Lobo Antunes e Saramago

lobo“Poucas inimizades são tão conhecidas no mundinho literário quanto a de José Saramago e António Lobo Antunes. A julgar pelos recentes lançamentos de ambos, “Caim” e “Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?”, talvez fosse o momento de os dois se unirem em uma temporada de descanso e refletirem conjuntamente sobre o que vêm produzindo.

Ainda que sejam livros quase diametralmente opostos -um simplifica a narrativa bem além do razoável, o outro a complica a cada parágrafo-, estão eles unidos pelo fato de provocarem espanto e cansaço em seus tantos leitores.

De “Caim”, de Saramago, e suas viagens no tempo para observar e participar de uma série de episódios do Velho Testamento, obra já resenhada nesta Ilustrada, se salva o engraçadíssimo último capítulo, não por acaso aquele em que justamente ninguém se salva. Fica difícil aceitar que se trate do mesmo autor do “Evangelho Segundo Jesus Cristo”.

Já o romance de Lobo Antunes demonstra novamente o óbvio domínio técnico do escritor. E ele faz questão de nos lembrar disso a todo instante (chegou a dizer em uma entrevista, em um “momento joyciano”, que o livro daria um “trabalhão à crítica”).

Para contar os desencontros de uma família do Ribatejo, vai alternando vozes entre a mãe, o pai morto, a empregada e os filhos e filhas problemáticos a partir da estrutura de uma corrida de touros (“Tércio de Capote” ou “Tércio de Varas” ou “Tércio de Bandarilhas”….).

Se trechos como o seguinte impressionam isoladamente (“Haverá noite para este dia digam-me, uma altura em que deixo de distinguir o salgueiro e depois do salgueiro a janela, os móveis desaparecem porque não acendemos a luz, ficam as pegas de metal a brilhar um momento, um frêmito nas portas que ninguém gira, os meus irmãos procurando-se e eu em busca da saída”…), a leitura das 336 páginas do romance se mostra um exercício deveras irritante.

Resta torcer para que, nos próximos lançamentos de Saramago e Lobo Antunes, provavelmente no ano que vem, as coisas melhorem um pouco.” Adriano Schwartz – Folha de São Paulo

ao topo