Livro de ensaios investiga questões em torno da escrita de biografias

Por Joëlle Rouchou *
O GLOBO

Em 21 artigos inéditos, coletânea organizada por Clarisse Fukelman explora conexões entre memória, tempo e História

RIO – Quando quis deixar sua vida registrada, contar sua história, as perdas, os ganhos, o jornalista Samuel Wainer optou por convidar três outros colegas para entrevistá-lo. Achou mais conveniente que sua autobiografia fosse escrita passando por sua memória e pela curiosidade de outro. Tanto escrever quanto ler (auto)biografias é uma questão que mobiliza vários campos do saber nas ciências humanas e sociais. As vozes do biografado, os relatos imprecisos guardados na memória abrem possibilidades para vários tipos de abordagem.

Contar a vida de alguém requer pesquisa, entrevista e despojamento de ideias pré-concebidas. Pela quantidade de questões que levanta, o tema é um sem-fim de perguntas, e o livro que a Eduerj acaba de lançar, “Eu assino embaixo: biografia, memória e cultura”, organizado pela professora e pesquisadora Clarisse Fukelman, é mais do que oportuno. É necessário. Vinte e um artigos divididos em seis áreas temáticas abrem um leque de possibilidades de interpretação. Tempo e memória entram em ação para apresentar personagens famosos e desconhecidos e costurar, com linhas do tempo, trajetórias individuais que incorporam contextos históricos específicos. O painel é amplo.

O primeiro bloco, “Mutações da escrita biográfica” aciona as áreas de Direito, Literatura e Comunicação. Os artigos de Maria Helena Werneck, Eneida Maria de Souza, Claudia Pereira, Vera Follain de Figueiredo, Caitlin Mulholland e Thamis Dalsenter são de leitura instigante, mesmo para um leitor não acostumado à terminologia específica de cada área. Há ainda boas sugestões de leituras, como as relações entre vida e doença levantadas por Susan Sontag ou a pseudoautobiografia do escritor Silviano Santiago. Além da teoria literária, há temas como a exposição do indivíduo na internet, a disputa no campo da biografia entre historiadores e jornalistas e a questão polêmica sobre biografias autorizadas ou não.

No segundo movimento, “Entre individual e coletivo”, quatro artigos transitam entre artes plásticas, literatura e a construção da carreira: Rachel Viné-Krupa aborda a memória e autobiografia em Frida Kahlo, utilizando suas pinturas e trechos de seu diário; Sergio Miceli retoma um tema que lhe é caro, a análise de imagens e as negociações entre o artista e o personagem retratado; o filósofo francês Jacques Leenhardt analisa “O idiota da família”, biografia de Sartre sobre o escritor Gustave Flaubert, mostrando que o pertencimento da obra de arte se deve tanto à cultura quanto a seu produtor, não podendo ser reduzida a um desses lados; e Clarisse Fukelman aborda a correspondência de Clarice Lispector e sua rede de amizade e sociabilidade, mostrando a importância do grupo mineiro em sua vida profissional e particular.

O terceiro bloco trata do “Sujeito, corpo e memória” seja na literatura, quando Ana Chiara compara Gullar, Graciliano e Nava; no cinema, com estudo de Andrea França sobre o emocionante documentário “Diário de uma busca”; na filosofia bergsoniana, com a especialista Débora Cristina Morato Pinho; e na psicanálise, tanto com Joel Birman que toma a narrativa psicanalítica para o estudo do sujeito, quanto com Roberto Correa dos Santos, que através de aforismos usa a própria escrita para falar do biográfico.

O quarto bloco tem como título “Religiosidades e hagiografias”. A historiadora Eliane Moura da Silva pesquisa missionárias protestantes norte-americanas no Brasil, e o pesquisador em Letras Jorge de Souza Araújo revê um livro que foi best-seller na Colônia, o “Compêndio narrativo do peregrino da América”, de Nuno Marques Pereira.

O livro situa a relação entre biografia, cidade e país. O historiador Edmilson Rodrigues analisa a instauração de um novo modo de percepção da vida urbana, através de João do Rio. Daniela Versiani faz estudo comparativo do tema favela no cinema brasileiro, em particular o “5x favela — Agora por nós mesmos”, realizado por um coletivo de jovens moradores de favelas cariocas. Na política nacional, o cientista político Celso Castro repensa a Proclamação da República brasileira e o historiador Oswaldo Munteal discute a era Jango, em especial a versão oficial sobre a morte do ex-presidente.

O breve panorama revela a infinidade de questões que cercam um tema que recebe interesse cada vez maior dentro e fora do mundo acadêmico e mostra muitas possibilidades de interlocução entre autores munidos de referências teóricas sólidas. Uma preciosa obra pra quem quer se dedicar ao estudo de histórias de vida, cidade e país.

*Joëlle Rouchou é jornalista, autora do livro “Noites de verão com cheiro de jasmim” (Ed. FGV) e trabalha na Casa de Rui Barbosa

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