Por um sim ao lugar da escuta

A expressão “lugar de fala” tem trazido um debate sobre a legitimidade do discurso na sociedade atual. Refere-se à multiplicidade de vozes que expõem um ponto de vista de determinada situação, e legitima essas vozes a partir das condições sociais em que se dá a situação de que se fala.

No Brasil, o conceito é difundido pela filósofa Djamila Ribeiro, a qual escreveu o livro “O que é lugar de fala”.

Partindo de pesquisas sobre feminismo negro e sem negar as individualidades, Djamila enfatiza a importância da marcação do lugar das narrativas das mulheres negras sobre si mesmas, uma vez que suas realidades permanecem apagadas por narrativas da normatização hegemônica, sem a legitimação da vivência das condições socais das quais se fala.

Pensando nessa expressão, mas partindo para uma análise mais próxima das individualidades, me ponho a pensar no quanto estamos perdendo um outro lugar: o lugar de escuta.

Na verdade, há mais exatamente uma recusa desse lugar. Estamos cada vez mais presos à necessidade de falar, de opinar, de fazer valer nossas conclusões, muitas vezes impulsivas.

Agora que conquistamos um palanque virtual (seja ele verdadeiro ou apenas desejado, pois nas redes sociais não temos certeza de quantos se dispõem a nos ouvir), ficou mais fácil anunciar pensamentos e crenças.

Narcisistas que somos por natureza humana, sucumbimos constantemente à tentação de nos fazer ouvir.

Opinamos sobre tudo ou quase tudo, a depender do nossa maior ou menor parcela de narcisismo e também da nossa parcela de bom senso, que muitas vezes atua como freio para nossa verborragia.

O que nos falta, no mais das vezes, é escutar. Escutar principalmente quem vive as diversas situações de que se fala. Escutar quem tem, legitimamente, o lugar de fala.

“Escutar é, pois, desapego”.

Narcisistas no palanque virtual

Entre os antológicos conselhos dados a Laertes por seu pai Polônio, na peça Hamlet (Leia artigo “Por que amamos tanto Hamlet?”), de Shakespeare, está o de falar menos e escutar mais.

Na verdade, o conselho específico difere um pouco do foco aqui tratado, mas vou aproveitar para transcrever todos os conselhos de Polônio, só para lhes deliciar, caros leitores eventuais, com a beleza da literatura.

Traduzida por Millor Fernandes, eis a lista de conselhos completa:

“E trata de guardar estes poucos preceitos:/Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo./Amistoso, sim, jamais vulgar./Os amigos que tenhas, já postos à prova,/Prende-os na tua alma com grampos de aço;/Mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume/Mal saído do ovo./Procura não entrar em nenhuma briga;/Mas, entrando, encurrala o medo no inimigo,/Presta ouvido a muitos, tua voz a poucos./Acolhe a opinião de todos – mas você decide./Usa roupas tão caras quanto tua bolsa permitir,/Mas nada de extravagâncias – ricas, mas não pomposas./O hábito revela o homem,/E, na França, as pessoas de poder ou posição/Se mostram distintas e generosas pelas roupas que vestem./Não empreste nem peça emprestado:/Quem empresta perde o amigo e o dinheiro;/Quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia./E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo./Jamais serás falso pra ninguém.” 

Contemplar com os ouvidos

Retomando o assunto, quanto mais tenhamos certezas prontas, mais nos será difícil escutar. Tenderemos a nos agarrar a ideias pré-concebidas que concebemos eternas e mesmo essa eternidade nos será custoso questionar.

Só conseguiremos escutar se estivermos dispostos a balançar os nossos pontos de vista, e tendemos a ser muito apegados a eles.

Escutar é, pois, desapego. No mais das vezes, escutar significa observar outras realidades a partir de pontos de vista que não são os nossos e quando se trata de realidades que não vivenciamos, escutar significa compreender a legitimação da fala do outro e respeitá-la. Escutar é contemplar com os ouvidos. Escutar legitima as nossas conclusões.

E não necessariamente modifica os nossos pontos de vista. Pode até fortalecê-los e fortalecer os nossos argumentos. Argumentar bem pressupõe ouvir o que o outro fala, para poder formular respostas sem pré-julgamentos.

Muitas vezes já pensamos saber o que o outro dirá, por já termos uma ideia formada sobre a pessoa dele. Por um preconceito, portanto. E quando ele fala, ainda antes de ouvi-lo, já aplicamos aquele rótulo.

É só experimentar uma olhada nos comentários nas postagens de redes sociais, sobretudo nesta época de acirramentos de opiniões políticas, que logo chegaremos a reduções dos tipos: “Você diz isso porque é petista”, ou “Você diz isso porque é fascista”, ou “Você diz isso porque é coxinha”.

Que não recusemos o lugar da escuta

E pode até ser, porque já viramos reféns de nossas trincheiras, robôs dos lados que tomamos. Os rótulos costumam substituir a resposta ao que efetivamente a pessoa falou.

Falta escuta do argumento do outro, falta compreensão de suas palavras, falta sobretudo esforço para formular o contra-argumento.

Pessoalmente, sempre fui daqueles que só tem uma boa resposta pra qualquer coisa meia hora depois.

E sempre achei isso muito ruim, sempre ficava com raiva de mim mesma por não ter pensado imediatamente no argumento que, depois, me parecia o melhor e deixaria a outra pessoa no vácuo. Ah, a vaidade, essa quimera…

Mas tenho pensado que os bons argumentos são frutos do tempo de maturação. Eles precisam ser pensados e pesados e sempre com base no que foi posto pelo outro. Precisam ser pensados a partir da escuta.

Por isso, creio ser fundamental o esforço para que não recusemos esse lugar, a despeito da forte tentação narcísica de fazê-lo.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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