Lugar acolhedor

Por Paulo Sales
BLOG ESTE LADO DO PARAÍSO

Não lembro quem escreveu que nunca devemos voltar aos lugares onde fomos muito felizes. Correríamos o risco, dessa forma, de dissolver uma valorosa sensação de nostalgia, encerrada em algum canto do nosso imaginário, que tem como matérias-primas um vago sentimento de felicidade e imagens devidamente enevoadas pelo tempo. Acredito que deve existir algo semelhante em relação aos livros que lemos e amamos, e que guardamos na memória como pequenos diamantes de celulose. Eles seriam, portanto, muito mais do que um volume esquecido na estante. Talvez algo como um território acolhedor, que visitamos há muito tempo e que deixou em nós lembranças imperecíveis, como instantâneos de uma época bem-vivida.

Tudo isso me veio à mente hoje, após uma amiga comentar no Facebook que se sentia uma personagem de Cem Anos de Solidão, por conta das chuvas torrenciais que não abandonam Salvador (numa alusão aos anos de chuva ininterrupta que assolaram Macondo na obra de Gabriel García Márquez). Sim, Cem Anos de Solidão. Difícil encontrar outro romance que personifique melhor a imagem de um lugar acolhedor. Ele é muito mais do que um livro, assim como Macondo é mais do que uma cidade e José Arcádio, Ursula Iguarán, Remédios, Amaranta, Rebeca, Pilar Ternera e Aureliano Buendía (os tantos que habitam aquelas páginas) são mais do que personagens.

Lembro de ter lido o livro de Gabo pela primeira vez aos 15 anos, logo depois de abandonar com tristeza O Amor nos Tempos do Cólera, outra obra inesquecível do colombiano. Voltei a ele umas duas ou três vezes em um espaço relativamente curto de tempo. O certo é que há uns 20 anos não volto lá. A edição que tenho, muito simples e com as páginas quase amarronzadas pelo tempo e o manuseio, só é tocada quando preciso rearrumar minha estante para a inclusão de novos volumes. Um tesouro velho e esquecido, pelo qual pouquíssimas pessoas pagariam mais do que um ou dois reais. Mas nem por isso um tesouro menor. Não esqueço jamais o parágrafo inicial: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía se lembraria do dia em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. Não deve ser exatamente desse jeito, mas é algo assim.

O fato é que hoje senti muita vontade de voltar a esse lugar onde fui muito feliz. Rever, agora com os olhos de homem maduro (ou nem tanto), toda aquela gente que eu adorava. Mas tenho receio de romper a tímida membrana de nostalgia que o envolve e me decepcionar com o reencontro. Perceber que os personagens envelheceram mal, tornaram-se imperfeitos – ou serão eles que enxergarão em mim um estranho, intruso em território explorado um dia por um outro leitor, muito parecido comigo, mas sem a mesma capacidade de vivenciar o delírio silencioso? Não sei. Talvez seja mesmo melhor deixá-los em paz, dormindo serenamente naquela cidade de papel amarronzado, imprensados entre outros livros do homem que os criou.

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