LIVRO: Humor no Conto Potiguar traz 15 histórias para você abandonar o besteirol virtual

Demissões em massa, trânsito anárquico, calor escaldante, corrupção para todo lado, notícias apavorantes de assassinatos onde antes só corria brisa e água de coco.

Aí o sujeito estoura:

“Chega de coisa ruim!”.

E resolve cair na droga pesada, overdose de memes, piadas em áudio e vídeo, Lula vagabundo pra cá, Aécio cheirador de pó pra lá, um tirinete de analgésico ineficaz contra o vírus mais letal e endêmico no Brasil: a ignorância.

Para esse tipo de gente, recomendo o livro Humor no Conto Potiguar, coletânea organizada pelo escritor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras e desembargador aposentado, Manoel Onofre Jr.

Com enorme vantagem sobre a efemeridade virtual, sobretudo por criar uma realidade mais perdurável e intensa do que a que serviu de base para as pequenas narrativas e, portanto, enriquecer a compreensão da esquina que habitamos.

Em vez de três minutos de cretinices no smartphone, leia um conto, que é mais jogo.

O lançamento será no próximo dia 23 (quarta-feira), às 18h, na sede da própria ANRL.

Comento em primeira mão aqui, após a leitura das 15 histórias.

Como em outros trabalhos de sua lavra, casos de Salvados e Alguma Prata da Casa, Manoel Onofre explica a geografia no título, tida por alguns como limitante.

“Não existe o humor britânico, celebrado em verso e prosa? Por que não o nosso?”, salta de sua introdução.

Nomes, como o de Eulício Farias de Lacerda, Cellina Muniz e Clauder Arcanjo, surgiram para a literatura ao trocarem suas terras de origem, a saber, Piancó (PB), Brasília (DF) e Santana do Acaraú (CE), por cidades potiguares.

Manoel Onofre JrÉ daí que Manoel Onofre Jr. (foto) parte para reunir uma lista de escritores que perfaz quase um século de contos publicados em livro – outro critério adotado pelo organizador.

Tem Augusto Severo Neto, Luís Carlos Guimarães, Bartolomeu Correia de Melo, Demétrio Diniz, Tarcísio Gurgel, Osair Vasconcelos, Clauder Arcanjo, Aldo Lopes de Araújo, François Silvestre e os mais jovens, Carlos Fialho, Thiago Gonzaga e Carlos Onofre.

No primeiro conto, Bem melhorado, o boêmio José Pinto Júnior (1906-1959), elogiado por Câmara Cascudo como escritor original e sensível, traz o perrengue do coronel Leopoldo Galvão, acamado com “[…] um impachamento (sic) e […] um nó na tripa gaiteira!”.

Duas vomitadas engulham os presentes, e o médico determina uma viagem de urgência a Recife.

O coronel é destemido e decide ficar.

O que abre espaço para o charlatanismo medicinal.

Já o neto de Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, considerado poeta e escritor dos mais importantes do Estado, provocou meu primeiro sorriso sustentado com a conversa do pão anatômico.

Sua história é intitulada assim: De como Bitú se deu mal com uma de suas promoções empresariais: o pão anatômico.

Ganha o leitor de cara, não?

Bitú é dono de uma padaria e aparece com a novidade.

Logo começa uma bateria de trotes, com perguntas sobre a veracidade da iguaria.

Ao confirmar a produção e indagar o que deseja o suposto cliente, toma na orelha:

“Que o senhor pegue o pão anatômico e soque no rabo”.

Até que uma gafe lhe constrange.

Peba, tartaruga e a mulata Arlinda

Se o propósito sempre é superado pela obra, quando falamos de arte, três contos merecem destaque, por suas formas, técnicas e conteúdos.

Em “A tartaruga de Baudelaire”, de Eulício Farias de Lacerda, temos a loucura de um poeta recém-saído de um manicômio – o cúmulo para sua internação foi se jogar de uma árvore, crente que era uma fruta madura.

De lembrança do internato carrega as pernas da enfermeira Luzinete, que “[…] dão uns lusíadas”, de tão bonitas.

Roque volta para casa e também para os bares de outrora, a contragosto da mãe.

Seus companheiros etílicos, porém, aguardam com as línguas afiadas.

Eulício (1925-1996), professor de teoria literária da UFRN e autor do clássico Rio da noite verde, revela sua destreza narrativa no crescente da expectativa do encontro de Roque com seus amigos.

Luis Carlos GuimaraesJá em O olho de sangue da lua cheia, de Luís Carlos Guimarães (ilustração), surge o melhor conto do livro.

Conhecido por sua poesia, o currais-novense cria um cenário em torno do enterro de Lula Capeta para além do humorístico.

Que me perdoem os adeptos da máxima: “Comparar não é raciocinar”, mas a discussão dos amigos sobre qual roteiro seguir com o corpo de Lula (calma, lembre-se do começo desta nota), em um cortejo fúnebre e popularesco, enquanto babam pela viúva Arlinda, para mim, lembrou a abertura de A morte de Ivan Illich, de Tolstoi, e a novela O Bem Amado.

Para ler e reler.

Com atenção, também lemos François Silvestre, em O caçador de peba.

Ele conta que Maurício era um fazendeiro dono dos melhores jumentos besteiros da região. Dinheiro não faltava. O que faltava era filho homem, pois seis meninas saíram de seu gingado com dona Zêfa.

Teresa era a mais velha, a que na falta de um varão ajudava o pai no acasalamento dos asnos.

Só até certo ponto, para Teresinha não ver “[…] onde o jegue papava a égua com sua manjuba de légua e meia”.

A jovem se engraça com Samuelzinho, filho do vizinho de propriedade. O casamento é marcado para o dia santo mais próximo, por supertição, e não deixa muito tempo para a construção do quarto extra, na fazenda de Mauricio.

Marido e mulher, então, são obrigados a dormirem separados, como determinava a moral antiga.

Os dois entram em ebulição, contidos desde o casório.

É aí que o pingo d’água ganha um nó.

Evito estragar qualquer surpresa ao dizer que também gostei de Espírito Natalino, de Tarcísio Gurgel (ao som de Roberto Carlos, colegas de trabalho aguardam ansiosos a troca de presentes entre desafetos, em um amigo secreto); de Dona Tarcisa, de Clauder Arcanjo (uma mulher cresce frustrada e isolada por ter nome de homem, com desfecho honrado e redentor).

Cellina MunizAssim como de Precisa-se, de Cellina Muniz (foto), em que Osvaldo é um cinquentão na iminência da aposentadoria, que entra em uma loja, cuja fachada estampa uma placa com os dizeres: ‘Preciza-se de um amor’(com Z).  Ao questionar o significado com uma vendedora, sua vida é repassada.

Completam minha cartela de pílulas anti-acrimônia, Podia ter sido eu, de Carlos Fialho (conversa surreal entre Pete Best, primeiro baterista dos Beatles, e Michael Collins, astronauta da missão inaugural à lua, em um pub de Liverpool); e A fantástica história do fabuloso dia em que Jesus voltou, de Thiago Gonzaga (na concorrência por fiéis, pastor Raimundo Macedo promete um culto com a presença de Cristo com camisa de Che Guevara, de moto e tudo).

 

foto livro de humor

 

 

Humor no conto potiguar

Organizador: Manoel Onofre Jr.

8 Editora

Preço: R$20,00

Lançamento: Dia 23 de março, às 18h, na Academia Norte-rio-grandense de Letras

 

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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