Lua Noiva do Sertão

No sertão, tão logo a gente comece a falar, além de papai e mamãe nos ensinam a palavra lua, e nos ensinam, também, a apontar no céu o astro iluminado. E,  quando paramos de gaguejar, já decoramos o primeiro verso: Lá vem a lua saindo, redonda como um tostão, trago papai no peito e mamãe no coração …

Olhar a lua cheia é um programa dos mais cobiçados e, na minha infância ,adultos e crianças se preparavam para isso.  Os meninos pequenos eram asseados mais cedo, vestiam a camisa de dormir logo que o sol começava a se pôr e já comiam o escaldado de leite ou o mingau de goma seca. 

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A janta de cuscuz ou batatas também era servida ainda claro para os adultos, de modo a dar tempo às mulheres de lavar a louça. Depois todos iam para o terreiro aguardar o espetáculo. Eu, desde menina tenho a sensação de que as noites de luas são mais frias, e para mim são as mais acolhedoras.

Como não existia calçadas nas casas, o terreiro era o lugar onde os adultos se reuniam enquanto a meninada brincava de roda, de melancia, de tô-no-poço ou de bandeirinha, no chão riscado com pedaços de varas.

Em noites de lua ou em noites de escuro, o terreiro era o palco das conversas e das brincadeiras.  Porém, quando tinha luar tudo ficava mais animado. Às vezes até se acendia uma fogueira para esquentar um pouco a noite.

A noiva no altar

“[…] apreciar a lua no nascente e o sol no poente, num espetáculo que só a natureza é capaz de apresentar.

Nos últimos dias da fase crescente e no começo da fase cheia a lua chega de mansinho, como sem avisar, e quando você vê lá está ela, já alta, se escorando nos últimos raios do sol, antes de assumir o posto de dona da noite.

Nesses dias, se a gente prestar bem atenção pode, na mesma hora, apreciar a lua no nascente e o sol no poente, num espetáculo que só a natureza é capaz de apresentar.

Os dias vão passando e ela, a lua, vai demorando um pouco mais a se mostrar. Parece até noiva quando se atrasa para o altar e fica atiçando a curiosidade de todos, remanchando.

É nesses dias de “lua noiva” que o sertanejo gosta mais de apreciá-la. Junta a família, conta histórias de troncoso para a meninada,  daquelas que tem mula sem cabeça e lobisomem, e daquelas outras, sobre reis e rainhas, bruxas e príncipes encantados. 

Ouvindo esses encantamentos, para mim não demorava o tempo passar. Logo surgiam os primeiros raios da luz da lua, uma cauda brilhante, parecendo véu de noiva, se espraiando sobre tudo.

Em cima da água no riacho na frente de casa, em cima das serras distantes, como o Cabugi, em cima da ladeira do serrote próximo. E se espalhava também pela mata toda, fazendo a sombra dos pés mais alto desenhar silhuetas no chão do terreiro varrido.

Dias havia em que a “lua noiva” começava a aparecer amarela, como ouro, até se levantar por completo, e se tornar cor de prata. Noutros, surgia prateada tão logo despontava no horizonte.

E havia também aqueles dias em que ela aparecia se escondendo por detrás de nuvens diáfanas, que pareciam guardar o horizonte dos céus.  Mas não importava como a lua aparecia, aquelas noites eram de deleite, noite de todo mundo se encantar.

Quem traiu São Jorge?

Quando eu aprendi a ler, aprendi também um pouco mais sobre a lua. Os livros me disseram que ela não tem luz própria, me explicaram as fases da lua crescente, lua minguante, lua cheia e lua nova. E depois, quando eu cresci um pouco mais, me disseram também que os astronautas passaram por lá.

Eu não gostei muito quando disseram que outros homens, fora São Jorge, foram visitar a lua, que passaram por lá.  Durante todo aquele tempo da infância eu acreditei que ele, São Jorge, montado no seu cavalo e de espada na mão, era o guardião da lua. Depois, com tanta estrela por aí os astronautas escolheram logo a lua prá passear?

Por outro lado, eu nunca me importei porque a lua não tem luz própria. Eu imaginava que o sol era o seu namorado e por isso cuidava para que ela não ficasse no escuro. Aquela fase quando ela não aparecia, a lua nova, acontecia porque eles precisavam descansar.

Quão bonita é a lua, a Lua Noiva do Sertão! Quantos poetas inspirou, quantos amores testemunhou, quantas brincadeiras de criança iluminou nos terreiros na zona da mata.  Felizmente, os astronautas não mudaram a lua de lugar.

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