Luana na selva sem diamantes

Por Mário Bortolotto
FSP

A garota que quando quer amenizar a dor se entrega à sua cartilha com quatro itens indispensáveis: “Dançar, beber, ficar com os amigos e chorar”

Assisti dia desses ao filme “Um Lugar Qualquer” de Sofia Coppola, que mostra a vida de Johnny Marco, um astro completamente entediado com sua condição de celebridade e totalmente desprovido de algum sentido real para sua vida. Em uma entrevista coletiva, alguém faz a ele a pergunta mais difícil de ser respondida: “Afinal, quem é Johnny Marco?”.

Foi com essa questão na cabeça que aceitei a missão de escrever sobre Luana Piovani. Eu queria entender se era possível responder a essa pergunta, tratando-se de uma celebridade em que o que é exaustivamente ensaiado para ser dito e mostrado passa a ser tão natural e espontâneo que a própria pessoa já perdeu a noção de estar realmente dizendo o que pensa e o que acredita.

É comum a qualquer um a adaptação ao meio em que é colocado. No meio das celebridades, me parece que isso é ainda mais fundamental, praticamente uma condição de sobrevivência na selva.

Não gosto de escrever sobre alguém que eu não conheço intimamente com julgamentos preconcebidos por mais inevitável que isso possa vir a ser. Por isso, achei oportuno quando a Serafina me propôs conversar com Luana antes de traçar o seu perfil. E, na verdade, não me interessava traçar um perfil segundo meus critérios de investigação, mas sim apenas tentar entender um universo que me é tão estranho.

Especificamente em relação à Luana, não me interessava sua vida pessoal e sua intimidade sexual, com quantos caras ela já esteve ou com quem dormiu na noite passada. Então, depois do encontro que tive com ela, continuo não sabendo qual a cor de sua calcinha ou sua escola de samba “do coração” e continuo sem o menor interesse em saber.

Posso continuar vivendo na ignorância sobre esses fatos que algumas revistas parecem achar de suprema relevância. O que me interessa é a investigação da mulher debaixo do invólucro de celebridade. E isso quer dizer que ela pode muito bem estar de calça jeans e camiseta. Quem quiser outro tipo de matéria, é só clicar no Google em “Luana Piovani + escândalos” e saciar sua volúpia.

Para Crianças e Adultos

Espero Luana no camarim em que ela vai se submeter à maquiagem para a sessão de fotos que fará a seguir. Faz muito calor no Rio de Janeiro, um calor excessivo para um legítimo urso polar paranaense como eu, atualmente residindo num iglu paulistano.

Espero Luana lendo um livro de entrevistas de Tom Waits. Tento me familiarizar com o “modus operandi” dos entrevistadores, embora não tenha a menor pretensão de agir como um de tal espécie. Apenas quero conversar informalmente com ela a fim de tentar entender o mistério por trás da figura célebre. E notem que eu disse, humildemente, apenas entender, e não decifrar. Jamais tive tal pretensão.

Ela abre a porta, sorri o mesmo sorriso que vi há 20 anos quando ela apareceu no seriado “Sex Appeal” como uma modelo adolescente comendo pipocas e assistindo a lutas de boxe. Ela entra, senta, me cumprimenta e passamos a conversar.

Surpreendentemente para mim, ela se mostra ponderada, com um raciocínio rápido e articulação invejável. Não que eu desconfiasse de sua esperteza. Afinal, ela convive com o microfone aberto diante dela desde os 16 anos. Acredito que ela senta para conceder uma entrevista e prontamente aciona o seu sistema de defesa.

Mas aí acontecia o imprevisto que me levava imediatamente e infelizmente à minha velha teoria sobre celebridades, ou seja, a total adequação ao meio. Alguém abria a porta do camarim e ela mudava radicalmente de postura. Era como sair do descompromisso de uma adega e um bom porre adolescente na casa dos vizinhos vinicultores para uma sala de estar com matronas tagarelas e afetadas. Luana se transformava e se adequava em função de parecer integrada ao novo meio que se apresentava.

