Lourival Açucena

No dia da poesia, nossa homenagem ao primeiro bardo potiguar.

Em 2007 comemoramos um século de encantamento do nosso primeiro poeta. Seu nome Lourival Açucena, ou o árcade “Laurênio”. Nascido em 17 de outubro de 1827, na cidade alta dos xárias. Seu nome de batismo era Joaquim Eduvirges de Melo Açucena, e o Lourival ele recebera ao representar o papel do Capitão Lourival na peça O Desertor Francês (1846), de Antonio Xavier Ferreira de Azevedo. No séc. XIX Natal ainda era um imenso jardim tropical e, Lourival, o seu pastor a tocar o violão plangente e cantar os olhos da amada que podia ser mais belo que a estrela D´alva. O poeta era um grande menestrel das noites e serões boêmios de uma Natal Bucólica.

Lourival foi um eterno apaixonado e não hesitava em atravessar o rio Potengi a nado e andar mais outras léguas para visitar a sua amada que morava em São Gonçalo. Teve uma vida aventurosa “a la Cervantes”, tendo inclusive sido preso na fortaleza dos Reis Magos com acusação de desfalque na administração da mesa de rendas de Macau.

Entre legítimos e bastardos teve mais de 30 filhos. Seu filho Joaquim Lourival Soares da Câmara – professor Panqueca (1849-1920)- professor do poeta Ferreira Itajubá, sabia de cor quase todas as suas poesias e foi o responsável pela preservação da sua memória. Açucena não deixou livro publicado e felizmente teve em Cascudo um grande antologista. Em 1927, Cascudo publica o livro “Versos” (na folha de rosto tem MCMXX), com parte da obra poética de Lourival Açucena publicadas em jornais e memorizadas por Panqueca, grande informante de Cascudo para assuntos culturais e LourivalAçucenenses.

Improvisador destacado e modinheiro. Sentimentalmente esteve ligado aos árcades e românticos. Tinha predileção pelo poeta Bocage. São muitas as loas cantadas à musa Marília:

“Copada mangueira/ vistosa e faceira/ que do rio à beira / se vê florir/ me lembras o dia/ de amor e folia, / em que terno ouvia/ Marília Cantar”

Para Cascudo, no prefácio ao livro Versos, Lourival era a alma alegre da cidade. Improvisador de festanças, tirador de “reses”, sonetista aos numes da época, marcador de quadrilhas, artista dramático, fazedor de brindes, compadre de meio mundo, respeitado e cortejador, era ainda aquele que conhecia; – “os tristes desvios d´altivosas criaturas”. (Versos 1986 pp 25-26)

No importante livro de Ezequiel Wanderley, Poetas do RN (1922), foi selecionado de Lourival o poema “Política”, onde o poeta responde a “Yayá” porque deixou a política:

“… Nas vésperas da eleição, / vão à casa do compadre, / rompem sedas à comadre…/ E o pobre diabo/ entra na rascada, /tomando sopapos / servindo de escada…”

Em “Canto Potiguara (Toré)”, o poeta escreve uma de suas poesias mais inspiradas em homenagem a Porangaba, pseudônimo de sua amada Silvania, com quem ele casou aos 77 anos.

“Curupira se afugenta / manitó esquece a taba,/ mas minh´alma não esquece / o amor de porangaba ”

Em 1907, o poeta Henrique Castriciano escreve para o jornal “A República” vários artigos com o título “Lourival Açucena e seu Tempo”. O poeta possuía fidelíssima, assombrosa memória; sabia a história antiga, inúmeras comédias e, estrofe por estrofe, os Lusíadas, de Camões. Na velhice, diz ainda o Castriciano: entregue à ociosidade começou a exceder-se, dando-se a freqüentes libações, esgotamento em virgílias que o seu envelhecido organismo não suportava.

Para Câmara Cascudo não faltou ao poeta certo respeito admirativo. A cadeira No 4 da academia norte-riograndense de letras tem como patrono Lourival Açucena, fundador Virgilio Trindade e sucessor o nosso amigo Enélio Lima Petrovich. Mas, o maior respeito que devemos devotar ao grande e inspirado poeta da bucólica e frondosa cidade Natal do séc XIX, é não esquecer a sua bela poesia e modinhas que o livro do prof Cláudio Galvão ajudou a resgatar. (A modinha norte-riograndense 1999).

O platonismo do amor caboclo do poeta é revelado no belo poema antologizado que escolhi para terminar esse breve artigo em comemoração ao centenário do grande bardo potiguar. “Amor é brando é zangado/ é faceiro e vive nu, / tem vistas de cururu, / e vive sempre vendado…(Panorama da Poesia Norte-Rio- Grandense, Rômulo C. Wanderley, 1965)

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