Longe da poltrona (Lamarca, o coração em chamas)

Cena do filme Lamarca, com Paulo Betti

O cartaz de divulgação desse filme inclui um logotipo muito sugestivo, também usado na apresentação (título que antecede os créditos na abertura) da obra: o nome de Lamarca recortado sobre uma bandeira do Brasil. A imagem evoca a bandeira nacional ao vento, bandeira estraçalhada, uma identificação entre Brasil e Lamarca.

Um documentário fake que abre, numa tensa reunião de militares, a narração, seqüência de slides, em preto e branco, sobre o personagem, com o rosto do ator Paulo Betti, aponta uma pretensão de realismo e didatismo. Mas Lamarca, o coração em chamas mescla a isso cargas simbólicas muito intensas, dramatizando o que já é dramático: o trajeto do guerrilheiro rumo à morte que, já sabemos, ocorrerá tristemente, como um sacrifício; a coragem e a ousadia do personagem sem futuro pessoal imediato, diante de inimigos muito mais fortes; um futuro que existe, sim, na superação da ditadura, futuro que reabilitará Lamarca como figura humana e política de peso – e o filme é um exemplo de tal recuperação, realizado que foi em 1994.

Esse tom sempre over marca o filme de Sérgio Rezende, desde o estilo de Betti como atore seus companheiros de elenco até às cores predominantes em diferentes cenas e aos seres e objetos que remetem a diferentes significados da narração. Seu subtítulo (o coração em chamas) e os planos finais, da morte, com o personagem central caído e de braços abertos, evocam imagens de Cristo na cruz e do Sagrado Coração de Jesus, que é encimado por uma chama, dotando esse lutador e todo o tema (luta contra a ditadura) de certa sacralidade: a identificação de Brasil a Lamarca se desdobra em Lamarca e Cristo, logo, em Brasil e Cristo. É como se a ditadura fosse um tempo de martírio para quem a combateu (e também para a maioria da população, embora ela apareça no filme apenas como pano de fundo ou citação ocasional), e aquele importante líder fosse o Filho de Deus, morto para nos redimir – há um “nós” subjacente à obra. O tema do martírio cristão, paralelo à imagem sacrificial de Tiradentes (outro Cristo), no filme de Rezende, é discutido no estudo: AGUIAR, Marco Alexandre de. A disputa pela memória: Os filmes Lamarca e O que é isso, companheiro?. Tese de Doutorado em História, defendida na UNESP/Assis. Assis: digitado, 2008.

O viés cristão permeia tal discurso de esquerda no filme, embora sua temática explícita queira remeter para outros planos de valores – lutas contra a opressão, sacrifício pessoal em nome da História, exemplo.

A capacidade de sacrifício de Carlos Lamarca, no filme, chega mesmo à desmedida, como se observa em sua recusa a recuar na luta e se exilar:
“Não sou deputado p’ra passear no exterior. Nós somos a VPR, Vanguarda Popular Revolucionária. E não me submeto à ditadura.”
Se essa fala abriga coragem e certa teimosia individualizante, ela também resulta em excesso voluntarista e perda de algum solo em comum entre luta armada e outros níveis da experiência social e política naquele Brasil – alguns deputados combatiam o regime, por outras vias, e a ditadura oprimia amplos setores da população, sua maioria, não apenas os que participavam dos grupos clandestinos de esquerda. Essa maneira de ver a ditadura (luta prioritária entre militares dominantes e grupos de oposição armada) se faz presente em boa parte da cinematografia dedicada ao assunto e até mesmo em textos de Ciência Política, como se observa no ensaio “Carro zero e pau de arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar”, de Maria Hermínia Tavares Almeida e Luís.Weiss ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares e WEISS, Luís. “Carro zero e pau de arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar”, in: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). Contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. Das Letras, 1998, pp 319/409   (História da vida privada no Brasil – 4).
Um trecho de Charles Dickens foi usado como espécie de epígrafe no filme, salientando que aquele era o melhor e o pior dos tempos, quando as autoridades se faziam ver como Deuses ou Demônios. Memória sobre a ditadura após seu fim, o apelo a Dickens sugere a difícil relação com grandiosidade e dor que o personagem Lamarca evoca, trajeto sacrificial que se impõe pela romântica beleza da atitude, uma derrota anunciada que se redimiria com o fim do regime.

Essa dificuldade acompanha a caracterização de Lamarca ao longo de toda a narração: homem forte – inclusive fisicamente -, dura lógica política, doces afetos abafados (o pai, os filhos, a esposa, a namorada). Seu gigantesco voluntarismo se mistura com um esforço analítico meio messiânico, meio racional. E as fugidias figuras femininas de sua vida – esposa e namorada (a última é Iara Iavelberg, cujo nome não é citado no filme) – servem com doloroso contraponto nessa marcha para a morte, em nome de uma vida melhor. Raros momentos que englobam outros personagens sugerem o viço daquelas pessoas, que a ditadura sufocava tão brutalmente, como se observa particularmente na bonita namorada de Lamarca e, adiante, nos comentários do fiel companheiro baiano Zequinha, relatando que foi seminarista, bom aluno, mas desistiu de se ordenar para não fazer voto de castidade – afirmação de virilidade que também se impõe como opção pela vida e sua continuidade noutros seres.