Então, quando voltávamos a ficar sozinhos, ela novamente se compenetrava, olhava nos olhos, não mascarava, jogava o jogo como devia ser jogado. E voltava a ser a mulher agradável e franca (?) do início da entrevista.

E foi assim durante os prováveis 50 minutos que passamos conversando. Ela ia de Jeckyl a Hyde em questão de segundos. Caim a Abel ou João Victor a Quinzinho, numas de buscar uma referência mais televisiva e condizente com a entrevistada, bastando alguém abrir a porta.

Ela confessa que, apesar de ter feito o seu primeiro trabalho como atriz aos 16 anos, só descobriu que queria mesmo viver da profissão aos 19, quando fez sua primeira peça de teatro.

Ela me conta de seus novos projetos, o filme “Agamenon”, do diretor Victor Lopes que está sendo rodado no Rio, o seriado “A Mulher Invisível”, que estréia na Globo, em maio, e o programa “Superbonita” do GNT, que terá a atriz como apresentadora a partir de abril.

Me conta de sua infância em Jaboticabal com os pais muito jovens e fãs de rock and roll (o pai) e de MPB (a mãe) e ela sempre acordando com música muito alta. Ela sempre teve preguiça de ser a melhor aluna da classe como se já intuísse que a trilha que escolheria para seguir prescindiria de um brilhante currículo escolar. “Eu ficava satisfeita com minha nota 8. Estudar o que a gente não gosta é muito chato.”

Luana é de turma, não se furta a namorar, a sair pra beber e a dizer o que pensa; escolhe as amizades e as cultiva até meio que passionalmente exigindo tanto quanto ajuda. Luana não deixa perguntas sem resposta e se gaba disso, mas se sai muito bem e espertamente com evasivas quando entramos em terreno mais delicado. Perguntei a ela se havia algo terrível em sua vida e que ela evitava falar a respeito. Ela me deu uma resposta enorme e não disse nada.

Sorri com admiração. Não tem medo da contradição de brincar com sua faceta sexy em filmes para adultos e depois trabalhar em peças infantis. “Dentro de mim tem um trilhão de coisas além do pueril e do sexy.” Acredita que, se tivesse um céu pra ir pós-morte, “seria exatamente como aqui, mas sem dor e sem pólvora”.

Dá como resposta aparentemente ensaiada que o que lhe estimula é o conhecimento, e não a fama ou o dinheiro. Enquanto ela falava, simpatizei mais com ela, porque o que me interessava era o que estava por trás da resposta, nas entrelinhas do que ela tentava me responder com sua experiência e malandragem de “entrevistada profissional”, porque eu gosto da mulher determinada e aparentemente sem medo, com inegável vocação para o sucesso, por mais que o sucesso seja algo que apenas me interesse na mesma medida em que me interessa o extermínio em massa, isto é, unicamente como objeto de estudo.

Mas eu realmente gosto da garota que, quando quer amenizar a dor e o sofrimento, se entrega à sua cartilha com quatro itens indispensáveis: “Dançar, beber, ficar com os amigos e chorar”.

Luana, se totalmente desarmada conseguisse ficar, seria o tipo de mulher capaz de fazer você esquecer suas preferências políticas ou o time para que você torce. Porque, diante de tão adorável contradição, isso deixa de ser importante e você até acredita que pode ser corintiano e palmeirense ao mesmo tempo, Flamengo e Fluminense.

Saí daquele camarim com o mistério intocado sem entender esse mundo estranho e inóspito, onde sou conduzido por um guia cego pelo labirinto que é essa selva. E os diamantes continuam brutos e, felizmente, eternos.

Ainda vamos ter muito tempo pra tentar entender. E, se nenhum de nós conseguir, resta pelo menos a certeza de que Luana vai continuar linda, como o Rio de Janeiro que eu percorri de táxi em direção ao Santos Dumont nessa tarde insuportavelmente tórrida e nem um pouco previsível.

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