Livros para dar e receber

Por Cadão Volpato
Para o Valor, de São Paulo

Não há dúvida de que 2014 foi um ano incomum, com Copa do Mundo e eleições carregadas de emoção. A literatura não ficou imune e parece ter entrado em compasso de espera. Ainda que os lançamentos literários não tenham sido espetaculares, aqui e ali pipocaram livros agradáveis e inspiradores, como ocorre até mesmo nas entressafras.

Quando se esperava que um inventor de best-sellers como o japonês Haruki Murakami aparecesse com mais um tijolo do tamanho de “1Q84”, eis que surge uma história nova de ótima safra, “O Incolor Tsukuru Tazaki e seus Anos de Peregrinação”. Já dois mitos do cinema e da música, Charles Chaplin (1889-1977) e Édith Piaf (1915-1963) ressurgiram em livros reveladores. Antes da obra-prima “Luzes da Ribalta”, Chaplin escreveu uma novela. E Piaf reaparece num livro de autores-fãs recheado de imagens e fotos.

Chico Buarque também enfrenta o passado de forma ficcional – ou nem tanto. Seu romance “O Irmão Alemão” investiga acontecimentos quase inacreditáveis da família Buarque de Holanda. E os pequenos formatos, bons para uma leitura instantânea, estiveram em dois discretos lançamentos – a delicadeza do chileno Alejandro Zambra, que no romance “Formas de Voltar para Casa” fala do que significa ter crescido durante a ditadura do general Pinochet, e os contos surpreendentes de um antigo capista, Ettore Bottini (1948-2013).

Como nem só de delicadeza vive o homem, o americano David Foster Wallace (1962-2008) deixou um catatau que vale ser encarado: “Graça Infinita”. Os antídotos suaves ficam por conta de um romance policial escrito sob pseudônimo pela autora de “Harry Potter” e pelas aventuras de um barão maluco, mostrando que 2014 tende a fechar as cortinas com presentes incomuns.

“O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação”, Haruki Murakami (trad.: Eunice Suenaga) – Mais um personagem para a galeria dos homens solitários da literatura, Tsukuru Tazaki é abandonado sem explicações pelos amigos do tempo de escola e sai atrás da explicação que lhe havia sido negada – e aí mora a beleza do romance, narrado em terceira pessoa, que conta uma fábula contemporânea com grande liberdade.

“Luzes da Ribalta – A Novela Inédita Que Inspirou um dos Maiores Filmes do Grande Cineasta”, Charles Chaplin (org.: David Robinson; trad.: Henrique de Breia Szolnoky) – Em 1952, estreava um dos filmes mais importantes de Charles Chaplin. Mas até chegar a “Luzes da Ribalta”, o cineasta percorreu um longo caminho. Começou com uma visita do mito da dança Vaslav Nijinski, em 1916, e, mais adiante, mudando um pouco as primeiras ideias (sobre a decadência de um bailarino), Chaplin escreveu a novela “Footlights”, fonte do roteiro do filme. Este livro reúne essas histórias, o texto original (inédito por mais de 60 anos), fotos e um ensaio.

“Desenhos Invisíveis”, Troche – Gervasio Troche é um desenhista uruguaio (de origem argentina) dono de uma sensibilidade ímpar. Ele conseguiu cativar de tal forma os fãs brasileiros que eles fizeram um “crowdfunding” (financiamento coletivo) e o trouxeram ao país para lançar em diversas cidades esta pérola. Basta folhear o livro para entender que Troche tem tudo a ver com as linhas finas de Saul Steinberg e a graça misteriosa de um Sempé. E tudo isso sem palavras.

“O Irmão Alemão”, Chico Buarque – A história parece inverossímil: no fim dos anos 20, Sérgio Buarque de Holanda, pai de Chico, deixou namorada e filho em Berlim. Bem depois, em 1967, em encontro com o poeta Manuel Bandeira, o caso foi revelado a Chico, que, anos mais tarde, resolveu contar tudo usando ficção e realidade. O resultado é curioso, com um quê de trabalho de detetive, ambientação na São Paulo do jovem Chico e uma linguagem bem trabalhada, de corte irônico e mais imprevisível do que tudo o que ele já escreveu.

“Piaf, de Môme a Édith 9 – Documentos Inéditos”, Jean-Paul Mazillier, Anthony Berrot e Gilles Durieux (trad.: Marcelo Mori) – Depois do filme “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007), Édith Piaf andava meio esquecida. Este livro recupera os momentos grandiosos e sofridos do maior mito da canção francesa por meio de fotos e manuscritos de cartas que permaneciam inéditos, até que os fãs-autores os trouxessem à luz em grande estilo, num livro apaixonado.

“Uns Contos”, Ettore Bottini – O catarinense foi um designer do primeiro time, autor de inesquecíveis capas de livros, até se cansar e arrumar trabalho num banco. Bottini também era um escritor de grandes qualidades, como mostram os contos desta edição. São histórias fortes, escritas à maneira antiga e com estranhas ambientações no mundo do turfe, da pescaria e das amizades. Um pequeno trabalho para não ser esquecido.

“Graça Infinita”, David Foster Wallace (trad.: Caetano Waldrigues Galindo) – Não espere facilidades neste trabalho que se desenrola caoticamente por mais de mil páginas e parece querer falar de tudo. O romance passeia pela história dos irmãos Incandenza, às voltas com o legado do pai, um cientista que se torna cineasta e roda um filme tão bom que leva os espectadores à morte. Com uma imensidão de detalhes do dia a dia, o livro se passa num tempo em que EUA e Canadá deixaram de existir. É uma grande e hilária aventura da imaginação.

“O Bicho-da-Seda”, Robert Galbraith (trad.: Ryta Vinagre) – J.K. Rowling, autora de “Harry Potter”, migrou sob pseudônimo para os romances de suspense, emplacando esta série, que aborda as aventuras do detetive Cormoran Strike. Filho bastardo de um roqueiro, ele tenta desvendar um crime envolvendo um escritor que deixou para trás um manuscrito demolidor. Diversão garantida, com a pegada de uma Agatha Christie mais modesta e sem compromissos.

“Formas de Voltar para Casa”, Alejandro Zambra (trad.: José Geraldo Couto) – Poeta e professor chileno, Zambra nasceu em 1975, dois anos depois do sangrento golpe de Augusto Pinochet. Neste livro, ele fala da ditadura na perspectiva de um menino e do escritor em que ele se transformou. Com leveza e humor, o romance é também sobre histórias de amor, literatura e música, tudo em formato compacto. O melhor livro do autor até agora.

“As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen”, Rudolph Erich Raspe (trad.: Claudio Alves Marcondes) – Não bastassem as disparatadas aventuras do célebre barão, transformadas num filme maluco dos anos 80 dirigido por Terry Gilliam, esta edição traz os desenhos primorosos de Rafael Coutinho. Nunca é demais dizer que o barão Karl Friedrich Hieronymus von Munchausen existiu de fato (1720-1797). Suas aventuras foram um tanto quanto aumentadas, mas não é para isso que serve a imaginação humana?

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