, tempo em que Krause era um dos músicos de estúdio e técnicos de som mais requisitados por artistas, como Bob Dylan, Stevie Wonder, George Harrison, Rolling Stones e pela turma da Motown.

Com algumas participações em trilhas sonoras hollywoodianas, como nos filmes O Bebê de Rosemary e Apocalipse Now, ele foi requisitado para gravar um disco com sons da natureza.

O teste foi feito em um bosque idílico na periferia de São Francisco, onde morava, para ouvir o vento, os grilos, as rãs e nunca mais ser o mesmo.

Naquele universo despercebido pela imensa maioria das pessoas, encontrou o rumo de sua vida.

Viajou por lugares distintos, como a ilha de Bornéu, na Indonésia, a Selva Amazônica, o Alasca e outros recantos sem a presença do homem-econômico.

Virou referência em uma área de estudo controversa, até então presa a teorias baseadas em sons de animais ou elementos isolados.

AGrandeOrquestraDaNatureza.3Krause contraiu dívidas para bancar suas pesquisas e conseguiu despertar o interesse de colegas, empolgados com a ideia de que a origem da fala e da música humana surgiu entre paisagens sonoras intactas – não sem levantar a desconfiança de acadêmicos.

Um simples arbusto no quintal de nossa casa contém uma rica variedade de paisagens sonoras.

Krause investigou esse tipo de situação em larga escala, sentindo efeitos do desenvolvimento econômico no biossistema.

Através da biofonia, da geofonia e da antropofonia, ele observou como a alteração da ‘música’ dos animais pode significar catástrofes climáticas, na flora e na cultura dos homens.

Quase todas as facetas culturais de nossa existência surgiram da vocalização dos bichos em consonância com o vento, a água, a terra e as plantas.

Para ele, se uma imagem vale por mil palavras, a biofonia vale por mil imagens, por guardar segredos sobre nosso passado e presente, e apontar caminhos futuros.

Suas mais de 15 mil espécies catalogadas serviram de base para o livro A Grande Orquestra da Natureza, lançado aqui no Brasil pela Zahar Editores.

Após 245 páginas, entendemos a razão de os verões estarem mais quentes e invernos mais frios, além de dar sentido a expressões artísticas e pessoais.

E vai além.

Se a vocalização dos animais foi imitada por primatas, como registra a história da linguagem humana, aquilo tinha um sentido de acasalamento, demarcação de território, brincadeira e contato social.

AGrandeOrquestraDaNaturezaUm grito, um grunhido, um canto de baleia mostra onde tem alimento, quais os perigos da região e o nível de facilidade para adaptar moradias.

Foi da sinfonia biológica e geológica que o homem aprendeu a se virar em sociedade.

O livro de Krause expõe a coisa toda sem doutrinação, e mostra como apagamos nossa história ao desmatarmos florestas e exterminarmos espécies – perdemos um banco de dados precioso.

Apaixonado pelo que faz, ele veio ao Brasil várias vezes – se encontrou com Tom Jobim, inclusive.

Foi até Minas Gerais e à Amazônia, onde passou por um episódio tenebroso com uma onça pintada, semelhante ao que enfrentou com os gorilas, em Ruanda.

Um dos gorilas ruandeses, por sinal, o puxou pelo ombro e o jogou longe, para deixar o campo aberto na luta entre dois primatas por uma fêmea.

Ao pesquisar oceanos, descobriu que o camarão-pistola, um ser com quatro centímetros de comprimento, emite um som mais poderoso em decibéis do que qualquer banda de rock.

A Grande Orquestra da Natureza é obrigatório na estante de quem tem curiosidade sobre a origem humana, por ser um livro raro lançado no Brasil, de fácil assimilação e muito bem construído pelo pesquisador referência mundial nos estudos de acústica ecológica.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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