Uma passagem estratégica no filme é a referida decisão tomada por Lamarca de permanecer no Brasil, contra a opinião de seus companheiros de luta. Isso ocorre num Brasil que o diretor Sérgio Rezende caracteriza claramente como tempo de guerra, com disparos e execuções nas ruas, população sendo constrangida de diferentes formas, fugas, coragem e medos daqueles combatentes. Há um viés de heroísmo individual que tristeza e angústia realçam o tempo todo, apesar da ocasional beleza de paisagens e seres – particularmente, a beleza ética de lutar contra a opressão. Lamarca e outros combatentes são forçados a viverem num mundo à parte, um isolamento crescente (na segunda metade do filme, muitas cenas trazem o personagem em zona rural da Bahia, sozinho, rememorando seu trajeto), dependendo de frágeis apoios que companheiros de luta podiam dar, enfrentando um inimigo poderoso e irado. Nesse sentido, a imagem de pesadelo da Kombi em que Lamarca se dirigia para a Bahia numa estrada em chamas mescla tortura e inferno, o avesso do sagrado coração do país. E esse Lamarca de cinema evoca um Antonio das Mortes (clássico personagem de Glauber Rocha, nos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro) que interiorizasse Cangaço e Messianismo, em nome da Revolução.

Sérgio Rezende apelou para sensíveis matizes de cor na fotografia do filme, que assumiram significados simbólicos, como bem observado por Marco Alexandre de Aguiar no estudo citado. Tons de terra e roxo dotaram a parte final de um teor próximo de anúncio fúnebre, incluindo cenas de tortura do pai de Zequinha e dolorosa fuga de Lamarca e Zequinha. Os fugitivos sofrem a pé, a tropa que os persegue vem a cavalo, doloroso paralelo com a Via Crucis. E o encontro desses destinos é a execução dos oponentes do regime.
Zequinha, perto da morte, ainda fala em vitória. E morre gritando “Viva a Revolução!”.

Lamarca parece assumir mais a derrota, sem perder a grandeza do martírio que o filme tanto realça.

Em 2007, ressurgiram, na Imprensa brasileira, algumas acusações contra Lamarca, vindas de setores das Forças Armadas e de civis conservadores, contrários ao pagamento de indenização a sua família. Alegou-se, dentre outros coisas, que ele foi um desertor e traidor de sua corporação.

É possível que esse debate tenha continuidade, inclusive em relação a outros nomes que participaram da luta armada contra a ditadura. Vale perguntar: desertou de quê, traiu quem?

O filme Lamarca, o coração em chamas ajuda a formular algumas respostas: traiu e desertou de  uma corporação envolvida, em sua maioria, com práticas ditatoriais (ilegalidade, violência, negação da política como trato civilizado); traiu traidores da legitimidade republicana.
Para quem não sente saudades da ditadura, essa traição e essa deserção são dignas de todo respeito.

Lamarca, o coração em chamas (Brasil). 1994. Direção: Sérgio Rezende. Roteiro: Sérgio Rezende e Alfredo Oroz. Baseado no livro Lamarca, o capitão da guerrilha,  de Emiliano José e Oldack Miranda.  Direção de fotografia: Antonio Luiz Mendes. Câmera: Marcos Avellar. Som direto: Jorge Saldanha,. Montagem: Isabelle Rathery. Montagem de som: Jorge Saldanha, NeiFernandes e José Moreau Louzeiro. Direção de arte: Clóvis Bueno. Cenografia: Vera Hamburger. Figurinos: Rita Murtinho. Música (Genérico): David Tygel. Música de: Milton Nascimento, Carlos Santana e Cartola. Identidades/Produção: Morena Filmes e Cinema Filmes. Financiamento/Patrocínio: DEC/Sedu, Governo Trabalhador do Espírito Santo, Geres – Grupo Executivo para Recuperação do Estado do Espírito Santo, Bandes – Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo, Banespa – Banco do Estado de São Paulo S.A., Ministério da Cultura do Governo Federal; Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal de Cultura/Riofilme. Produção: Marisa Leão e José Joffily. Direção de produção: Andréa Queiroga. Produção executiva: José Joffily. Companhia distribuidora: Riofilme. Elenco: Paulo Betti, Carla Camuratti, Eliezer Almeida, José de Abreu, Ernani de Morais, Roberto Bomtempo, Orlando Vieira, Nelson Dantas, Selton Mello, Déborah Evelyn,. 130 minutos. Colorido.

Leituras complementares.

AGUIAR, Marco Alexandre de. A disputa pela memória: Os filmes Lamarca e O que é isso, companheiro?. Tese de Doutorado em História, defendida na UNESP/Assis. Assis: digitado, 2008.
NAGIB, Lúcia. “Sérgio Rezende”, in:  O cinema da retomada. São Paulo: Editora 34, 2002, pp 380/385.
JOSÉ, Emiliano e MIRANDA, Oldack. Lamarca, o capitão da guerrilha. São Paulo: Global, 1980.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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