Livro traz análise do cinema brasileiro

marcosProfessor e escritor Marcos Silva

Os escritores Marcos Silva e Bené Chaves lançam nesta terça-feira, 20, o livro Cenas brasileiras, o cinema em perspectiva multidisciplinar. A obra traz textos de 55 colaboradores – todos potiguares ou ligados a instituições do Rio Grande do Norte – que analisam o cinema brasileiro no período de 1928 a 1988 sob diversos aspectos, em especial seu papel ao registrar fatos importantes da história política, social, cultural e econômica do país. Destacam-se nomes como Moacy Cirne, Gilberto Stabili, Pablo Capistrano, Anchieta Fernandes, Carlos de Souza, Alex de Souza, Arnóbio Fernandes, Cláudio Galvão e Lenício Queiroga (in memoriam). Editado pela Editora da UFRN, o lançamento ocorre às 18h, no auditório do curso de Enfermagem, no campus central. Nesta entrevista, o escritor, historiador e professor da USP Marcos Silva destaca a importância do trabalho para o resgate do cinema brasileiro e defende que discuti-lo é também discutir a sociedade da qual fazemos parte.

Na apresentação do livro, vocês destacam ser um cinema que não gerou tantos clássicos, mas que possui uma história. Por que é importante analisar o cinema brasileiro feito no período estudado?

Entendo que fazer cinema no Brasil é um desafio cultural, político, técnico e empresarial. Por isso mesmo, muitos filmes são verdadeiras conquistas. A produção brasileira de cinema é pequena se comparada a países com uma grande indústria no ramo (EUA, Itália, França etc.), mas gerou filmes expressivos no sentido de revelar sensibilidades e interesses da população. Ao mesmo tempo, obras artísticas significativas conseguiram nascer nesse meio difícil. Escolhemos o fim da Embrafilme (1988) como um marco de periodização.


Cite alguns desses clássicos.

Limite (Mário Peixoto, 1930), Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), Terra em Transe (Glauber Rocha, 1966), São Bernardo (Leon Hirszman, 1971) e Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984). Não podemos ignorar esses belos filmes que nos explicam em tantos aspectos. E belos filmes continuam a ser feitos no Brasil. Vi, há poucas semanas, o belíssimo Moscou.

Como analisaria o cinema brasileiro de 1928 a 1988 em termos de estética e qualidade técnica?

Ele conseguiu enfrentar dificuldades de produção e acompanhar as inovações técnicas (som, cor), alcançando grande sucesso de público em vários momentos. Certamente, os caminhos seguidos são demonstrativos da realidade social e cultural do país. Muitos filmes dialogam com grandes questões políticas, estéticas e até metafísicas da população -fome, modalidades de expressão, destinos supostos.

O cinema feito no Rio Grande do Norte ou por diretores nascidos aqui também foi analisado?

No período abrangido pelo livro, analisamos apenas Boi de Prata (Augusto Ribeiro Jr., 1973). Mas o livro celebra uma cultura do cinema (críticas, debates) que é totalmente do Rio Grande do Norte. E torcemos para que mais filmes sejam feitos no RN.

Por que Glauber Rocha desperta tanta atenção hoje? Que outros nomes poderiam também ser destacados?

Ele dirigiu dois grandes filmes (Deus e o diabo na Terra do Sol e Terra em transe) e muitos outros de profundo interesse. Era um homem de inteligência brilhante e capacidade mobilizadora. Gosto muito de Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e Eduardo Coutinho, dentre muitos outros bons diretores brasileiros.

Como se deu a escolha dos colaboradores?

Eu e Bené Chaves convidamos pessoas que já tinham participado do livro “Clarões da tela” e novos colaboradores, gente que tem publicado em jornais e blogs ou atuado em cineclubes e entidades similares. Não houve especialização por período. Alguns filmes mais inacessíveis, que existem apenas na Cinemateca Brasileira, findaram analisados por colaboradores que moram em São Paulo, como eu e Gilberto Stabili.

Que importância tem esta obra para o resgate do cinema brasileiro?

O cinema tende a se tornar uma arte menos pública e mais conhecida no espaço privado. Entendo que a publicação de um livro como esse devolve o conhecimento sobre filmes ao debate coletivo, convida os leitores e colaboradores a compartilharem suas experiências de compreensão do cinema e do mundo.

Por Adriana Amorim, do Diário de Natal

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